a nísia

A Nísia não chama Nísia. Não chamava, aliás, porque a Nísia já morreu. Mas eu sempre chamei a Nísia de Nísia e, vinte e sete anos depois, não é agora que isso vai mudar.

A Nísia foi quem me criou. Tem gente que é criada pela mãe, pelo pai, pela mãe E pelo pai, se der sorte na loteria das famílias, pelos avós… Mas foi a Nísia quem me criou. Não só ela. Ela e mais algumas várias pessoas, na verdade. E eu vou falar dessas pessoas depois. Mas esse capítulo é só sobre a Nísia.

A Nísia era, teoricamente, a cozinheira lá de casa. Teoricamente só, porque, na prática, ela tava mais para general. Sem querer desmerecer a comida: a Nísia cozinhava maravilhosamente bem, mas meu paladar infantil — que perdura até hoje — nunca soube dar muito valor, mas é que ela era muito mais do que o arroz e feijão. A Nísia era quem mandava e desmandava. Em mim, na minha irmã, na minha mãe, no meu pai, nos bichos e nas Dals (que merecem um capítulo à parte).

A Nísia era uma mulher alta, forte, brava, negra, e racista. Pois é, eu também não sabia que podia, mas pode: pode ser negro, e pode ter preconceito contra negro, sim. A Nísia não gostava de negros. Quando perguntei, na inocência dos meus sete anos, se ela ia votar no Pitta, recebi um grunhido azedo e um “Eu não! Não voto em preto!”. E, quando retruquei, “mas Nísia, você é preta também!”, ela não titubeou: “Eu não sou preta! Sou cor de café-com-leite”.

A Nísia tinha uma relação maluca com os bichos. No mundo animal, ela não discriminava: cachorro, coelho, papagaio, peixe, tartaruga, gato, codorna… Sim, a gente teve de tudo. E todos, sem exceção, sempre gostaram mais da Nísia. Começou com o Nino, um bichon-frisé que eu só tenho duas memórias: uma foto dele, cotoco-algodão, no chão, com a minha mãe de shorts laranja; e o dia que ele morreu atropelado, e o guarda não conseguiu socorrer a tempo. Foi perto de quando os Mamonas Assassinas morreram, e eu chorei mais pela banda do que pelo Nino. Ele era nosso, mas só queria saber da Nísia. Com os gatos, era a mesma coisa: O Larry (vira-lata preto e branco), a Peteca (que apareceu, filhote, um dia no quintal), a Meg (branca de olhos verdes, metiiiida), o Giorgio (que era tipo o Garfield) e até a Tequila (branca, angorá, que morreu mordida no pescoço pelo cachorro do vizinho). De todos os bichos, os dois que a gente jogou a toalha e falou “tá bom, são seus” foram a Lucy — uma cocker spaniel demônia, que mordia qualquer um que chegava perto da caminha e dos brinquedos dela. menos a Nísia, óbvio; e o Loro, que ela chamava de Tabaréu, porque era a única coisa que ele sabia falar, e que veio do sítio do meu avô. Ele, o papagaio, com as asas cortadas, andava empoleirado, em cima de uma toalha velha, no ombro dela. A Nísia e o Loro/Tabaréu eram uma entidade só lá em casa. Quando ela foi embora — em uma das várias vezes que ela foi embora e voltou –, os dois (a Lucy e o Loro) foram junto.

A Nísia trabalhava, antes de trabalhar em casa, na casa da minha avó. Eu não lembro de quando ela tava lá, porque eu não tinha nascido quando ela trabalhava lá. Na minha vida, na minha memória, desde que eu me entendo por gente, tinha a Nísia. Na casa da minha avó teve a Nísia, o Ceci, a Nê, e a Eva, que foram os que eu conheci. E na casa da Baba, minha bisavó, tinha a Julia. A Julia é uma entidade à parte, também. Tipo a Nísia. Que teoricamente é cozinheira, mas que na prática é muito mais que isso. Junto com a minha família, e as Dals, e as babás, eles também me criaram. Uns mais, uns menos, mas não sei contar minha história sem falar das histórias malucas do Ceci; do Toddynho e mamão cortadinho da Nê; do trauma-de-lobo-até-hoje por causa da Eva; e da sopa de nuvens da Julia.

