A via-crúcis dos pais de dois desaparecidos e um sobrevivente do massacre de Ayotzinapa

A Caravana 43 Sudamérica passa por Porto Alegre e denuncia mais um crime de Estado no México

Reportagem: Luara Wandelli Loth

Fotos: Luara Wandelli Loth e Philipe Branquinho


Noite de inverno no hemisfério norte, domingo, 30 de novembro de 2014. Terminava o encontro que criou a Coordenação Nacional Estudantil do México, na Escola Normal Rural Raúl Isidro Burgos, em Ayotzinapa, estado de Guerrero. O congresso estava previsto para acontecer na Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM), mas as prioridades do movimento estudantil mudaram drasticamente com impacto político do desaparecimento de 43 normalistas, da Escola Normal Rural de Ayotzinapa, após ataque de forças policiais, no município de Iguala, em 26 de setembro do ano passado. Essa noite, na qual sete pessoas morreram e 29 ficaram feridas, é lembrada pela pior matança estudantil do país desde a sangrenta noite de dois de outubro de 1968, na Praça Tlatelolco, na Cidade do México, quando o Exército abateu 200, 300, 1000 estudantes — cifras que variam segundo as fontes históricas.

Refeitório da Escola Normal Rural. A Escola é também um internato masculino, onde estudam futuros docentes do ensino primário

Um dos jovens que presidiu a mesa jantava sozinho, no refeitório vazio e vermelho, onde estão pintados, em um mural ao estilo do realismo socialista, os rostos de Engels, Marx e Lênin: “Eu leio muito. E quem lê muito acaba adquirindo poderes especiais, como eu , que desenvolvi faculdades psíquicas: sou capaz de prever o futuro”. O que o estudante normalista José Hernández queria nos contar, a princípio com bom humor e, aos poucos, em tom de confissão, revelou-se um segredo muito íntimo e delicado. Ele havia tido uma premonição da tragédia, na noite anterior ao inesquecível e imperdoável, 26 de setembro de 2014: “Sonhei que meus companheiros eram atingidos por tiros e havia muito sangue. Avisei aos amigos do perigo que estavam correndo, mas não deram muita importância”. José Hernández, ao mesmo tempo em que se orgulha de seu poder premonitório, sente-o como algo que o machuca e o torna diferente. Eu tinha acabado de entrevistá-lo , havíamos conversado sobre política, resistência, neoliberalismo e revolução, mas só quando compartilhamos a mesma mesa e refeição, ele contou seus sonhos, ideias e temores.

Gerardo Ramírez Flores e José Hernández, em entrevista, após o fim do congresso estudantil

Seis meses depois de escutar essa observação reveladora, perguntei por José na primeira oportunidade, o que aconteceu durante gravação de um documentário sobre a Caravana 43 Sudamérica por Ayotzinapa, em passagem por Porto Alegre, a 7.400 quilômetros do Estado mexicano mais pobre. O quarto mais violento. O mais guerrilheiro. Guerrero é cenário da luta de comunidades indígenas por autonomia e defesa de seus territórios. Onde povos marginalizados durante a construção do imaginário de um México moderno desejam soberania, e, nesse sonho, não há espaço para a intervenção do Exército. Sinto ainda a atmosfera transbordante de suas costas e montanhas imersas em desaparecimentos forçados, violência e pobreza, mas onde o povo, deixando o suor escorrer entre os mesmos traços do último imperador asteca, Cuauhtémoc, reage ao terrorismo de Estado, às ausências inexplicáveis e à fome, com força que tende a se equiparar às mazelas.

