Contos

Hora do café

Gostava muito do céu quando estava cinza. O clima pesado da umidade morna do ar, combinava com o clima naquela sala, abafada e escura. Não escura de luz, mas escura de vida. Em dias de sol, tudo era contraste e contrastes não lhe agradavam. Apenas o que combina, soma. Contrários, se anulam. Queria sentir profundamente a sensação de dor, que era a única que ultimamente lhe interessava. Se era pra estar ali, que ao menos o tempo combinasse com toda a amargura que ele trazia no coração. Que ao menos o mundo fosse trevas, para combinar com o peito e a mente.

Tudo isso via bebendo café, em pé, encostado na parede, olhando pela janela, próximo à mesinha da secretária. Rodava lentamente a colherinha de plástico, formando um redemoinho. O marrom e o preto num copo branco daqueles que não permitem queimar a mão. Ele queria queimar a mão. Pensou em afundar todos os dedos no copo de café quente pensou em afundar todo o rosto no copo talvez mergulhar no copo queria ser o copo morder o copo rodar no café agarrar a colher encher uma banheira de café e mergulhar nu com certeza se afogar. Não podia. Apenas podia ranger os dentes e encher os olhos de lágrimas. Bebeu. Morno. Sentiu aquecer sua língua, sentiu descer menos quente pela laringe, passando pelo esôfago e chegando quase frio ao estômago. Mesmo assim ainda sentiu um pouco de calor em baixo do terno, não sabia ser café ou arrependimento. O café, já frio, não podia mais aquece-lo. Parou de chorar, o sol atravessou a janela, caminhando lentamente para o fundo da sala e se expandindo por todos os cantos. Um lindo arco íris se formou no céu. Jogou o copo no lixo e voltou para sua mesa, tinha que trabalhar.

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