O moço dos olhos verdes. Ou castanhos

São 19h20 e estou andando pela rua da Penha, em Sorocaba, indo para casa. Eu poderia inventar um cenário melhor, mas é neste trajeto, todas as noites, que penso demais em coisas demais.
Enquanto o vento frio bate no meu rosto e fico contente pela rua não estar muito movimentada, sinto um misto de esperança e angústia ao concluir que algumas pessoas cruzam nosso caminho por poucos segundos, sem a menor ideia de que, tempos depois, nos reencontraremos para escrever um capítulo importante em nossas vidas.
Eu lembro da primeira vez que vi um certo moço, anos atrás. Usava calça jeans, camisa xadrez vermelha e camiseta branca. Calçava All Star. Seus olhos, que agora não tenho certeza se são verdes ou castanhos, me fitaram e eu, tímida, olhei para o chão como se pudesse (e como eu queria) me esconder. Mais alto do que eu, cabelos escuros e de comprimento médio, do jeito que sempre gostei para entrelaçar os dedos. Com as mãos nos bolsos da frente da calça, ele conversava com um colega meu que, na ocasião, me acompanhava.
Eu não falava nada, não conseguia, tinha medo de dizer besteira ou tentar ser engraçada inutilmente. Sua presença me causava frio no estômago e me deixava imóvel.
Eu já tinha meus 20 anos, mas ainda era uma menina. Insegura, imatura e que não pensava nem por um segundo que poderia encurtar a distância física e emocional entre mim e aquele homem. Apesar de desejar.
Estávamos em tempos diferentes.
As coisas que eu iria descobrir com ele viriam depois. Antes, entenderia que não devo depender de ninguém para realizar o que quero; sentiria o amargor de ser prêmio de consolação; o prazer de se encontrar em um novo caminho; a doçura e o êxtase de descobrir que o mar é meu lar; o corte profundo de ter de deixar para trás alguém que não me fazia bem; lidar com o azedo na boca de nunca ter sido amada e aceitar que as pessoas vêm e nem sempre permanecem por muito tempo. Às vezes só alguns dias. Ou horas. E eu apenas devo deixá-las ir, sem pensar que a culpa foi minha ou que sou insuficiente.
Uma sucessão de coincidências fez com que nos reencontrássemos, anos depois. O frio no estômago mostrou as caras novamente, o medo de me machucar, também; mas num impulso de aproveitar a onda que vinha em minha direção, mergulhei.
Hoje sei qual é o teu gosto. O toque do teu corpo. E ainda consigo lembrar da sua voz e da sua boca mordendo a minha língua.
Ainda lembro.
O sentimento é presente. Ele, passado.
Por algumas horas, dançamos no mesmo compasso, respiramos no mesmo ritmo, tivemos curiosidade sobre o outro. Ele, com toda certeza, não é raso. Eu também não sou. Mas não fomos tão fundo.
Estamos em tempos diferentes.
O quanto de verdade há no que escrevo? Não é algo que pretendo revelar, mas minha mente viaja. Viaja pelas possibilidades que sonhei e não aconteceram, nas histórias que vivi e estão descritas tim-tim por tim-tim nos parágrafos, no que ainda está por vir, no que já está aqui. Mas, no fim, confesso, o cara até existe, mas ele não sabe de mim. Au revoir.
