Cadê a mulher que eu era?
Assim que terminou o meu “grande corte”, a cabeleireira disse: “Você pode usar brincões, passar um batom vermelhão, usar acessórios no seu cabelo ou fazer esses enroladinhos aqui…”, como quem quer amenizar a dor da perda. Pra que, moça? Pra me sentir mais bonita, mesmo que eu estivesse “horrível”* com aquele cabelo super curto? Para “parecer uma mulher de novo”? Para que os acessórios tomassem frente de quem eu sou, tomassem conta da minha aparência?
Eu reproduzi as palavras dela por bastante tempo, e usei todas essas dicas até perceber que meu cabelo não é maior que eu, não é o mais importante. E como eu percebi isso? Eu só cansei de me preocupar com ele.
No início eu pensava em pesquisar receitas de hidratação, e aí eu tinha preguiça de pôr em prática. Passei um ano e meio, mais ou menos, só lavando e passando creme depois. Meu black não tinha um corte bacana, não era hidratado, e os pequenos cachos não eram definidos a cada lavagem.
Eu descobri que não gosto de cabelo. Dá trabalho demais. E não tô fazendo comparação, não! Cabelo alisado dava trabalho sim, muito, e o pior dele, era que eu precisava me obrigar a fazer todos os processos —muitos desses, todos os dias — se quisesse aquela aparência e quisesse mantê-lo liso, no lugar, adequado e suportado pelos outros. Mas o meu cabelo natural, quando grande, pra mim dava trabalho também!
Cabelo raspado não me dá preguiça, não me ocupa por muito ou pouco tempo que seja. E ele também tem defeito: cresce de novo! Mas ainda assim, é divertido passar a mão na cabeça após o corte, e sentir os dedos massageando a cabeça com mais atividade e sem muito esforço.
Cadê a mulher que eu era? Aquela que deixou-se enganar pelas falas de outrem. Esqueceu-se de experimentar sua própria vivência… Não sei onde está, espero que tenha desaparecido.
Ouvi falar que a preguiça é na verdade o medo. Mas a minha preguiça me fez enxergar quem eu precisava parar de ser — quem eu não era — , e acabou me dando coragem.
*Diferente do que ouvi alguns falarem sobre cabelo muito curto, eu quase não tinha cabelo e me senti leve, aliviada. Não horrível.
22.08.17