Francisco Sánchez Navas, sobrevivente do massacre, Hilda Legideño Vargas, mãe de Jorge Antonio Tizapa Legideño, Hilda Hernández Rivera e Mario César González Contreras, pais de César Manuel González Hernández, acompanhados pela norueguesa e militante de uma ONG que trabalha pela garantia dos direitos humanos e simpatizante do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), de codinome, Susana No, foram os escolhidos pelo Comitê de Pais e Mães de Ayotzinapa e pela Federação dos Estudantes Campesinos Socialistas do México (FECSM) para levar as demandas do movimento que exige a apresentação dos 43 jovens que foram levados vivos e uma investigação séria sobre todos os envolvidos direta ou indiretamente, à Argentina, Uruguai e Brasil. O grupo chegou à Ocupação Utopia e Luta, onde fui acolhida, no dia cinco de junho, uma sexta-feira de calor atípico em Porto Alegre. Antes passaram por Buenos Aires, Rosário, Córdoba, Montevidéu e São Paulo. Depois da capital gaúcha, finalizariam a caravana no Rio de Janeiro.

Caravana prepara-se para ato público, em frente à ocupação Utopia e Luta, no centro de Porto Alegre

Mario César González Contreras, pai do estudante César Manuel, que hoje é conhecido através de uma fotografia em branco e negro, não se lembrava do companheiro de seu filho, José Hernández. Eu insisti, perguntando sobre outro normalista que conheci, tentando aplacar a frustração que sentia por não ter conseguido manter contato com as pessoas que conheci na minha passagem por Guerrero: “Conheces Gerardo Ramírez Flores? Alto, magro, sério, com gel no cabelo e topete?”. “O que perdeu o dedo em uma manifestação?”, respondeu Mario. Eu insisti até ter certeza de que era ele e, sim, estávamos nos referindo à mesma pessoa. Quando aqueles estudantes, de 20 anos, falaram-me sobre sacrifício, não reproduziam pura retórica. “Nós nos colocamos no lugar de qualquer um dos nossos companheiros desaparecidos e acreditamos que eles fariam o mesmo”, disse Gerardo Ramírez Flores, que perdeu um dedo numa manifestação exigindo a apresentação com vida dos colegas, apenas um mês depois de eu o ter entrevistado em novembro.

Hilda Ligideño, guerrense e mãe solteira de dois filho s. Jorge Antonio Tizapa Legideño faria aniversário no dia sete de junho

As mães de nome Hilda são duas mexicanas que buscam seus filhos, uma vem do pacato Estado de Tlaxcala, outra de Guerrero. Na Argentina, conheceram as Mães de Maio. Repetem muitas palavras cheias de poesia e raiva que aprenderam com aquelas mulheres que só queriam encontrar seus filhos e seguem no desejo pela verdade, tendo percorrido décadas de via-crúcis contra os sinos do esquecimento.

Hilda Ligideño, viaja sem companhia familiar, está na segunda caravana, antes levou o rosto de seu filho estampado na camisa pelo Canadá, mais ao norte que o chamado sonho americano. Em Porto Alegre, viveu os momentos mais difíceis da caravana: o aniversário do filho ausente e as eleições estaduais, ambos acontecimentos que se cruzaram no duro dia sete de junho. A dor do primeiro aniversário sem saber onde está Jorge Antonio Tizapa Legideño é explícita. Hilda agonizou em público, ao tentar contar sua história, foi vencida pelo pranto. Sem coragem ou por escrúpulo, não a bombardeei com perguntas. Como se não bastasse, outra angústia pairava sobre seus pensamentos: nos últimos longos meses, o filho mais novo também passou a se interessar pela tal revolução, revoltado com o desaparecimento forçado do irmão. Hilda Legideño não escondia a preocupação pelo caçula estar sozinho em Guerrero, no momento das eleições tensionadas pelo boicote declarado pelo Comitê de Pais e Mães e outras organizações populares importantes, mas condenado pelo governo e pelas armas. Há 17 anos , a mulher de olhos doces, muito católica, sempre segurando um rosário, cuida sozinha do destino dos dois jovens. O pai foi para o norte, sem passaporte, atravessou o deserto, chegou e ficou por lá, como tantos outros homens mexicanos e centro-americanos que constituem o exército desssa diáspora. As Hildas permanecem, esperam, cansam e se agarram aos que se quedam. E não se conformam com que os desgovernos os desapareçam.

