Antes da revolta, por trás da balbúrdia

Dentre todas as notícias que aparecem sobre agressão a professores, mais especificamente de alunos que agridem seus professores, quantas notícias sucessivas vemos sobre o parecer do acontecimento, desenrolar da história, explicação e/ou motivo da agressão, situação atual do(a) aluno(a) e professor(a)? Quantas retribuições temos sobre remediação ou prevenção de atitudes como essas que partem de alunos? Quais e quantas notícias saem sobre como esses alunos foram/são tratados após certas atitudes e rebuliços, revoltas que causam com as notícias iniciais sobre suas atitudes?…

Eu poderia fazer milhares de perguntas — sendo bem exagerada — e talvez não teria, praticamente, nenhuma das repostas se fosse correr atrás de matérias em jornais e internet… O que me deixa bem triste, e que não é diferente com outros assuntos irrelevantes para esse tipo de mídia. Falar ou pensar no porquê disso (não ter respostas/explicações ou matérias dedicadas ao porquê desses acontecimentos que nos causam “revolta”), em relação à mídia me deixa preguiçosa, infelizmente. Então se tratando dessa mídia em si, não vem ao caso aqui, agora (apesar de fazer parte do que gostaria de falar).

Este texto, é quase como um complemento do texto que escrevi recentemente “Sentenças emocionais”. Parte de um pensamento semelhante que, na verdade, talvez seja o mesmo pensamento mas com sujeitos e situações diferentes. Vale lembrar, que não se trata de defesa ou julgamento, que existe multiplicidade de casos e nenhum deles é ou será igual.

Imaginem a paixão que a professora ou professor que passa por isso, tem por sua profissão; o amor que eles têm por cada aluno ou que desenvolvem ao longo do tempo em que conhecem e passam a entender melhor estes.
Penso nisso todos os dias: no prazer que esses seres (os professores) têm, não só de compartilhar suas especialidades, mas de formar cidadãos, ajudar na construção e transformação de “novas” mentes e na busca de conhecimento, principalmente.

Lembro-me, com mais ênfase, de alguns trechos de um livro de Paulo Freire:
“Não temer os sentimentos, as emoções, os desejos e lidar com eles(…). Estar advertidos e abertos à compreensão das relações entre os fatos, os dados, os objetos na compreensão do real (…). Mais ainda, que o necessário ensino desses conteúdos (ensino mecânico dos conteúdos) não pode prescindir do crítico conhecimento das condições sociais, culturais, econômicas do contexto dos educandos.
E é esse conhecimento crítico do contexto dos educandos que explica, mais do que a dramaticidade, a tragicidade com que vive um sem-número deles. Tragicidade na qual convivem com a morte muito mais do que com a vida e em que a vida passa a ser quase puro pretexto para morrer.” — 
Quinta carta: Primeiro dia de aula. “Cartas a quem ousa ensinar”, Paulo Freire.
Onde o professor precisa assumir seus medos e inseguranças para que possa vencê-los. E que a “leitura” de sua classe — conjunto de educandos — não seja esquecida.

Acredito que existe um grande motivo para continuar numa profissão, onde você está sujeito a talvez certos riscos(?). Uma profissão que, na verdade, não teria motivo algum para ter riscos (no caso, físicos), mas sim desafios — em relação a superar as “barreiras que impeçam algo de se tornar realidade” ou o que muitos acham ser impossível, como por exemplo, educar um aluno rebelde, difícil de lidar e resistente a qualquer tipo de sentimento contrário à raiva, rancor, dor, sofrimento...

Enxergo esses professores e educadores também como “psicólogos”. Não exatamente o profissional da psicologia — nem teria como — , mas com esse pensamento de que o ser humano tem suas falhas e que necessita de ajuda; que por mais rebelde e resistente que seja, merece nem que seja um mínimo de atenção; ser ajudado não só para o convívio com os que estão à sua volta, mas também para si mesmo.

Dentro dessa minha visão do que é ser um(a) professor(a) e educador(a), esse(a) precisa também de ajuda, sempre: de psicólogos; de intérpretes de língua de sinais… e muito mais da participação dos pais, familiares e responsáveis pelo educando. Esses responsáveis que, muitas vezes e infelizmente, só se descobre se “existem ou não” quando o educando já está num “caminho sem rota”. Não falo exclusivamente de alunos que agridem e ameaçam professores, mas também de alunos que simplesmente não falam ou fazem nada.

Aí o porquê de eu considerar importante, valorizar e enxergar professores e educadores como “psicólogos”, assim como pensar mais sobre as atitudes (seja ela qual for, mas não se limitar ao que uma matéria diz sobre o assunto, ou o que essa matéria julga e quem ela julga) dos alunos com profissionais da educação: às vezes o educando sente-se bem e melhor na escola ou ao lado do(a) professor(a), como se estes fossem um abrigo e proteção, quando também é de extrema importância sentirem o mesmo em casa, ao lado daqueles que também são responsáveis por sua formação e educação.

Antes da revolta, que o pensamento seja amplo, que se expanda; por trás da balbúrdia, há explicação, ao menos um caminho até ela.