A garotinha na rua

Hoje encontrei uma garotinha perdida e o desfecho da história não sai da minha cabeça. Estava voltando para casa depois da aula, quando vi uma menina chorando em frente a uma doceria. Ela estava em pé, encostada num cantinho, com uma boneca nos braços. Devia ter uns 6 anos e não parecia estar longe de casa.

Antes de passar por ela, ouvi uma mulher loira perguntando por que a garotinha estava chorando. Não ouvi a resposta. Continuei andando. Até que a mulher questionou se ela estava perdida. A menina, então, respondeu que sim. Disse que estava com a avó, mas não sabia para onde ela tinha ido. Parei e recuei um pouco para tentar ajudar.

Outra moça se aproximou. Durante uns dois minutos, as duas perguntaram se ela morava perto, qual o nome da avó, etc. E a garotinha ficava cada vez mais apreensiva. Resolvi fazer o óbvio: abri a porta de vidro e perguntei se alguma das duas clientes que conversavam com a atendente era a avó dela. Sim, a avó estava lá dentro e ficou irritada ao descobrir que a menina não tinha entrado na doceria. Ou seja, ela nem tinha percebido que a neta estava do lado de fora. Meu primeiro pensamento foi: e a responsabilidade era mesmo da garotinha?

Apenas uma porta de vidro separava a menina da avó. Por algum motivo, a criança ficou para trás e isso bastou para que ela se sentisse sozinha e perdida. Me pergunto quantas vezes os adultos não acabam dando responsabilidade para as crianças quando deveriam cuidar delas? O que tenho observado é uma tendência ao encurtamento da infância. A sociedade tem exigido que as crianças se tornem miniadultos.

Alguns pais preenchem todos os espaços da rotina dos filhos com atividades infinitas e nem perguntam o que eles acham. Não me surpreende que muitas crianças se sintam como aquela garotinha: sozinhas e perdidas, mesmo estando, às vezes, a menos de 10 metros daqueles que deveriam ter cuidado, atenção e carinho por elas.