O temor não era sem razão. Durante manifestações contrárias às eleições em um estado do México, no qual, o último governador eleito, Ángel Aguirre, teve de renunciar por estar envolvido no massacre de Ayotzinapa, um professor foi morto por policiais federais, no municipal de Tlapa, região da Montanha de Guerrero e muitos manifestantes foram feridos pelas forças armadas estatais.

Para ler notícias como essas , Mario Contreras deixou de ir às manifestações públicas em Porto Alegre. Estava nitidamente nervoso demais para conceder entrevistas. “Agora , a Normal está rodeada de Tropas de Choque. Tixtla, onde as eleições foram canceladas, está rodeada de soldados, a repressão está forte em Guerrero e autoridades pedem mais repressão. O boicote é em todo país, mas o poder e as eleições são tão importante que para o governo é preferível fazer as pessoas votarem à força do que encontrar nossos filhos”, desabafou o pai a partir das informações que lhe foram enviadas durante o dia sete de junho. No último dia em Porto Alegre, ele mesmo me abordou para fazermos a entrevista. Com pesar, passadas as eleições, revelou: “Eu tinha a convicção de que o governo iria propor que, se nós abríssemos mão de protestar contra as eleições, devolveriam nossos filhos”. Triste ilusão para um pai que pensava que as eleições em Guerrero, Oaxaca e Michoacán, estados de maior resistência, eram tão importantes para o governo quanto seu filho é para ele.

Mães de desaparecidos marcham em silêncio, no centro de Porto Alegre, ao lado do estudante sobrevivente, Francisco Sánchez Navas

As imagens de 43 rostos, maioria de menos de 20 anos, quase todos calouros, que compartilham os traços da etnia indígena Náhuatl, estão espalhadas por todo o mundo, impressos ou virtuais, acompanhados pela mensagem: “Vivos se los llevaron, vivos los queremos” (vivos foram levados, vivemos os queremos). Eles faziam parte de um grupo de 57 normalistas que rumavam de regresso para Ayotzinapa, saindo de Iguala, município a cerca de duas horas da Escola Normal Raúl Isidro Burgos, onde estudam e moram. Uma caminhonete da polícia fechava o caminho do primeiro ônibus, em uma estrada da cidade, por onde os normalistas teriam que passar forçosamente para voltar à escola. Alguns rapazes desceram para resolver a situação e foram recebidos à bala.

“Se eles voltarem vivos, vão lutar junto com a gente por um país mais seguro, por um país onde possas andar livremente, sem que exista gente que te desaparece ou te prende por seres estudante. Nós só estamos estudando para ser professor, neste estado que carece de educação. Falta educação, muita humanidade. Ser maestro é uma carreira humanista, nos aproxima das pessoas mais pobres. Não nos mandam às cidades que têm os luxos, como Acapulco, nos mandam à montanha, às costas e às serras”, finalizou seu relato. As Normais Rurais, sobretudo, são escolas de pobres para que pobres voltem aos seus pueblos e ensinem outras crianças o que estudaram

Conheci a estudante de uma escola normal de Iguala, onde estudam homens e mulheres, Danya Gutierrez, no mesmo refeitório, onde jantei na noite de 30 de novembro. Enquanto prestava solidariedade aos companheiros da Frente Unida das Normais de Guerrero, ela contou-me, resistindo às lágrimas, como tentou ajudar os sobreviventes do massacre.
No dia 26 de setembro, às 21h00, ela recebeu uma ligação de um companheiro desesperado relatando que os estudantes estavam sendo atacados por policiais armados, mas o rapaz estava tão alterado que Danya não entendeu sua localização: “Eles não são de Iguala, são de outros municípios. Falaram comigo porque não conheciam a região. Sou uma referência na cidade, por causa do movimento estudantil”. Depois de desligar, ela não imaginava a gravidade do que estava acontecendo: não sabia se havia mortos ou feridos. A jovem foi a todos os lugares citados, como a Central de ônibus, buscando-os, quase sem pistas, até que os encontrou.

