Doenças da pele e doenças da alma — melasma e nossas origens

Luara Santana
Sep 5, 2018 · 4 min read
Imagem: ISDIN

Não tinha tempo para ficar me olhando no espelho. Cuidar de si mesma não é uma possibilidade quando você tem que estudar, trabalhar e fazer milagres.

Logo, não me recordo exatamente a data e a circunstância. Apenas que era um dia muito quente, e meu rosto, como sempre, transpirava muito. Dei aquela respirada profunda, de cansaço, lavei as mãos e a nuca para disfarçar o calor e, no reflexo do meu rosto havia algo estranho, algo que não me pertencia até então. Havia duas grandes manchas no meu rosto (hoje sei que não são enormes, mas no momento, eram). Uma cobria a parte superior do nariz e um pouco da testa e a outra, mais escura, cobria todo o meu buço. Esfreguei, e claro que não sumiram. Passei dias intrigada com aquilo. Sempre tive vários problemas de pele mas nada parecido com aquelas manchas escuras, castanhas, mais castanhas que meus próprios olhos.

Fui ao consultório depois de algum tempo (porque não havia tempo, risos), por outro motivo, e a médica me olhou nos olhos e disse: “Não tem mais nada que te incomoda?”, e eu, meio constrangida, respondi que adoraria saber o que era aquele negócio marrom no meu rosto. Com toda a calma do mundo, contou-me que aquilo era melasma, um tipo de mancha comum em mulheres (vou contar direito depois, calma aí) e não havia motivo para preocupação pois havia controle, apesar de não ter cura. Receitou-me alguns produtos, ensinou alguns procedimentos para fugir do sol. Fui para a casa frustrada e levemente triste. Retificando: puta da vida e muito triste. Não precisava de mais um problema esfaqueando minha autoestima, que já estava aos pedaços.

Pausa no drama para o momento didático: “Melasma é uma condição que se caracteriza pelo surgimento de manchas escuras na pele, mais comumente na face. Afeta mais frequentemente as mulheres, podendo ser vista também em homens. Não há uma causa definida, mas muitas vezes esta condição está relacionada ao uso de anticoncepcionais femininos, à gravidez e, principalmente, à exposição solar. O fator desencadeante é a exposição à luz ultravioleta e, até mesmo, à luz visível. Além dos fatores hormonais e da exposição aos raios solares, a predisposição genética também influencia no surgimento desta condição. São mais vulneráveis as pessoas de pele morena em tons mais escuros, como as africanas, as afrodescendentes, as de ascendência árabe, as asiáticas e as hispânicas que, por natureza, produzem mais melanina, uma vez que possuem melanócitos mais ativos”.

Mais um choque que tomei lendo sobre o assunto: “Ainda que melasma seja mais frequente entre latinos, a exata prevalência é desconhecida. Aproximadamente 66% das mulheres mexicanas desenvolvem melasma durante a gravidez, e um terço dessas mulheres mantem a pigmentação pelo resto da vida”.

Imagem: https://br.pinterest.com/pin/503488433333693348/

Agora você está informado, vamos voltar. Anos depois do diagnóstico, de muito tratamento, litros de protetor solar e fugidinhas do sol, as manchas estão bem mais claras. Porém, se passar poucos dias sob exposição solar direta, a mancha acende, como mágica. É como se ela me dissesse: “sempre estarei aqui, querida”, Este retorno me irrita. Quando estou esquecendo, lá vem o maldito espelho me lembrar.

Relembrando: “São mais vulneráveis as pessoas de pele morena em tons mais escuros, como as africanas, as afrodescendentes, as de ascendência árabe, as asiáticas e as hispânicas”. Se você não é mulher, ou não tem estas origens, talvez não compreenda bem o peso do que estou dizendo. Demorei anos para perceber, por ter a pele muito clara que a primeira vista não remete a estas origens citadas, que ali, estampada no meu buço e em forma de mapa em cima do meu nariz proeminente, está a minha ancestralidade. Indireta, mas ali estão meus avós que tanto trabalharam sob o sol, na rua e na roça. De meus ancestrais que foram escravizados, que foram assassinados, que fugiram de um lado pelo outro. Nunca passei a dor do racismo (nem passarei), da perseguição, do genocídio. Mas a mancha marrom está ali, sempre me lembrando de tudo. Por mais que eu me entupa de cosméticos, medicamentos e maquiagens, continuo sendo alguém que descende de classes perseguidas e dizimadas.

Inclusive, um fato curioso: Apesar do melasma no centro do rosto, por ser muito clara e miscigenada, tenho um pouco de sardas nas maçãs do rosto, bem poucas. Sarda não é doença: é uma característica comum de gente branca. Normalmente, as mesmas pessoas que me dizem “Ah, você tem sardinhas, acho tão fofo, tão lindo” são as mesmas que dizem: “O que é isso no seu rosto? Como você tem mancha de gravidez se nunca ficou grávida?” (…)

Talvez tudo isso não faça o menor sentido para quem lê. Para mim, é um símbolo muito explícito que todos os dias me faz não esquecer minhas origens e continuar sendo resistência. Mesmo que seja por algo que não me atinja diretamente, é resistir e lutar por quem sofre e para quem sofre. Hoje as manchas já não me entristecem mais. Às vezes nossos traços não são diretos, os sinais não são claros, mas é assim que interpreto: o melasma é uma sombra que volta para disfarçar a luz do meu ego e da minha prepotência.

Fontes:

http://www.sbd.org.br/dermatologia/pele/doencas-e-problemas/melasma/13/

https://drauziovarella.uol.com.br/doencas-e-sintomas/melasma/

http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0365-05962009000600008

http://www.purepeople.com.br/noticia/especialista-revela-que-sarda-nao-e-doenca-de-pele-servem-de-puxao-de-orelha_a232772/1

Luara Santana

Written by

Callejera, corintiana, sonho, sangue e América do Sul

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade