Eu lembro sempre do dia que peguei Maria no colo pela primeira vez

Eu fui visitá-la no hospital, com minha vó. A gente chegou conversou com a mãe ainda meio abatida do parto e deu uma olhada em Maria. A vó a pegou no colo, dormindo e sentou ao meu lado no sofá, toda derretida dizendo que ela era linda e tinha o nariz de um, o olho de outro, o formato do rosto de sei lá quem. Eu até então estava me sentindo meio mal. Não conseguia achar bonita aquela massinha de gente toda enrugada e vermelha.

Depois de uns minutos de conversa sobre o parto, a mãe quis levantar da cama para ir ao banheiro. Chamou uma enfermeira e a vó foi ajudar as duas, dizendo “Segure um pouco aqui, Lu”. E eu “nãão. precisa nãão. oxe. eu nem sei segurar. coloca no berço”. Ela riu e disse “que besteira. aqui ó. segure sua prima. assim ó”. Quando eu vi, tava Maria no meu colo.

Eu quase sem respirar, sem me mexer com aquela pessoinha no colo, parecendo dois quilos de gelatina. Pânico, medo e aflição. Que cheirinho bom. Eu fiquei rezando pra ela não se mexer nem fazer nada aleatório. Sei lá né. Até que ela acordou e abriu o olho. Eita porra. eita. EITA ZORRA. E agora? O povo nada de voltar do banheiro ainda. A mãe tava recém operada então demorava um pouco mais que o normal.

“Ok. voltem galera. já aprendi a pegar criança no colo. Chega…” E Maria só me olhava. Mas aí ela tava quieta e eu fiquei também. Olhei pra ela e ficamos os dois uns segundos ou minutos ou horas se olhando em silêncio. Nem sabia se ela podia me ver. Esperava que não. E o medo passou. E sim, ela era linda. De uma forma de lindeza que até então eu não tinha conseguido ver direito em crianças.

E aqueles olhinhos pretos espertos. sem saber de nada. Ou sabendo de tudo. aqueles olhinhos novos abriram meus olhos pra tanta coisa. eu compreendi tanta coisa. o que eu senti foi só uma lasquinha perto do que meus tios estavam sentindo, certamente. aquela vontade de cuidar, de proteger, de viver bem consigo e com a família, e me ajudou a dar um passo no entendimento do viver. que brega. que cafona. que frescura. mas é sério…

Eu que até então nunca tinha cuidado direito de uma criança, nem de um cachorro, nem de mim mesmo. Entendi muita coisa a partir dali…

Aquele bebê no colo abriu a porteira pra uma geração inteira de bebês que eu faria questão de carregar dali por diante. Porque parece que cada um evidenciava a beleza da curta passagem aqui. A grandeza que temos que ter pra passar só o que presta adiante.


“Tudo é novo para os teus olhos novos
Tudo é novo para os meus olhos velhos”

Herbert Vianna