Danya entrou em contato com professores da Coordenadoria dos Trabalhadores da Educação de Guerrero para pedir ajuda e quando chegaram ao local viram um cenário de horror: “Tinha sangue no chão, os meninos estavam nervosos, queriam fugir e se esconder. Decidimos buscar um lugar com segurança. Não poderíamos nos abrigar na minha escola, havia muitíssimos policiais municipais rodeando-a”, lembrou. Os sobreviventes marcaram uma coletiva de imprensa para aquela mesma noite, com a presença de políticos, para resguardar o lugar onde estavam reunidos e denunciar o ataque. Passaram-se duas horas e não chegou nenhuma das pessoas que prometeram vir. Então, sobreveio o segundo ataque: uma rajada de balas muito forte, que fez com que os meninos corressem em direção às casas mais próximas para pedir abrigo. Uma senhora indicou uma clínica para que levassem os feridos, já que os policiais recusaram-se a chamar uma ambulância. O médico de plantão recusou-se, por medo, atender a um normalista baleado na mandíbula.
A noite passou mais sombria e chuvosa, os sobreviventes organizaram um operativo para encontrar os companheiros desaparecidos. Francisco lembra com raiva do momento em que viu os policiais colocando seus colegas, um deles seu primo, dentro de uma caminhonete. Impedido de impedir, sentiu toda a impotência que recai sobre quem luta contra um estado que, disfarçado de narcotráfico , comete crimes de lesa-humanidade. Se as autoridades tivessem chegado antes, quando Danya e Francisco pediram, nem Daniel Solís, nem Julio Cesar Mondragón, nem Julio Cesar Ramírez teriam morrido. Poderiam estar desaparecidos, mas não baleados e torturados.

Oferenda da festa mais popular do México, Dia de Mortos, em homenagem aos estudantes caídos. Em destaque, o rosto sereno de Julio Cesar Mondragón, estudante que teve a cara e os olhos arrancados

Melissa Mondragón mal conheceu o pai. Quando o corpo de Julio César Mondragón foi encontrado, a pequena havia chegado ao mundo há pouco mais de quarenta dias. O normalista Julio César teve o corpo desfigurado pelos mercenários do narcotráfico, ainda não se sabe exatamente quem executou o crime, como se esse fosse o suporte para uma mensagem assustadora. Já no dia 27 de setembro, as fotos do rosto em carne viva e sem os glóbulos oculares começaram a ser divulgadas e compartilhadas nas redes sociais. Foi pelo Facebook que Marisa Mendonza, esposa do estudante, descobriu que ele não estava mais desaparecido. Julio César havia sido assassinado após intensa sessão de tortura.
Na mesma noite em que os normalistas estavam em Iguala, a esposa do prefeito do município, María de los Ángeles Pineda, apresentava-se como a próxima candidata do Partido da Revolução Democrática (PRD) à sucessão do cargo. A versão oficial da Procuradoria Federal deposita a culpa intelectual pelo crime inteiramente no casal Abarca. Segundo o relatório, para evitar o inconveniente de que o grupo de normalistas fizesse uma manifestação que interrompesse o evento e os planos da carreira política de María de los Ángeles, o prefeito José Abarca deu ordens aos policiais municipais para acabarem com a “ousadia”. A primeira-dama é irmã de um dos líderes do cartel de narcotraficantes chamado Guerreros Unidos, organização criminosa de longa trajetória, fato que ligaria a participação do cartel à execução do massacre, a pedido do casal.

Plantação cultivada pelos normalistas. Quarenta vagas todos os anos são oferecidas a estudantes indígenas para a Licenciatura Bilíngue

Os normalistas negam que tenham ido a Iguala com a intenção de interromper o jantar de lançamento. No relato apresentado por Francisco Sánchez Navas, como porta-voz da caravana, quando o massacre começou, ele e seus companheiros da FECSM estavam voltando de um pedágio rotineiro para levantar recursos para manter a escola funcionando, já que há anos os governos tentam fechar a unidade. Das 39 Normais Rurais, inauguradas como bandeira educativa da Revolução Mexicana, apenas 17 seguem abertas.

