Quem ainda pergunta para os universitários?
A ciência e a objetividade vêm perdendo força e dando lugar as falácias. E as federais com isso?

Comecei minha formação superior na UnB lá em 2015, cursando física, e sempre persegui a crença que deveria fazer algo grande na área, retribuir. Hoje a crença persiste, mas muito mudou. Cursando ciências econômicas na UFRGS lanço meu olhar à sociedade brasileira e uma questão me incomoda bastante. Qual o nosso papel, enquanto universitários federais, na construção e transformação da sociedade que nos financia?
É inegável que as universidades públicas mantêm uma construção de conhecimento voltada para a sociedade em que está inserida, assim como saem em defesa da mesma em vários momentos importantes. Mas fica também evidente que este movimento não está sendo acompanhado pela sociedade em si, da qual estamos cada vez mais distantes. A falta de comunicação e ressonância entre os fortes do ambiente acadêmico e a vida cotidiana nos desconectou a tal ponto que, diante da pós-verdade estabelecida, a sociedade se volta contra a universidade. Perdemos o nosso papel fundamental de liderança social rumo ao progresso e, talvez, até mesmo o nosso caminho ao futuro.
Vejo que cabe a academia repensar sua atuação na esfera pública, em especial neste momento crítico da história em que antigos fantasmas voltam a assombrar o presente e, de forma impressionante, nós ainda nos encontramos vulneráveis a eles. Cabe reconhecer que o combate à falsas verdades, raiz dos nossos problemas atuais, não se faz somente com fontes “confiáveis”, sendo necessário também método e conhecimento para reconhecer as contradições intrínsecas a estas mentiras. Difundir a ciência já existente e acumulada com rigor é uma obrigação que devemos abraçar.
Não cabe mais ao momento em que nos encontramos, de difusão fácil de todo o tipo de informação, agirmos passivamente jogando somente no colo do Estado a responsabilidade pela falta de consciência coletiva dos problemas que enfrentamos. Não é o governo quem transforma a sociedade, é a sociedade quem transforma o governo. E precisamos tomar para nós parte da responsabilidade de transformação social, pois a educação não está restrita as salas de aula. O jantar em família, o ponto de ônibus, o elevador, o bar e o banco de praça são típicos lugares onde os mais diversos tipos de informações se espalham, por que não também os conhecimentos formais? Curiosidades históricas? Fatos científicos? Economia? Não é difícil falar sobre a inflação com alguém que comenta sobre como as coisas andam ficando caras na fila do supermercado. As pessoas querem entender o mundo a sua volta, e quanto maior a nossa omissão em apresentar os fatos conhecidos, mais falácias tomam conta desta demanda.
Ao descumprir esse importante papel transformador, estamos nos enfraquecendo enquanto instituição também. A nossa maior força está nos brasileiros, são eles que podem influenciar o Estado a proteger e ampliar os investimentos em educação, ciência e cultura. Esta é nossa passagem para um país melhor, e precisamos deixar claro. De novo, a sociedade transforma o governo. Reclamamos pela falta de mobilização diante dos cortes e sucateamentos das universidades, centros de pesquisa e cultura, vemos estarrecidos alguns candidatos pregarem por mais cortes e conclamarem que somos caros demais para o país, ainda mais estarrecidos ficamos com o apoio de muitos a este discurso. Mas cabe a reflexão, até onde o erro é nosso? Assumi-lo é fundamental, mudar é palavra de ordem.
Enquanto o pensamento crítico, científico e pragmático não passar a direcionar os passos do país novamente, viveremos a crise. Não é da política que sairá a solução, é das nossas escolhas.
Acredito que estamos preparados para caminhar, cabe decidir quem irá liderar os nossos passos, e para onde.
Progridamos.