Como nasce o racismo

“Mamãe, o menino falou que não ia brincar comigo porque os amigos dele são brancos e eu sou marrom. Ele disso que não gosta de marrom.”

“E o que você disse filha?”

“Eu disse que eu gosto de marrom, e que às vezes as famílias são marrom. E toda a minha família é marrom e eu sou linda!”

“ Ah é filha? E ele?”

“ Ele disse que só brinca com os amiguinhos brancos.”

Esse foi o meu diálogo desta manhã com a minha filha caçula, de 3 anos. Ela me contou, com muita naturalidade e sem nenhum sinal de mal-estar que um coleguinha da turma falou que não brincaria com ela porque ela é “marrom”. Quando ela começou a conversa e me disse isso, meu sangue gelou. Um desconforto físico tomou conta do meu corpo e eu percebi que minha filha, minha garotinha que mal deixou de ser um bebê, já está enfrentando o racismo.

Mini Bentia é muito sensível e emotiva, então assim que ela me contou isso eu a imaginei chorando e ficando triste essa rejeição com base em sua cor de pele. Em seguida, perguntei qual foi a reação dela e a resposta me surpreendeu e me acalmou. Ela não se deixou abalar pela rejeição e falou de forma positiva da sua cor de pele. Não tenho como ter certeza que ela agiu dessa maneira. O racismo nos pega de surpresa e nos deixa sem ação, mesmo quando já sabemos várias respostas para o preconceito. Como essa história está sendo contada por ela depois, é claro que essa reação positiva pode ser uma forma idealizada, pode ser uma construção de como ela gostaria de ter agido na hora, mas que não fez de verdade ou pode até mesmo ser uma forma dela me contar que me deixe feliz com ela, porque sempre falamos em casa o quanto gostamos de ser negros. O final da história é aquele já narrado, o menino manteve a mesma posição e não brincou com ela.

Mesmo que os fatos não tenham acontecido exatamente assim, é pouco provável que a cena toda seja uma invenção da minha pequena. Crianças negras sofrem racismo na escola desde cedo e é até natural que as crianças não saibam lidar com as diferenças.

Na escola da Mini Bentia, a maioria das crianças são brancas. As professoras também. Então pensando no contexto daquele espaço e nas prováveis relações que esse menino estabelece, o contato com pessoas negras deve ser muito pequeno. Somando-se a isso, a ausência de representatividade negras nos desenhos animados, na publicidade e nos espaços de poder fazem com que a criança branca cresça com uma visão distorcida sobre a negritude. Eu entendo que a criança branca não queira se misturar com crianças de outras etnias, que prefira ficar entre iguais. O que eu não entendo é que adultos não façam nada quanto a isso. Não entendo como professores e pais não desenvolvem um olhar atendo sobre essas questões, não percebem que as crianças brancas estão afastando as crianças negras ou se negando a brincar ou interagir com elas.

Essa atitude de afastamento a partir da diferença é o embrião do racismo. E ele é alimentado pela falta de educação para as relações étnico-raciais, pela falta de uma atitude pró-ativa para o combate à discriminação racial na infância e pela omissão das pessoas não-negras na luta antirracista.

O caso relatado pela Mini Bentia mostra que essa situação precisa de uma intervenção. Não sei se algum adulto acompanhou o diálogo, nem se esse menino convive com outras crianças negras além da minha filha e essa foi uma atitude pontual, uma justificativa naquele momento pra não brincar com ela. Não sei sequer se a família dessa criança a ensina a se afastar de pessoas negras ou se essa foi só uma percepção da criança de que o afastamento é uma postura adequada diante das diferenças. Não tenho essas respostas.

Só sei que o nosso trabalho de formiguinha só vai resolver parte do problema, a parte que nos afeta e nos faz sofre. Minha filha me contou tudo isso com naturalidade, como se fosse mais um fato corriqueiro da escola e sorriu quando me contou a sua resposta para o menino. Eu posso trabalhar para que ela entenda que é o menino que sai perdendo com essa atitude, que a discriminação racial não é culpa dela e que ele é que está agindo de uma forma errada e mal educada. Mas e a outra parte? Quem trabalhar para ensinar o menino a conviver e respeitar as diferenças? Quem ensina pra criança que essa atitude é racismo? Quer percebe logo na primeira infância as raízes dessa atitude racista e procura combatê-la?

Eu marquei uma reunião com a direção da escola para informar o que minha filha contou essa manhã. Mas nada me garante que as pessoas se interessarão verdadeiramente em por essa questão. Nada me garante que as professoras olharão com amis cuidado para as interações entre as crianças e perceberão essas situações a ponto de intervir. Nada me garante que os profissionais da escola estão habilitados para promover uma educação pra diversidade, que valorize as diferenças e que combata o racismo. Nada me garante que a família do menino será informada para também se dedicar a promover uma educação que respeite o outro e que o ensine a conviver com as diferenças.

Não dá pra colocar toda a carga do racismo nas costas das pessoas negras. O racismo contra negros é um problema gerado pelos brancos e precisa ser combatido por todos.


Originally published at A mãe preta.

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