Che Guevara inspira os jovens que estudam para ser professores em zonas rurais miseráveis de Guerrero

Uma série de evidências documentais desmorona as bases da versão oficial que alega que a operação teria sido executada pelas forças policiais do município e que os jovens teriam sido entregues para serem fuzilados e queimados por narcotraficantes. A polícia municipal de Iguala ou qualquer outra polícia dessa instância institucional não seria capaz de comandar uma ação de tamanha complexidade. Os armamentos utilizados nos quatro ataques orquestrados contra os estudantes não são compatíveis com os uniformes, veículos e armas dos agentes de Iguala. As testemunhas que embasam a frágil versão das autoridades são os próprios membros do cartel dos Guerreiros Unidos, sendo que há denúncias de que alguns integrantes foram espancados e torturados antes de assumirem a participação e reafirmarem que os mandantes do crime são o casal Abarca, em parceria com o narcotráfico local.
As testemunhas e os vídeos são unânimes: os federais estavam cientes em todos os momentos, segundo o material reunido e divulgado pela repórter mexicana Anabel Hernandez , autora da matéria especial Governo mexicano participou do ataque contra estudantes de Ayotzinapa publicada pela Agência Pública de Reportagem e Jornalismo Investigativo. Os registros do Centro de Control, Comando, Comunicaciones y Cómputo (C4) — um sistema integrado que distribui informações para centrais das três instâncias de governo — são fortes evidências quanto à ciência do Governo Federal em relação ao crime de estado, desde início dos ataques.
O exército foi obrigado a divulgar fotografias feitas por militares no hospital, onde normalistas acompanhavam companheiros feridos, em fevereiro de 2015. O que comprovaria que os soldados já sabiam do ataque, pelo menos enquanto o desaparecimento era efetuado.
Francisco contou ao público da caravana que quando ele e outros sobreviventes foram à delegacia apontar os culpados, poucos dias após o ataque, tiveram que solicitar um capuz para não ser identificados pelos policiais municipais. A exigência foi atendida e os estudantes reconheceram 23 possíveis criminosos. Para o espanto dos jovens, encontraram os mesmos agentes na secretaria da delegacia, no momento de assinar o depoimento com os dados reais de cada sobrevivente. Desde esse episódio, afirmam não confiar nas informações de que supostos participantes do crime estão presos. Também alegam desconhecer se os mesmos indivíduos reconhecidos estão na cadeia ou se as autoridades realmente puniram alguém.

Familiar de desaparecido reza, em frente ao altar em homenagem aos 43 desaparecidos, mortos e feridos do dia 26 de setembro de 2015, montado na quadra da escola. Mais de quatro dezenas de cadeiras continuam vazias. Os estudantes seguem em greve, enquanto esperam o retorno dos alunos do primeiro semestre

