Entrevista: Britt Daniel, do Spoon

Britt Daniel (de óculos) e os outros integrantes do Spoon:

O Spoon não surfou no hype ou fez barulho por um tempo e sumiu sem deixar saudade. Ao contrário de tantas bandas que seguem essa cartilha e se perdem no tamanho de sua irrelevância, algo cada vez mais frequente nos dias velozes deste tempo, o grupo consolidou a carreira ao longo de 22 anos e oito discos. Prova disso é o mais recente trabalho, They Want My Soul (2014), que se mostrou o melhor deles. Liderado pelo vocalista e guitarrista Britt Daniel, 44, o Spoon vem a São Paulo para um show no Popload Festival neste sábado (17) e outro só deles no Beco 203 domingo (18). Daniel ainda discoteca ao lado de Lovefoxxx (aquela do CSS) hoje, às 23h, também no Popload. Nessa entrevista, ele fala sobre o peso de ser considerado um “salvador do rock”, a composição do último trabalho, a criação conservadora e Dr. Dre.

Rent I Pay, o primeiro single de They Want My Soul, é um clássico instantâneo. Como a música surgiu e como ela se tornou o que é?

Ela começou de um jeito bem diferente. Ouvi uma linha de baixo de uma canção do Toots & The Maytals, agora não me lembro qual [ao New York Times ele disse que se tratava de I Shall Be Free]. “talvez posso fazer uma canção roubando esse trecho”. No começo, o compasso dela era 6/8, com mais balanço, não era um rock. E era boa. Ficou assim por uns seis meses. Quando retornamos a ela, começamos a deixá-la mais devagar, com um compasso 4/4. Por alguma razão, funcionou. Foi inesperado.

Inside Out é uma música estranha, bem diferente das outras faixas do álbum e do que vocês lançaram até hoje. Você chegou a dizer que é a música mais bonita que já compôs…

Devo ter dito isso [risos]. No começo era apenas eu cantando e tocando piano. Foi uma das últimas a entrarem no álbum. Percebi que não precisávamos de uma balada de piano no disco. Durante as gravações, escutei muito 2001, do Dr. Dre, e dei a ideia aos meus colegas de banda: “por que não roubamos uma dessas batidas?”. Tentamos e funcionou imediatamente. O solo de teclado esquisito que o Alex [Fischel] toca completou o trabalho.

Você ouviu o último disco de Dr. Dre, Compton (2015)?

Não ouvi o quanto gostaria. Só alguma coisa. Ainda não mexeu tanto comigo como o 2001. Às vezes levo certo tempo para digerir um álbum, mas a minha primeira impressão foi de que… Há algo no 2001 que me agrada muito, um minimalismo perfeccionista, todo instrumento aparece de maneira uniforme, cada um tem o seu próprio lugar. Não senti tanto isso no trabalho mais recente dele. Ainda. Devo ouvi-lo mais algumas vezes.

Seja pelo título ou pelas referências religiosas em algumas das letras, um dos temas de They Want My Soul é a espiritualidade. Ser criado por uma família cristã numa cidade conservadora do Texas o influenciou de que maneira?

Quando criança, eu era levado à igreja algumas vezes por semana. Meus pais se separaram quando eu tinha 8 anos. O meu pai frequentava uma igreja católica e minha mãe costumava ir ao que eles chamam de “bible church”, que é basicamente uma igreja tradicionalista e ultraconservadora. Tive a oportunidade de crescer observando de perto duas facetas muito distintas do cristianismo de hoje. Definitivamente me afetou, principalmente a parte humana da religião: as pessoas que frequentam esses lugares para socializar ou condenar umas às outras… Foi isso o que me distanciou. Há muita coisa boa ali, sem dúvida, mas uma parte daquilo me deixava maluco.

A capa de They Want My Soul: um dos melhores discos de 2014

O que os seus pais pensaram quando você se tornou uma estrela do rock?

Meu pai é bastante lacônico quando se trata da minha carreira. Ele diz que gosta de algumas poucas músicas, mas não fala sobre as demais. Então eu deduzo que ele não seja um grande fã das outras. Já minha mãe tem bastante orgulho. Ela vai a todos os shows que consegue, seja em Nova York ou em Los Angeles .Enfim, eu acho que eles até gostam. Talvez agora que viram que eu posso pagar as contas com esse trabalho, estejam satisfeitos. Não era a primeira escolha deles para mim, mas só uma vez me desencorajaram. Quando a banda foi dispensada pela gravadora [Elektra, em 1998, depois da baixa venda de A Series of Snakes, o que levou Daniel a trabalhar como assistente administrativo do Citibank por um período], os dois me falaram que eu deveria tentar outra coisa.

Fiquei curioso: quais são as favoritas do seu pai?

Ele gosta de Me and The Bean, que por sinal não fui eu quem compôs [risos]. Ele tem razão, é uma boa música, muita gente gosta e é uma das favoritas dos nossos fãs. Mas ele também curte Don’t Make Me a Target… O que mais? The Underdog. Acho que as de linha mais tradicional são as que o agradam mais.

Jonathon Fisk voltou a aparecer [Fisk era um valentão de quem Daniel foi vítima de bullying no colégio e se tornou personagem de algumas faixas do Spoon]. É verdade que ele se tornou um fã da banda? Vocês mantêm contato?

Não o vejo há bastante tempo. Na época em que comecei a falar que o via em alguns shows, ele desapareceu. Mas ele assistiu nossas apresentações com regularidade por uns quatro ou cinco anos e tínhamos uma convivência cordial. Há pelo menos uns dez anos não o vejo.

Por que ele ainda quer a sua alma?

Na letra me referi não ao que ele se tornou, mas à época de valentão, quando ele me aterrorizava. Um tipo de pessoa que te persegue e quer te colocar para baixo. Por alguma razão ele me achava chato ou pensava que eu não era lá muito esperto ou engraçado.

A última vez que vocês vieram ao Brasil foi em 2008. O que lembram daquela ocasião e quais são as expectativas agora?

Ficamos por apenas dois dias, não deu para aproveitar muito. O produtor nos levou para um único bar muito legal, do qual não me lembro o nome agora, que tinha capas de disco na parede. Mas dessa vez vou ficar por uma semana em São Paulo e ter uma experiência de verdade da cidade.

Muitos perfis publicados sobre o Spoon chamam a banda de “sobrevivente do rock” e dão a você o título de “frontman cada vez mais lendário”. Você se sente pressionado por esses comentários ou tenta não dar tanta atenção a eles?

Não. Da minha parte, está tranquilo. Não sei, não costumo pensar muito a meu respeito, pelo menos não nesses termos. Concordo que somos sobreviventes, tivemos várias dificuldades desde o começo e conseguimos encontrar uma maneira de seguir em frente. Isso se deve muito a nossa própria estupidez. Continuamos mesmo quando não fazia o menor sentido.

O Spoon foi formado em 1993 e desde então viu muita gente chegar e desaparecer. Como você explica a longevidade da banda?

Nós damos duro e eu sou muito bom. Não fosse por essas duas coisas, acredito que não estaríamos juntos hoje. Não sei, é a única coisa que eu quis fazer na vida. Não entrei no ramo pensando “ei, o que está acontecendo por aqui, pode ser que seja legal” ou com a intenção de virar ator ou produzir. Eu sou obcecado por essa vida. Só quero saber de gravar discos e fazer shows.