Sobre a procrastinação

Frequentemente sinto vontade de escrever. Palavras e suas ternas e impactantes combinações, a influência imensa que uma bela oratória lida pode causar. Me vejo tendo diálogos esplêndidos e desejo apenas que a santa tecnologia pudesse simplesmente ter inventado um mecanismo no qual todos os brainstorms incríveis que tenho sozinha ou durante diálogos com pessoas admiráveis pudessem simplesmente ser automaticamente digitados e arquivados, em que eu pudesse simplesmente reler todo aquele devaneio maravilhoso que minha inconstante mente brilhante teve naquele instante de luz ofuscante. Ingênua.

Minha casa está uma zona. Qualquer superfície que surja ao alcance dos meus olhos me parece um excelente cabide. A água que quero pode muito bem ser bebida do copo que está há uma semana ao lado da pia, já que estou usando ele há uma semana só para a água mesmo. Os textos a serem lidos encontram-se praticamente todos na pastinha transparente ao lado da cama. Toda e qualquer tarefa importante a ser realizada encontra-se perfeitamente planejada em minha mente; como executá-la, quanto tempo levarei para fazer, de que forma deixá-la impecável. Mas não rola. Meu corpo não responde aos meus pensamentos. Olho ao meu redor e é muito mais prático simplesmente deitar na cama e deixar meu cérebro em seu estado amortecido. Sinto-me um zumbi.

Mas aqui estou. Olha só, no fim das contas, comecei a escrever o bendito livro de insights que estou há meses deixando criar pó no limbo das ideias geniais que estão tão magnificamente arquitetadas na minha linda utopia. Enquanto escrevo, enxergo daqui todos os emaranhados de pelos e cabelos; humana e felina vivendo nesse ambiente de aconchego e ao mesmo tempo descaso, de esforço escasso e acúmulo constante. O surpreendente, a meu ver, não chega a ser tudo o que deixei de fazer, mas saber que minhas pernas agora esticadas e cruzadas em posição tão agradável, embaixo das cobertas que trazem um calor na exata medida para que eu sinta-me plenamente confortável em minha irresponsabilidade crescente.

Vejo prazer em minha melancolia. Soa estranho, bizarro até, eu sei. Eu mesma tenho percebido todas as razões para a impaciência que trago às pessoas que me escutam falar coisas diferentes e continuar agindo da mesma forma. Acredite, convivo comigo mesma mais do que qualquer um, entendo minha mente melhor do que qualquer um possa imaginar; ainda assim me acho uma louca, estúpida, que se satisfaz com a intensidade da própria imaginação. A fertilidade de minha mente fez crescer a macieira, trazendo a maçã proibida do conhecimento mal distribuído.

Ainda assim, estou feliz. Simplesmente pelo fato de que, nesse instante, ao menos não estou deitada esperando o sono vir para que eu possa passar as próximas horas da minha vida fazendo o que mais amo fazer. Fechar os olhos, esperar aquela sensação leve surgir e simplesmente me transportar para a dimensão onírica. Ao menos lá não existe toda a cobrança e exigências que essa outra voz que está sempre na minha mente insiste em gritar. Alguns diriam que é a voz da consciência. Eu particularmente acho ela uma chata, ainda sabendo que no fim ela vai olhar pra mim com aquela cara de superioridade que só ela sabe fazer e dizer: “eu te avisei”.

No fim das contas, todas as minhas vozes internas se entendem. Existe a que sabe perfeitamente o que fazer e como realizar o feito com sucesso, a que enche o saco perguntando porque ainda não comecei, a que está tacando o foda-se para tudo e fazendo o que dá na telha, a que acha todos os argumentos plausíveis para que a terceira voz possa ter algum pingo de razão e a culpa depois não seja tão grande, há também aquela que não está nem aí pra nada porque sabe que daqui um certo intervalo de tempo nada disso importará mais, há também a que me faz escrever agora e que, creio eu, não faz parte de nenhuma das outras.

Percebo, acho que a alternativa é atribuir a procrastinação a todos esses eus que agem de forma diferente o tempo todo. São muitas vozes, muitos pensamentos, muitos planos, muitos booms mentais que me fazem definitivamente não saber o que escolher. Creio que, se conseguir conectar todas essas malucas aqui dentro eu possa botar ordem e fazer com que trabalhem conjuntamente. Pode funcionar, se os malditos vícios não gritarem mais alto e resolverem me dar opções muito mais tentadoras do que fazer o supostamente correto. Que haja paciência. Agora vou simplesmente parar de escrever porque, honestamente, já estou ficando com preguiça de continuar isso e do jeito que a procrastinação combinada de irritação está batendo forte, sou capaz de deletar tudo isso a qualquer momento e depois me arrepender de não poder reler e rir de mim mesma.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.