Em seis de dezembro de 2014, a Equipe Argentina de Antropologia Forense (EAAF), mundialmente reconhecida pelos trabalhos investigativos relacionados a crimes de lesa humanidade, anunciou a identificação de parte da ossada de um dos desaparecidos. Um dente molar e um fragmento de osso de um dos dedos das mãos do estudante filho de agricultores, Alexandre Mora Venancio, de 19 anos, foram encontrados carbonizados no lixão de Cocula, município próximo a Iguala. Segundo o Comitê de Pais e Mães, o resultado do teste de DNA não comprova que o estudante esteja morto, já que a matéria orgânica encontrada, em circunstâncias duvidosas, é insuficiente. O pai de Alexandre Mora, viúvo, continua na busca por seu filho desaparecido e a integrar o Comitê que se concentra em Ayotzinapa. Tampouco há provas científicas que os ossos tenham sido queimados naquele mesmo lixão. Mario César González Contreras suspeita que essas evidências tenham sido plantadas no lixão e afirma que o pai do estudante ainda não recebeu os supostos restos mortais e segue acreditando que seu filho está vivo.
Durante as buscas pelos normalistas realizadas na região de Iguala e Cocula, foram encontradas 38 fossas clandestinas em Iguala, totalizando 87 corpos. As fossas parecem fazer parte da paisagem natural de Guerrero. Aos poucos, essa realidade alcança o patamar da banalidade, fazendo parecer com que os corpos despedaçados, carbonizados e objetificados pelos grupos criminosos não possuam uma história. E a verdade é que apenas uma pequena parcela desses corpos ganhará novamente uma identidade e será associada a um rosto com uma vida que acabou em tragédia. Inexiste um protocolo adequado para testes de DNA que seria o esperado em país que apresenta números de guerra.
Desde que o ex-presidente Felipe Calderón, do Partido Acción Nacional (PAN), declarou a suposta guerra ao narcotráfico, em 2006, 85 mil pessoas foram assassinadas e 26 mil desapareceram por conta dessa guerra, em que os supostos adversários, Estado e narcotráfico, parecem revelar a mesma face à população empobrecida, principal alvo da violência.
A quantidade de fossas clandestinas chega a cifras tão altas que não é difícil suspeitar da conivência do Exército e das instituições de governo. As fossas clandestinas passaram a ganhar um status praticamente institucional, pois é o destino comum de grande parte dos corpos das vítimas de crimes de Estado ou de organizações criminosas. É o próprio povo guerrerense que é responsável pelo resgate de parte dos desaparecidos. A União de Povos e Organizações do Estado de Guerrero (UPOEG), junto a familiares de desaparecidos agrupados no Comitê de Familiares de Vítimas de Desaparecimento Forçado e à Organização Ciência Forense Cidadã passaram a se preocupar com o que está se chamando de “os outros desaparecidos”, os donos dos corpos que emergiram das profundezas revelando uma sinistra realidade, entretanto, a opinião pública não se comoveu tanto. Fruto da insistência desses pais, mães e irmãos, que voltam a lugares onde os funcionários do governo dizem já terem esgotado as possibilidades, mais de 97% dos corpos exumados pelas autoridades foram recuperados graças às buscas organizadas pelo Comitê que se autodenomina “Buscadores de tesouros de incalculável valor”.

Manifestação de normalistas rurais de Tenería, no Estado do México

Como solução para a superação da crise gerada pelo autoritarismo e violência, os pais dos normalistas e a própria FECSM defendem a legitimação dos Conselhos Municipais Autônomos, das Polícias Cidadãs e Comunitárias e dos Conselhos de Justiça Comunitária como instâncias democráticas capazes de garantir o poder popular genuíno e a autonomias dos povos, em sua maioria tradicionais. As representações insurgentes não reconhecem os representantes partidários eleitos por um sistema que consideram uma farsa imposta contra vontade da soberania popular. A dita democracia mexicana, para eles, não passa de uma Narco-ditadura. “Não queremos mais governos impondo suas vontades. Não deve existir lei acima do povo”, disse Francisco Sánchez Navas, indicando a falência do Estado Democrático de Direito. Perguntado sobre quais as propostas do movimento que boicotou as eleições em sete municípios, Francisco desabafou: “Sou de Guerrero e estou cansado de viver neste estado, onde todos os dias vemos mortos, destroçados. Cansado de abrir a porta de casa e me deparar com uma cabeça rolando”.

Mural com influência da arte Asteca expõe protesto contra o capitalismo e a dominação branca

