Sobre a parcela de culpa da vítima em relacionamentos abusivos

Foto: Valeria C★Preisler

Existe uma vertente de culpabilização da vítima em relacionamentos abusivos um tanto quanto sutil e velada, mas que tem o poder de gerar consequências tão negativas quanto as tradicionais formas de transferência de culpa.

Ao lado do “ela provocou” e “com uma atitude dessas, o que ela queria” também existe o: como ela foi burra ao ponto de se submeter a isso? E é nesses contextos em que a vítima além de passar por toda a dor de estar em processo de recuperação de tudo que lhe aconteceu, tem que adicionar mais uma parcela de culpa a si mesma: como é que eu não fui perceber?

O que a maioria dos textos “lacradores” e “tombadores” de empoderamento não dizem é que dificilmente alguém vai estar preparado para lidar com um relacionamento abusivo. Simplesmente porque nós nunca nos imaginamos vivendo algo assim. No alto de nosso conhecimento e instrução sobre o assunto, podemos cair sim em situações abusivas que sequer pensávamos viver. E aquela figura carregada de amor e cumplicidade que o outro representava pode se tornar o nosso próprio algoz.

O que ninguém diz é que é difícil se identificar no papel de vítima. É duro admitir para si mesmo que você falhou em ler os sinais. Que as histórias que você criou para justificar as atitudes da pessoa amada não passam disso: meras ficções introjetadas pelo outro para que você se sinta como se tivesse uma parcela de culpa na situação. E no meio de tantas feridas deixadas por um relacionamento abusivo, essa é bastante difícil de curar.

Há algum tempo estava conversando com uma amiga minha a qual sempre admirei por sua independência e coragem diante da vida. E foi então que eu vi aquela mesma figura de força, empoderamento e fibra interior desabar em meio ao desespero de um relato de que havia vivido uma situação de violência com seu antigo companheiro.

Aquela mulher independente e decidida que sempre batalhou muito para sustentar a sua família estava me contando que, depois de sofrer uma agressão, ainda havia cogitado voltar com ele. Isso antes de um episódio extremo onde ela finalmente percebeu o que estava acontecendo. E, em meio a dor de estar sentindo tudo aquilo, a culpa teimava a perseguí-la. “Como é que eu pude não perceber?”.

Naquele momento eu dei um triste suspiro ao ver refletida nela a figura de incontáveis mulheres que passaram por relacionamentos abusivos e se culpabilizaram por ter se envolvido em algo assim. Vi situações que aconteceram inúmeras vezes com várias amigas minhas, e até comigo mesma, serem envolvidas mais uma vez pelo véu da culpa.

Diante de uma injustiça tão grande como essa, gostaria que esse texto fosse o suficiente para preparar você que o lê, seja quem for, a viver algo assim. Infelizmente não é, mas não custa reforçar que: qualquer pessoa está sujeita a viver um relacionamento abusivo. E, quando você sair dessa, porque eu sei que você vai conseguir, não se culpe por ter vivido isso. Fortaleça-se com essa experiência e ajude outras pessoas a jamais terem que viver o mesmo que você.

Ainda é pouco, mas já é um pequeno grãozinho na corrente para que menos histórias acabem assim.