De onde viemos?
Ninguém sabe ao certo como o homem chegou à América. Cientistas estão debruçados sobre esta questão há décadas e a cada nova descoberta, o paradigma que está posto é levemente arranhado.
Cerca de 200 mil anos após o surgimento do homo sapiens, há uma série de questões ainda sem respostas sobre a nossa espécie. Como as populações pré-históricas migraram para a América? Qual o caminho utilizado por elas? Quando os primeiros grupos começaram a migrar? Qual foi a rota utilizada?
A partir da análise de vestígios da presença humana em diferentes locais do continente americano, pesquisadores tentam responder essas perguntas há décadas. Ainda não há um consenso sobre a resposta. Há, no entanto, algumas teorias e hipóteses que, cada uma a seu modo — e com seu método — buscam reconstruir esta narrativa quase que fantástica.
Uma recente descoberta, publicada na revista Science em 16 de maio de 2014, reacendeu o debate e trouxe novas pistas sobre como se deu a ocupação humana no continente americano. Um grupo de pesquisadores encontrou um esqueleto humano com idade estimada em 13 mil anos, na caverna Hoyo Negro que submersa na península de Yucatán, no México. A ossada seria de uma jovem entre 15 e 16 anos que faleceu em decorrência de uma queda — de acordo com os cientistas, as fraturas encontradas na bacia da jovem sugerem esta como a provável causa de morte.

Apesar de não ser o esqueleto mais antigo encontrado nas Américas, a jovem de Yucatán forneceu informações preciosas. Como o artigo da Science reforça, ainda há muito debate sobre quem são os ancestrais dos mais antigos americanos. A análise do DNA mitocondrial do esqueleto de Hoyo Negro classificou-o como pertencente ao Subgrupo D1, ou seja, descendente de uma linhagem asiática que ocorre apenas nas Américas. A probabilidade é que tal linhagem tenha se desenvolvido após a migração para o continente através da Beríngia. O cruzamento de dados mostrou que este mesmo subgrupo está presente no DNA de 10,5% dos nativos americanos, com uma frequência maior, 29%, entre indígenas do Chile e da Argentina. Para chegar a essas conclusões, os cientistas beberam de diversas fontes e se apoiaram no conhecimento científico construído continuamente, há déca.das, por pesquisadores do mundo inteiro. Para elucidar as origens do esqueleto descoberto e também para entender como aquela garota havia chegado à península de Yucatán, os pesquisadores se utilizaram de uma gama de hipóteses e teorias sobre a ocupação do continente americano.
A teoria mais aceita, hoje, no meio científico, defende que a dispersão do homem pela América começou pelo norte. Os primeiros grupos teriam atravessado o estreito da Beríngia, uma faixa de terra que liga a Sibéria ao Alasca, numa janela de tempo que varia entre 30 mil e 15 mil anos atrás. À época, a faixa de terra de quase 90 km estava exposta, permitindo a passagem entre os dois continentes. Há cerca de 17 mil anos, iniciou-se o degelo que deixou a Beríngia do jeito que conhecemos hoje: um pedaço de chão coberto pelo Mar de Bering, separando a Ásia da América.

A hipótese mais moderna desta teoria defende que a migração foi feita em três momentos distintos, com base na análise comparativa entre o material genético do DNA mitocondrial de asiáticos e americanos. A primeira onda migratória levou grupos de caçadores-coletores da Ásia Central até o nordeste do continente, num período compreendido entre 43 mil e 36 mil anos atrás. Após este momento, as populações teriam se fixado na região do estreito da Beríngia e ali permaneceram por um período que durou entre 28 mil e 18 mil anos atrás. Por fim, os primeiros americanos teriam atravessado o estreito em direção ao Alasca por volta de 16 mil anos atrás.
Essa pausa permitiu a concentração de variantes genéticas causadas por mutações numa mesma população. As alterações no DNA estão presentes nos povos asiáticos, porém não são encontradas entre os americanos. Essas evidências, aliadas aos achados arqueológicos na região, permitiram a formulação de uma hipótese consistente que explica o princípio do povoamento da América a partir da migração pelo estreito da Beríngia. Estima-se que há cerca de 13.500 anos, os primeiros homo sapiens iniciaram sua dispersão pela América, partindo da Beríngia e chegando até a Terra do Fogo, na extremidade sul do continente.
A princípio, acreditava-se que o primeiro grupamento humano se instalou de forma mais definitiva na região central dos Estados Unidos, dando início à Cultura Clóvis. Na década de 1930, o arqueólogo Edgar B. Howard encontrou diversas pontas de lança com um grau de sofisticação nunca visto antes. As pontas, esculpidas em pedra lascada, tinham um formato ovalóide padrão, eram afiadas e mediam 10 centímetros, em média. Alguns artefatos foram encontrados junto a fósseis de mamutes e bisões, indicando que o povo de Clóvis era caçador de grandes animais pré-históricos.

