Trecho de uma noite que não aconteceu

-Você está muito bonita com esse vestido...
- Na verdade ele está um pouco amassado. Me atrasei e aí baguncei um pouco as coisas
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Que ótimo! O cara me elogia e eu falo sobre o vestido estar amassado. Consigo escutar minhas amigas me repreendendo quanto a isso: "Você é mesmo péssima em flertar...".

- Sou um desastre. Obrigada pelo elogio. Você está ótimo! 
- Você é mais engraçada do que aparenta ser, sério. Gosto de conversar contigo.
- Não parece que nos conhecemos há tempos?! Adoro isso! E me sinto à vontade para falar com você sobre minhas esquisitices.
- Tipo aquela que sempre quando está em uma escada rolante, se imagina tropeçando nos degraus?
- Você falando parece ser mais idiota agora
...

Meu Deus. Eu sou mesmo esquisita. E espero não estar deixando na cara que vou cair a qualquer momento de tanto minhas pernas tremerem.

- Acha que se tivéssemos nos conhecido, sei lá, anos atrás, nos daríamos bem assim?

Penso… E realmente não sei. Na verdade, uma das coisas que mais me intriga no mundo é o destino. E antes minha mente era tão diferente... Nossas experiências são as responsáveis por quem somos hoje, e, talvez, o que éramos anos atrás não permitiria essa sincronia, conexão e tudo mais entre nós. Uma hora falávamos sem parar e outra, pairava um silêncio de duas pessoas que acabaram de se conhecer e estão se arriscando em um encontro. Mas tudo parecia normal, não era um silêncio angustiante, daqueles que te dá desespero. Era, na verdade, até confortável.

- Tento acreditar que as coisas acontecem quando têm que acontecer. Sabe aquilo de "o que for pra ser, será"? Então. A gente só tem que colaborar e identificar as oportunidades.

Lembramos como nos conhecemos e sorrimos. Estávamos andando em direção ao metrô. Os restaurantes ainda cheios, barulhos de pratos e talheres, risadas e um pouco de música. Adorava aquele lugar, as luzes amarelas davam um charme a mais. O ar estava fresco e, por algum motivo, me lembrava as noites que caminhava na beira do mar. Sem pensar, falei em voz alta que o clima maravilhoso daquela noite ficaria guardado na minha caixinha mental de ótimas memórias, e me inspiraria em alguns textos. Mal escritos, talvez.

Ele parou e eu me virei para ele. Quando ia perguntar se tinha acontecido algo, ele se aproximou de mim. Nossos corpos se estremeceram. É agora que desmaio?

Ele colocou as mãos sobre o meu rosto, como se eu fosse algo extremamente frágil, e encostou seus lábios nos meus. Se afastou rapidamente e me olhou nos olhos, de forma profunda, para depois me beijar novamente, dessa vez, intensamente e com um carinho que nunca tinha sentido até então.

Seus olhos azuis entregavam seu medo de deixar alguém andar pela cidade que nele habitava e não querer permanecer. Luz alaranjada do final da tarde que atravessava as brechas dos prédios, o ar limpo e reconfortante das árvores em jardins repletos de cor. Casas abandonadas, um pouco de pó nas prateleiras. Ruas que levavam para diversas direções e inimagináveis locais carregados de memórias, felizes ou não. Pensei comigo: "como não querer descobrir mais desse lugar?".

Não me aguentei e dei um sorriso largo ainda de olhos fechados. Quando abri, ele também sorria e me deu mais um selinho. Demos as mãos e seguimos. E é claro que eu tropecei em alguma coisa no meio do caminho.


O quanto de verdade há no que escrevo? Não é algo que pretendo revelar, mas minha mente viaja. Viaja pelas possibilidades que sonhei e não aconteceram, nas histórias que vivi e estão descritas tim-tim por tim-tim nos parágrafos, no que ainda está por vir, no que já está aqui. Mas, no fim, confesso, o cara até existe, mas ele não sabe de mim. Au revoir.