Lembre-se quem você é
O Rei Leão, longe de ser apenas uma história simples para crianças, carrega um simbolismo poderosíssimo sobre como a fuga das responsabilidades e a entrega aos prazeres simplórios pode estragar uma pessoa.
Logo após o assassinato de seu pai e ser falsamente acusado como responsável, Simba, príncipe leão e herdeiro do trono é expulso do reino e forçado a vagar sozinho, largado para morrer. Ainda filhote e sem forças para sobreviver sozinho, logo se vê com fome, com sede e sem recursos. Por um acaso do destino ele é salvo pelo suricato Timão e seu amigo javali, Pumba.
Timão e Pumba sabiam quem Simba era, ou, melhor dizendo, o que ele estava destinado a se tornar. Todos os animais da savana sabem o que é um leão. Um leão adulto praticamente exala força, perigo e majestade e todos os animais logo aprendem a temê-lo, do jeito fácil ou do jeito difícil. Mas aqui se encontra um leão filhote, órfão, faminto e carente de atenção. Sem pensar duas vezes, a dupla de onívoros adota o pequeno leão, a fim de que no futuro ele possa lhes proteger de outros predadores.
Sob a tutela de seus novos pais Simba aprende a se alimentar de insetos e larvas, a ser leniente com seu território e pacífico para com os outros animais. E essa tal estranha rotina foi se instalando ao passo em que o leão crescia. Entre banhos de lama, banquetes de insetos e muito tempo sem se preocupar com nada, aquele jovem leão corria o risco dele mesmo ser confundido com um javali, não fosse sua envergadura felina e o tamanho de sua juba. Mas Simba não é um javali.
Tão logo o destino proporciona o reencontro com sua amiga de infância Nala, Simba se vê questionado pelo que se tornou. Trazendo más notícias do reino, Nala convoca o seu retorno, a fim de que ele assuma seu lugar de direito e dever no trono e restabeleça a paz. Mas Simba já está a tanto tempo vivendo como um javali que todas as suas forças morais se foram. Ele é incapaz de voltar a agir como um leão. Nala logo desiste e retorna para casa, deixando este questionamento pesar em seu coração. Sou um javali, um suricato? Ou sou um leão? Como pode o filho do falecido rei comportar-se como um animal inferior?
A resposta vem diretamente do céu. Mufasa, seu falecido pai, retorna como uma nuvem durante a tempestade para esclarecer o coração de seu amado filho:
“Simba, você esqueceu de mim. Você esqueceu quem você é, e esqueceu de mim. Olhe para dentro de você. Você é muito mais do que pensa que é. Você tem que ocupar seu lugar no ciclo da vida. Lembre-se de quem você é. Você é meu filho, e o verdadeiro rei.”
Eis como vive o ser humano moderno. Nos esquecemos de quem somos. Esquecendo de nossas almas eternas o que sobra é apenas o pó. Quando jovens, somos seduzidos e conquistados pelos prazeres de um mundo que só deseja nos usar e jogar fora. Nos banqueteamos com porcarias, nos satisfazemos com os piores odores, deixamos nossas responsabilidades de lado. Nos satisfazemos com o mundo, e por estarmos no mundo ele nos alimenta. Por sermos animais, podemos agir como javalis ou suricatos, comendo insetos, banhando-se na lama e dormindo despreocupados. Mas não somos javalis, nem suricatos.
Um leão até pode se alimentar de insetos. Em momentos de crise, eles são uma boa fonte de alimento. Mas suas presas e garras foram feitas para caçar e abater zebras e gazelas. Um leão até pode banhar-se na lama, mas sua língua foi feita para limpar-se das impurezas que afligem sua pele. Um leão pode ser leniente com o seu território, mas seu rugido e sua força foram feitos para protegê-lo e afastar os invasores. Este é o motivo da vida de um leão, seu dever no ciclo da vida, e é assim que ele deve agir.
Por mais que o mundo moderno queira que deixe de ser humano para tornar-se um animal como os outros, nunca se esqueçam disso: um leão pode até tentar ser um javali, ou até um suricato, mas ele sempre será um leão. Somos filhos de um rei, e temos um lugar de direito no trono a tomar.