Howard decidiu investigar a existência de artefatos semelhantes em sítios arqueológicos da Sibéria, mas não encontrou. A partir daí, acreditou-se que as pontas de Clóvis eram a primeira invenção genuinamente americana. O mesmo padrão de ocupação e uso de ferramentas foi encontrado em sítios espalhados pelos Estados Unidos, norte do México e também sul do Canadá. O povo de Clóvis, enfim, havia se espalhado por boa parte da América do Norte.
A datação dos artefatos indica que as ocupações foram feitas há mais de 12 mil anos e, até pouco tempo, acreditava-se que este era o primeiro registro da presença humana no continente americano. Vestígios semelhantes àqueles dos Estados Unidos também foram encontrados em outros locais da América do Norte, principalmente, levando a crer que a migração se deu pela costa do Pacífico, até a Terra do Fogo, num período que teria levado mil anos.
Um grupo de cientistas cogita que a tecnologia encontrada em Clóvis descende da cultura solutreana, que dominava a região da Europa ocupada pela Espanha e França, entre 21 mil e 16 mil anos atrás. As semelhanças entre as ferramentas utilizadas por esta cultura e pelos primeiros habitantes da América, levantou a hipótese de uma possível migração direta com origem na Europa, reforçada pelo fato de que os vestígios da população solutreana foram substituídos por outro tipo de cultura mais primitiva, em solo europeu, há 15 mil anos.
A travessia entre os dois continentes teria acontecido durante o último período glacial, pelas bordas dos blocos de gelo que formavam uma ponte entre o litoral francês e a costa dos Estados Unidos. A hipótese defende que os imigrantes da cultura solutreana utilizavam pequenas embarcações, semelhantes àquelas utilizadas pelos esquimós hoje em dia, para realizar a travessia, trazendo consigo as ferramentas que serviram de inspiração para a cultura Clóvis.
Contudo, análises do DNA mitocondrial de americanos nativos revelou que há uma similaridade genética muito mais consistente com os padrões asiáticos do que europeus, refutando a hipótese de que a cultura solutreana teria influenciado diretamente as primeiras culturas encontradas na América.
Acredita-se que a extinção do povo de Clóvis tenha acontecido simultaneamente à extinção de grandes animais, como mastodontes, mamutes e bisões, que eram os principais alvos das práticas de caça desse grupo. Há também uma hipótese que defende que a extinção ocorreu por conta do aumento de doenças infectocontagiosas originadas na relação mais próxima entre humanos e animais domésticos.
Apesar da aparente solidez da teoria de Clóvis, outros sítios arqueológicos foram descobertos, principalmente na América do Sul, com datações ainda mais antigas. Em alguns lugares, encontrou-se indícios de ocupações com até 50 mil anos. E aqui têm início as controvérsias.
“A ideia de que o homem não chegou à América antes da última glaciação tem sido apoiada pelo fato de que, até agora, todos os sítios arqueológicos conhecidos e datados não são tão antigos. Mas agora nós anunciamos datações feitas com radiocarbono num sítio brasileiro que indica que os primeiros homens viviam na América do Sul, há pelo menos 32 mil anos”. Assim iniciou o artigo que colocou em xeque tudo o que se conhecia sobre a como o homem havia chegado à América até então.
O texto, publicado na revista Nature em 1986, é co-assinado pela brasileira Niède Guidón e apresenta ao mundo os achados arqueológicos do sítio Toca do Boqueirão da Pedra Furada, na Serra da Capivara, no Piauí. Niède é diretora presidente da Fundação Museu do Homem Americano, sediada em São Raimundo Nonato, no Piauí. Ela e sua equipe iniciaram as escavações no local em 1978, e encontraram vestígios de fogueiras estruturadas e inúmeros artefatos de pedra lascada sob um abrigo na rocha, repleto de inscrições rupestres. Alguns desses achados datam de 40 mil anos.
Os sítios da Serra da Capivara chamam a atenção pela quantidade de pinturas rupestres que foram encontradas por lá: “nós temos mais de mil sítios, dos quais mais de 900 com pinturas”, explica a pesquisadora. O registro mais antigo foi identificado num bloco de pedra com duas retas paralelas, encontrado ao lado de um fogão primitivo, datado de 17 mil anos.

