Brasil, virando cinzas sob nossos olhos.

Como as chamas do Museu Nacional coroaram a tragédia brasileira.

Museu Nacional na Quinta da Boa Vista, Rio de Janeiro, 02 de setembro de 2.018

A chuva cai em Porto Alegre, num dia tão melancólico que parece enviado para a reflexão sobre os eventos de 02 de setembro, dia em que o Museu Nacional virou cinzas, e marcou o momento mais triste da história brasileira da minha breve vida. Minha esperança no país, que tanto me orgulhara há poucos anos, virou pó.

Assim como o acervo de 20 milhões de peças não conseguira nos mobilizar a proteger com unhas e dentes o bicentenário prédio contra o descaso público, a fria história será incapaz de dimensionar nos livros os sentimentos de muitos brasileiros ao ver o fim do presente, do passado e do sonho de um futuro, ao vivo, na TV. Desalento. Ali se vão, não somente todo o conhecimento acumulado nesses 200 anos de pesquisa, mas também tudo o que ainda poderia ser descoberto. A escada em que a ciência se apoia, que vinha sendo serrada, violentamente se rompe derrubando a todos. Colapsados.

Para qualquer um de nós, da comunidade acadêmica séria, que luta e preza pela ciência, arte e cultura brasileira, existe uma forte revolta ao ver o estrago que o descaso cruel e deliberado pode causar. O Brasil, país do futuro, mas totalmente sem visão do amanhã — ou do ontem. E o pior é ver que a culpa é generalizada, em uma sociedade que vem a cada dia deturpando o valor do árduo conhecimento acumulado em favor de mitos criados pelo medo e pela desesperança. Não são só os governantes, não são só os políticos. Somos nós.

Em 2015 começamos a sofrer, assim como o antigo Museu, hoje ruínas, dos cortes à educação e à cultura legitimados por uma população que se mostra revoltada com “os efeitos da corrupção” nas redes sociais, como se não tivessem qualquer parte nisto. Hipócritas. Saíram as ruas pelo preço do dólar, bateram panela pelo combustível alto, coreografaram por um país “melhor”, mas se calaram ao sucateamento da educação e da ciência. Hipócritas. Hoje lamentam pelo Museu Nacional enquanto ainda ontem diziam que as bolsas científicas da CAPES não são prioridade para este país. Hipócritas. Vão às universidades que lutam por um futuro mais respeitoso, diverso e livre, e os taxam de esquerdopatas inimigos. Hipócritas. Apoiam candidatos que sequer mencionam cultura em seus programas. Hipócritas. Bebam sua culpa.

Esse Brasil, e seu governo, é sim um reflexo dos brasileiros. Brasileiros que bradam uma melhor educação e saúde enquanto sonegam impostos, e ainda lutam para baixá-los. Brasileiros que acham que o combate a fome é um peso. Brasileiros que reclamam das favelas e da violência enquanto lutam somente por seus privilégios. Vêem somente seus umbigos.

Um Brasil que espera um futuro, mas se nega a construí-lo. Um país em colapso, implodindo por dentro.

É revoltante, é odioso.

É desesperador.

Luan Rezende Eduardo
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