Versos vazios a dançar poesia

Uma pequena seleção de alguns dos meus versos e fotografias

Palavras. Frágeis suspiros, urros ou risos, todos levados ao vento. Falsos versos, folhas verdes e vivas, folhas fortes e limpas, belas flores de plástico. Brisa, corrente ou tempestade. Nuvens de pedras e trovões.

Palavras não são ossos. Não são nervos, carne ou sangue. Não são pele, não são risadas. Palavras não são nada. São apenas palavras, levadas ao vento, levadas à alma.

Sinta minhas palavras

Foto por: Lucas Braga F

A Cor do Escuro

Eu prefiro a noite

Silêncio que conta em mil palavras

A paz das almas condenadas

Morfina das vidas anárquicas

Um gelado abraço de remanso

Eu prefiro a noite, mas por quê?

Porque a sutileza é uma beleza que se sente e não se vê

A noite escura que procura uma lua cheia e sua nudez

A escuridão que esconde uma esclerosa lucidez

Que corre sem chegar a algum lugar

O canto de uma árvore com o vento, que não se ouve nem enxerga, apenas sente admirado

Tateando tal beleza de um espelho estilhaçado

A cada ano mais idoso, vidro fino, vinho amargo

A cada dia menos doce, esquecendo que era sábio

Eu prefiro a noite, mas a noite não prefere

A noite apenas segue, enquanto rugas na minha pele

Nascem com cada estrela na apatia do meu ar

Eu quero só a noite, apenas junto à noite estar

Tais tolas paixões são querer beijar o luar

Um trépido luar cuja noite não pode amar

Entropia, a sutil e vil desgraça destes barcos

Das cidades onde a cor morre e o amor corre, calado

O contraste do deserto e das selvas e dos carros

Engaiolados pássaros de plástico

Eu prefiro a noite, onde sonho acordado

Na alegria que depende decadente de um estrado

Numa mente onde se criam monumentais teatros

Sonhos vívidos, pesadelos, sonhados espetáculos

Com indigno mundo, o narciso indignado

Apenas olha para o céu em meio a prantos calados

Deitando com a noite em seu leito salpicado

Como uma criança antes de dormir

Foto por: Lucas Braga F

Despedida

Não vá lhe dizer que não significaram nada

Todas essas tardes de sol que passaram juntos

E todas as noites chuvosas que dormiram juntos.

Não vá fingir que não sobrou nada

De toda essa ânsia por estarem juntos

E de todos sentimentos que descobriram juntos

Não vá lhe falar que não mais lembrará

De todas as vezes que a apertou contra seu peito

E que tanto falou “estou brincando contigo”

E ela, em sua inocência, não soube o que tu querias dizer

E ela, em sua paixão, não via o óbvio dentre os abraços

E seguindo seu coração míope não viu que brincavas, entediado, como quem joga conchas ao mar

A ver um pequeno coração ricochetear sobre as ondas salgadas

Não a peça para não chorar ao ouvir suas palavras

Pois será inútil como dizer ao vidro que não se quebre ao cair no chão

Ou pedir às folhas secas que não se deixem levar pelo vento do outono

E não a peça para que não se entristeça quando a abandonar

Pois pedir que seu coração não se estilhasse é como pedir aos galhos caídos, galhos secos, que não se partam sob o peso de teus pés

E não a diga para não mais te amar nem sentir tua falta

Pois tais pedidos são tão absurdos quanto mandar que os pássaros se calem, que não cantem pela manhã

E que a lua pare de seguir o sol

E que o alvorecer e o crepúsculo enterrem e esqueçam o cobre de seu sangue.

Foto por: Lucas Braga F

Poetas

Quem são os melhores candidatos para o inferno…

Se não os artistas, com sua habilidade de tornar belas as coisas repulsivas,

decorando e justificando com melodias e belos versos ações e emoções negativas e corrosivas?

Quem são os melhores candidatos para o inferno…

Se não os artistas, que glorificam a morte, a solidão e a agonia

e que manipulam suas palavras para enganar e sufocar tua empatia,

forçando-te no subconsciente a sentires o que sentem, sofreres o que sofrem, e até pensares como pensam?

Quem são os melhores candidatos para o inferno…

Se não os artistas, que se inspiram no sofrimento e no desespero na mesma medida que no amor, no ódio e na melancolia, e colocam de igual para igual tudo o que é negativo e positivo, corrompendo tanto o que é “bom” quanto “ruim”?

Quem são os melhores candidatos para o inferno…

Se não as próprias pessoas que descobriram que o verdadeiro inferno está dentro de nós?

Lucas Braga Freitas

Written by

Jornalismo — foto, palavra e voz. Poeta nas horas vagas, cronista no coração. Conta para portfólio. Um náufrago na maresia desse mundo.

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