Nas pinturas, o que se vê são imagens que retratam o cotidiano daquele povo, como cenas de caçadas, figuras humanas e registros da fauna local. A datação nos paredões do Piauí são anteriores às pinturas rupestres mais conhecidas, como aquelas encontradas nas cavernas de Lascaux, na França, e de Altamira, na Espanha, que têm a datação estimada entre 12 mil e 15 mil anos.
Os vestígios humanos encontrados na Serra da Capivara não são os únicos a contrariar a teoria de que a primeira ocupação humana em terras americanas seria aquela promovida pelo povo de Clóvis. Há outros sítios arqueológicos na América do Sul que remontam épocas anteriores ao sítio norte-americano. É o caso de Monte Verde, no sul do Chile, onde estima-se que um grupo humano teria vivido há cerca de 14.800 anos.
No local, foram encontrados indícios de ferramentas, restos de alimentos, ossos de animais e sobras de fogueiras. Além disso, os cientistas acharam vestígios de vigas de madeira que seriam utilizadas para erguer barracas, revestidas com pele de animal, também encontrada no sítio de Monte Verde. A base alimentar desses chilenos primitivos era mais completa que a do povo de Clóvis. Os achados indicam que plantas e vegetais tinham a mesma importância que a carne de caça na dieta. Algas, sementes, batatas, cogumelos e frutas: tudo isso fazia parte da alimentação.
Os sítios encontrados na região de Monte Verde são muito mais consistentes que aqueles da América do Norte no que se refere ao modelo de ocupação. Enquanto o povo de Clóvis tinha como característica o nomadismo, e vagavam pelo continente atrás de animais de caça, o povo do sul apresenta um perfil mais autóctone, com moradias e organização social mais complexa.
De volta ao Brasil, a hipótese defendida por Niède Guidon é de que os homens que ocuparam a região da Serra da Capivara vieram da África. A migração teria ocorrido por conta de mudanças climáticas no continente africano: “Há cerca de 130 mil anos, a África passou por um período de seca muito grande e as pessoas saíam para o mar, para procurar comida”, explica a pesquisadora. De acordo com esta hipótese, os ventos e as correntes marítimas trouxeram as embarcações primitivas para o litoral brasileiro, aportando na Bahia e na região da delta do Rio Parnaíba, no norte do Piauí.
Os estudos na Toca do Boqueirão do Sítio da Pedra Furada apontam que os primeiros grupos se instalaram na região há cerca de 50 mil anos. Ali, construíram fogões, desenvolveram sua cultura e começaram a fazer pinturas nas paredes do abrigo, há mais de 23 mil anos. Com o tempo, os grupos foram ocupando outros espaços na região e começaram a ter diferenciações de cultura e tecnologia. Na Toca do Sítio do Meio, por exemplo, foram encontrados os mais antigos pedaços de cerâmica das Américas, com datação de quase 9 mil anos. Neste mesmo sítio também foi descoberto o primeiro instrumento de pedra polida do continente americano: uma machadinha de 9.200 anos.
Os povos que viviam na Serra da Capivara eram caçadores-coletores e as pinturas deixadas por diferentes grupos ao longo de quase 6 mil anos tornam possível o conhecimento sobre o modo de vida, a tecnologia utilizada para a caça e também dos recursos naturais disponíveis à época.
Outro brasileiro também faz parte desta história. O pesquisador Walter Neves, professor do Instituto de Biociências da Universade de São Paulo (USP), foi responsável por chefiar a equipe que datou e mediu um dos mais sólidos indícios de que o homo sapiens teria se fixado na América do Sul antes do que se acreditava. Durante escavações no sítio arqueológico de Lagoa Santa, em Minas Gerais, encontrou-se um esqueleto em meados de 1970.
O crânio é o mais antigo das Américas, datado de 11.500 anos, e tinha feições de uma mulher, que foi batizada de Luzia. A partir do estudo das características anatômicas de Luzia, foi possível concluir que sua origem é africana, e faria parte da primeira leva de caçadores-coletores que imigraram para a América via estreito de Bering. Segundo Neves, as ondas migratórias posteriores eram compostas por indivíduos com características mongolóides, bem diferente daquelas encontradas em Luzia.
Outras ossadas foram encontradas na região de Lagoa Santa, com datações um pouco mais recentes: entre 8 e 9.500 anos. Quase 30 anos após a descoberta de Luzia, Neves participou de uma nova descoberta. Desta vez, uma ossada de quase 10 mil anos, batizada de Luzio, foi encontrada no Vale do Ribeira, no sul de São Paulo.

O fato é que ninguém sabe ao certo como o homem chegou à América. Cientistas estão debruçados sobre esta questão há décadas e a cada nova descoberta, o paradigma que está posto é levemente arranhado. As pesquisas brasileiras ainda não apresentaram resultados suficientemente convincentes — aos olhos da comunidade científica internacional — para provocar a revolução nas teorias de ocupação do continente que existem hoje.
Assim como a travessia humana de um continente para o outro, mudanças de paradigmas demandam tempo. O Brasil e a América do Sul como um todo, estão cheios de evidências que apontam uma ocupação humana anterior à defendida por pesquisadores que acreditam num modelo de migração do norte para o sul. Com o tempo, também, há um aprimoramento da tecnologia, que permite datações mais precisas e métodos de sondagem e escavação que podem ajudar a recuperar tesouros escondidos em sítios arqueológicos. A formulação de novas teorias não é repentina. Tampouco a aceitação desses novos modelos. Contudo, quando se fala em pesquisas sobre como o homo sapiens chegou à América, já atravessamos boa parte do longo caminho que separa a dúvida de uma resposta conclusiva.
Esta reportagem foi produzida, originalmente, para a revista Retrato do Brasil.