Uma reflexão sobre ‘O Conto da Aia’, de Margaret Atwood

A primeira vez que ouvi falar sobre esse livro foi em um vídeo da Carol Moreira (YouTuber que fala sobre cultura pop) em parceria com a Tatiany Leite e desde aquele momento já fiquei com uma pulga atrás da orelha sobre como era aquela história.

Pois bem, decidi que assim que finalizasse minha leitura d’A Torre Negra focaria nessa e em outras leituras que já tinha vontade de fazer há algum tempo, como Deuses Americanos. O tempo foi passando, a série que adaptou O Conto da Aia estreou nos EUA, mas nada de eu ler ainda, mas aí tive a ideia de só assistir a série, afinal toda review que eu conferia sobre as duas obras eram só elogios, falando que era uma ótima adaptação, que seguia fielmente, etc. etc…

A decisão foi feita, mas o destino resolveu que não, eu teria SIM que ler o livro. Eu faço faculdade de Letras Inglês, então eu tenho uma disciplina de Literatura (que eu amo, BTW) e entre as leituras obrigatórias para o próximo semestre está, adivinha só: isso mesmo, O Conto da Aia.

Aí não tive escolha, tive que adiar minha maratona da série e partir para a leitura do livro e, meu deus, que história maravilhosa!

Só para contextualizar melhor, uma breve sinopse do livro:

Um grupo religioso extremista, de alguma forma, consegue tomar para si o controle dos EUA e estabelecem um novo regime totalitário teocrático –ou seja, baseado em religião–. Com isso, mulheres são, mais uma vez, tratadas como seres inferiores, sendo obrigadas a serem submissas aos homens. As de mais poder e influência podem se casar com “Comandantes”, mas um vírus ou doença desconhecida faz com que a taxa de natalidade seja drasticamente diminuída. Assim, algumas mulheres são, literalmente, escravizadas e usadas simplesmente como barrigas de aluguel para que tais casais ricos possam ter crias. O Conto da Aia é a história de uma dessas mulheres.

Com toda certeza esse foi um dos livros mais perturbadores que já li em minha breve vida de leitor. Diariamente nós vemos exemplos tanto na mídia, como na política e em nossas próprias vidas pessoais exemplos de pessoas que acreditam ser superiores a outras, seja por gênero, orientação sexual, cor da pele e/ou classe social, e o que Margaret Atwood faz nessa obra é colocar isso pouco mais acima do limite que temos hoje. O que aconteceria se pessoas com tal pensamento ganhassem poder? O que aconteceria ao mundo? Esse livro responde muito bem essas questões.

Em um mundo onde temos uma bancada evangélica no nosso congresso brasileiro e uma pessoa como Donald Trump no controle da maior potência mundial, infelizmente a narrativa do livro não passa tão longe de algo que possa vir a ser real em muito pouco tempo.

Eu, como homem, já me senti muito incomodado lendo algumas cenas brutais de estupro que no contexto da história eram coisas consideradas totalmente normais porque, curiosamente, têm precedentes bíblicos. Muitas pessoas, inclusive no Brasil, que é um país majoritariamente cristão, tem exatamente o mesmo pensamento descrito por Atwood. São o tipo de pessoas que elegem tais bancadas evangélicas, que, baseadas em um texto racista, misógino e homofóbico, acham desculpas para exercerem seu ódio. Imagino o quão difícil deve ser para minha mãe, tias, primas e amigas passarem diariamente por pessoas que acham que elas são inferiores simplesmente por serem mulheres.

Sei que religiões foram essenciais para o desenvolvimento da sociedade como conhecemos hoje, mas será que elas ainda são necessárias atualmente? Com todo o avanço científico, toda nova descoberta sobre o universo, será que já não é hora de olhar para a frente e começarmos a viver melhor? Sem preconceitos, sem leis que causam segregações, que fazem com que pessoas não se aceitem como são. Parece uma utopia, mas tenho fé. Não fé em algo divino, mas fé na humanidade. Fé de que um dia seremos capazes de olhar para cada indivíduo que está ao nosso lado e entender que somos todos iguais e diferentes ao mesmo tempo e que isso é maravilhoso, cada um é incrível do jeito que é.

Talvez esse seja o maior aprendizado que tirei de O Conto da Aia. O mundo precisa de mais compaixão, de mais empatia.

Merece, com certeza, 5 de 5 estrelas.

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