Versos vazios a dançar poesia
Uma pequena seleção de alguns dos meus versos e fotografias
Palavras. Frágeis suspiros, urros ou risos, todos levados ao vento. Falsos versos, folhas verdes e vivas, folhas fortes e limpas, belas flores de plástico. Brisa, corrente ou tempestade. Nuvens de pedras e trovões.
Palavras não são ossos. Não são nervos, carne ou sangue. Não são pele, não são risadas. Palavras não são nada. São apenas palavras, levadas ao vento, levadas à alma.
Sinta minhas palavras

A Cor do Escuro
Eu prefiro a noite
Silêncio que conta em mil palavras
A paz das almas condenadas
Morfina das vidas anárquicas
Um gelado abraço de remanso
Eu prefiro a noite, mas por quê?
Porque a sutileza é uma beleza que se sente e não se vê
A noite escura que procura uma lua cheia e sua nudez
A escuridão que esconde uma esclerosa lucidez
Que corre sem chegar a algum lugar
O canto de uma árvore com o vento, que não se ouve nem enxerga, apenas sente admirado
Tateando tal beleza de um espelho estilhaçado
A cada ano mais idoso, vidro fino, vinho amargo
A cada dia menos doce, esquecendo que era sábio
Eu prefiro a noite, mas a noite não prefere
A noite apenas segue, enquanto rugas na minha pele
Nascem com cada estrela na apatia do meu ar
Eu quero só a noite, apenas junto à noite estar
Tais tolas paixões são querer beijar o luar
Um trépido luar cuja noite não pode amar
Entropia, a sutil e vil desgraça destes barcos
Das cidades onde a cor morre e o amor corre, calado
O contraste do deserto e das selvas e dos carros
Engaiolados pássaros de plástico
Eu prefiro a noite, onde sonho acordado
Na alegria que depende decadente de um estrado
Numa mente onde se criam monumentais teatros
Sonhos vívidos, pesadelos, sonhados espetáculos
Com indigno mundo, o narciso indignado
Apenas olha para o céu em meio a prantos calados
Deitando com a noite em seu leito salpicado
Como uma criança antes de dormir

Despedida
Não vá lhe dizer que não significaram nada
Todas essas tardes de sol que passaram juntos
E todas as noites chuvosas que dormiram juntos.
Não vá fingir que não sobrou nada
De toda essa ânsia por estarem juntos
E de todos sentimentos que descobriram juntos
Não vá lhe falar que não mais lembrará
De todas as vezes que a apertou contra seu peito
E que tanto falou “estou brincando contigo”
E ela, em sua inocência, não soube o que tu querias dizer
E ela, em sua paixão, não via o óbvio dentre os abraços
E seguindo seu coração míope não viu que brincavas, entediado, como quem joga conchas ao mar
A ver um pequeno coração ricochetear sobre as ondas salgadas
Não a peça para não chorar ao ouvir suas palavras
Pois será inútil como dizer ao vidro que não se quebre ao cair no chão
Ou pedir às folhas secas que não se deixem levar pelo vento do outono
E não a peça para que não se entristeça quando a abandonar
Pois pedir que seu coração não se estilhasse é como pedir aos galhos caídos, galhos secos, que não se partam sob o peso de teus pés
E não a diga para não mais te amar nem sentir tua falta
Pois tais pedidos são tão absurdos quanto mandar que os pássaros se calem, que não cantem pela manhã
E que a lua pare de seguir o sol
E que o alvorecer e o crepúsculo enterrem e esqueçam o cobre de seu sangue.

Poetas
Quem são os melhores candidatos para o inferno…
Se não os artistas, com sua habilidade de tornar belas as coisas repulsivas,
decorando e justificando com melodias e belos versos ações e emoções negativas e corrosivas?
Quem são os melhores candidatos para o inferno…
Se não os artistas, que glorificam a morte, a solidão e a agonia
e que manipulam suas palavras para enganar e sufocar tua empatia,
forçando-te no subconsciente a sentires o que sentem, sofreres o que sofrem, e até pensares como pensam?
Quem são os melhores candidatos para o inferno…
Se não os artistas, que se inspiram no sofrimento e no desespero na mesma medida que no amor, no ódio e na melancolia, e colocam de igual para igual tudo o que é negativo e positivo, corrompendo tanto o que é “bom” quanto “ruim”?
Quem são os melhores candidatos para o inferno…
Se não as próprias pessoas que descobriram que o verdadeiro inferno está dentro de nós?
