Depressão é uma merda (pt 01)

Endorfina, serotonina e dopamina em doses diárias. Um sorriso na cara o tempo inteiro, proibidos de ficar tristes em qualquer momento da vida. Depressivos — e os loucos em geral — carregam muita culpa. E é difícil mediar culpa com sorrisos falsos, família e stories no instagram. Psiquiatras e horas de terapia, um desconhecido explicando como um pai ausente fodeu sua mente. Naquela época trabalhava de segunda a sexta numa revista de agricultura. Conheci Mariana em um dia tedioso de trampo, como qualquer outro, depois do almoço. Fumava e esperava algo acontecer. Apareceu junto com Luis, amigo meu, pedindo um isqueiro. E foi embora. 
 Mariana era com certeza a mulher mais linda do mundo. Caçula de três irmãs, bastarda, filha fora do casamento. Cabelos pretos até o ombro, brilhantes, deixavam o belo pescoço exposto. Corpo quente e flexível, olhar impaciente, como se sempre estivesse esperando algo. 8 ou 80, com ela não tinha meio termo. Ou muito feliz ou extremamente triste, espírito inquieto. Louca e livre. Máquina de sexo, dizia não gostar dos bonitos, “mais do mesmo” segundo suas palavras. Preferia os feios, diferentes, fodidos na vida. E mesmo assim ficava pouco, algumas risadas, alguns goles e pronto, arranjava um jeito de sumir.
Foi criada pela mãe, aprendeu desde cedo as tarefas domésticas. O pai nunca a assumiu, nem mesmo um sobrenome no RG. Ele se matou quando Mariana fez 13 anos. Não se importou, não foi ao enterro. Quando moça todo domingo guardava para o culto, principalmente devido a mãe, mulher simples e religiosa, devota sempre com um terço na mão. Sempre orando. E no culto entrou pro coral, descobriu a vocação e tomou gosto pela coisa. Sonhava com os palcos, luzes, aplausos. Sonhava com o business.
Dias passaram e Manuela veio morar comigo. Não liguei “mi casa es su casa”. Alguns outros dias passaram e eu voltei a escrever. Ela trouxe um gato. O bichano malhado tentava pegar meu lápis enquanto escrevia. Vinha com suas garras afiadas, errava e atingia meus dedos. Sangrava um pouco. Aquilo me agradava, gostava de gatos.
Na época morava numa casa de frente uma escola de dança. Ballet, dança do ventre e samba até altas da noite. Por vezes eu virava a noite bebendo, escrevendo e observando as garotas dançarem. O bom escritor é como um bom boxeador. Esperto, os primeiros golpes parecem não fazer efeito, mas na realidade estão minando as defesas do adversário. Principalmente os que escrevem contos e poesia. Estes só ganham se for por nocaute. Não tem tempo, não podem enrolar. Um dia, um tipo de barba e boina, fingindo estar na belle epoque e fumando cigarros de menta, disse que depressão ajudava na criatividade. Como se Van Gogh, Hemingway, como se eles precisasssem de uma voz fodida na cabeça para criarem boas merdas. Depressão consome, definha, assim como outras doenças mentais. Não existe nada de romântico em antidepressivos e lembranças que cortam como lâminas. Depressão é uma merda.
Acordei melhor que ontem. Dei algumas risadas e fui com Manuela num bar novo. Relações amorosas, família, subempregos, gagueira, noites frias, merdas me assombram. Precisava de terapia. Precisava perdoar, me perdoar e seguir em frente. O mais dificil é não deixar só nas palavras. Nada é pra sempre, nem a solidão. E são em dias cinza como hoje que as merdas acontecem. Psicopatas, crianças chorando. A sala escura era iluminada por muitas pequenas lâmpadas, as cores variam entre vermelho e azul, uma mistura de filme noir e literatura cyberpunk. Nada estava em sintonia. E mesmo assim continuei até o fim da noite.
Um mês desde que Manuela veio morar comigo. Escutava o mais novo hit do verão num calor de 40°graus. Suava que nem um porco. As cervejas acabavam rapido. Terceira vez que levantei pra comprar mais. O dinheiro estava acabando. Comecei procurar moedas pela casa, a principio na sala e quarto, lugares obvios, e depois pra outros menos corriqueiros, como a varanda e por fim o banheiro. E foi quando procurava no banheiro que ouvi batidas apressadas na porta. Sera que alguém com dinheiro pra cerveja? Não sei. Corri pra porta, abri e me deparei com três homens extremamente grandes e feios. Muito feios.
“Sr. Bonini?”
“Sim, sou eu.”
“Somos da polícia e temos uma intimação. Compareça na próxima segunda no Fórum ou teremos que vir aqui busca-lo. Compreendido? Então assina aqui ó.”
 E foram embora. Fechei a porta e corri pra encontrar as moedas. Agora mais do que nunca precisava de uma cerveja.
Segunda de manhã e lá estava eu, com meio maço de cigarros paraguaios e uma pasta surrada embaixo do braço. Coisas pequenas animam os homens. Uma caneta nova, boquete, calças bem ajustadas, feriados, todas essas merdas oferecem ao pobre homem moderno a possibilidade de não cometer suicídio antes dos 40. Os suicídios começam quando os boquetes ficam escassos e as calças não se ajustam mais.