Sensíveis às questões relativas à autonomia dos povos sobre seus territórios, justiça e produção cultural e material, Francisco, Hilda Contreas e Mario destacaram, no Brasil, o encontro com os Guarani, em São Paulo: “Aqui no Brasil, também há desrespeito aos direitos humanos”, comparou Francisco. Hilda, cativada pela aldeia Guarani, disse: “Eles têm uma paz de espírito e dividem tudo. É um local ao qual eu gostaria de voltar.”
A vida de Mario resumia-se, antes de iniciar a empreitada para encontrar o único filho, a lutar por ter uma renda melhor. Ele mesmo define com rigidez o homem que era antes da tragédia: um cidadão comum, sem consciência da crise no país, preocupado em ver TV e idiotizado. “Fui um dos mexicanos que votaram em Enrique Peña Nieto do Partido da Revolução Institucional (PRI)”, confessa com desgosto. Hilda e Mario passavam os dias na pequena propriedade em Tlaxcala, quando receberam a notícia de que um pesadelo começara. Naquele 26 de setembro, pai e filho conversaram por telefone, às 3h30 e às 17h45, mas a ligação prevista para à noite nunca aconteceu.
O casal sentiu que estava em outro país quando chegou ao Estado de Guerrero. Eles são pobres, mas ali enxergaram a face da pobreza extrema. Conheceram gente que vive com fome, no limite dos 40 pesos (sete reais) diários. As mães dos outros normalistas que, como eles, cassavam informações na escola, arrastavam suas sandálias, com as solas já tão gastas que os pés sentiam as pedras. Hilda e Mario pediram ajuda às primeiras pessoas que encontraram, receberam respostas em idiomas indígenas e desconhecidos. Aquele cenário tão diferente do que conhecia, fez com que Mario desconfiasse de que o México real não era igual ao México pintado pela Televisa. Os estudantes desciam e subiam nos ônibus, mobilizando-se, já no primeiro dia de busca. Cada vez que um ônibus estacionava, Mario corria e olhava fixamente, esperando ver o rosto do seu filho.

Apresentação teatral do grupo “Oi noiz aqui Traveiz” que denuncia os crimes das ditaduras. No centro, o símbolo da cadeira vazia, à espera da volta dos estudantes. Ao fundo, o sobrevivente Fracisco Navas com a camisa que estampa o desenho do guerrilheiro, assassinado nos anos 1970, Lúcio Cabañas Barrios.

“Os governos globalizam o ódio, nós globalizamos a luta”, repetiu Francisco em todos os espaços organizados em Porto Alegre pelos coletivos anarquistas. Francisco é um quadro dirigente da FECSM. Como tal, transforma-se quando fala em público. Carrega cada sílaba com emoção, é carismático, ao ponto de fazer com que um filme passasse diante dos meus olhos, a cada repetição dos relatos do massacre. Mesmo assim, não escutei a tal observação reveladora. Pouco consegui saber sobre sua vida. Ali ele era um ser coletivo, empenhado em cumprir todas as decisões deliberadas em Ayotzinapa. Longe dos discursos públicos, não gosta de falar de política com pessoas que não sejam íntimas, prefere contar piadas, pedir um cigarro escondido para a acompanhante norueguesa, aprender a tocar violão, fazer massagens ou até brincar de Karatê. El Negro, como foi apelidado na Normal, contou que muda o tom da retórica, dependendo da ocasião. Entre os outros estudantes, engrossa a voz e começa o grito: “A cor do sangue jamais se olvida/ Os massacrados serão vingado/ Não estás morto, camarada, tua morte será vingada/ E quem a vingará?/ O povo organizado/ E como?/ Lutando”, e mais uma manifestação começa no Estado de Guerrero.
Provavelmente, em Ayotzinapa, enquanto terminava a Caravana Sudamérica, José Hernández, o estudante que divide as leituras dos clássicos do marxismo, com livros sobre a mitologia Maia, estivesse gritando a mesma consigna. Sua formação baseada nos preceitos da chamada “educação científica e popular”, pela qual luta, não o impede de acreditar que existam coisas inexplicáveis sobre a terra. Como sonhos que anunciam o futuro. Posso imaginá-lo agora, descansando, depois de mais um dia intenso de espera, dentro de seu dormitório, e tenho certeza de que ele só deseja acordar desse longo pesadelo que começou naquela madrugada do último 27 de setembro.

Entrada da Escola Normal Rural Raúl Isidro Burgos, fundada em 1928, dentro das reformas educativas da Revolução Mexicana. Na faixa, lê-se: “Castigo aos assassinos dos normalistas e destituição dos funcionários cúmplices”.
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