A Nísia também se chamava Dônãnísia. Todo mundo que era subordinado, na marra, à ela, chamava a Nísia de Dônãnísia. Ou, todomundo que tinha um instinto de sobrevivência/noção de perigo chamava ela de Dônãnísia. Mas comigo nunca foi assim.

A Nísia fumava. Fumava muuuuuito. Fumava tanto que eu sabia que ela fumava Parliament, e sei de cabeça a embalagem branca e azul marinho daquela época. O quarto da Nísia e das Dals ficava em cima de uma escada caracol de cimento que, na minha memória, era gigante e parecia a escada da torre da Rapunzel. Embaixo da escada não tinha dragão — mas tinha a Lucy, que era maisoumenos a mesma coisa. A Lucy era um amor com a Nísia, sempre, mas mordia o tornozelo das Dals direto. E de quem quer que fosse se aventurar ali. Eu sempre ia, e saía correndo e pulava a cachorra. Mas, às vezes, ia também pela janela. A janela da sala de TV, no segundo andar, dava para o telhado — que conectava essa janela à janela do quarto das Dals. Vira e mexe eu saía pela janela, andava no telhado, e dava um susto (eu sempre dava susto) na Dalciene. Pulava a janela dela para dentro, saía pela porta, e ia no quarto da Nísia.

A Nísia tinha um quarto pequeno. E, se eu achava pequeno proporcionalmente ao meu tamanho com sete anos, é porque devia ser pequeno mesmo. E o quarto dela tinha uma nuvem tóxica fedorenta de cheiro de cigarro, uma tevê, uma janela que dava para a casa do Seu Clóvis, uma cama de solteiro com uma colcha cor de vinho, e uma foto do Michael Jordan. O quarto dela com certeza tinha mais coisas, mas são essas as que eu me lembro.

A Nísia era MUITO fã do Michael Jordan. Muito mesmo. E não me pergunte sobre a lógica-racista dela, porque eu não sei dizer. O camisa 23 do Chicago Bulls estava acima da cor da pele dele. Para metade do mundo também, diga-se de passagem, mas essa é a história da Nísia, e não do restodomundo. A Fernanda também era fã do Michael Jordan. E andava para lá e para cá com a regata vermelha e branca do Bulls, e dormia com o boneco do Jordan, que você apertava um botão nas costas e ele mexia os braços e falava algumacoisa em inglês que eu nunca entendi. Se a Nísia e a Fernanda gostavam daquele cara, eu também gostava. Não pelas enterradas dele ou pela quantidade de finais da NBA que ele jogou — mas porque, se duas das minhas ídolas gostavam, eu também tinha que gostar.

A Nísia sempre dava ‘boa-noite’ para o William Bonner no final do Jornal Nacional. A Nísia sempre fazia flores com a casca do tomate para enfeitar toda e qualquer travessa que saía da cozinha dela. (A cozinha era da Nísia, e de ninguém mais). A Nísia sempre usava uma corrente de prata com vários penduricalhos e, entre eles, uma estrela de David. A Nísia não era judia, mas era. Porque a gente era, ela era também.

A Nísia era obcecada pelo meu pai. Ela era apaixonada por ele e cozinhava as coisas mais maravilhosas e nojentas para ele. Só para ele, porque ninguém além dele comia codorna — ainda mais depois de ter tido uma criação de codornas. A Nísia se orgulhava de ser mais ou menos do tamanho do meu pai. Quando rolava faxina no armário dele, era a Nísia quem herdava as roupas. E ela adorava. Eu lembro dela com um pulôver amarelo, meio puído, da Lacoste, que nunca vi meu pai usar.

A Nísia sempre usava um lenço na cabeça. O cabelo dela era ralinho, ralinho. Grisalho e só dava para fazer um mini rabicó. Ela usava um monte de lenços diferentes — mas que eram mais por praticidade do que por estética. No meu-quadro-mais-preferido-do-mundo-todo, que a Fernanda pintou com uns oito anos de idade, a Nísia tá sorrindo, com uma malha azul e amarela, e um lenço na cabeça.

A Nísia não gostava do meu Padrasto. Pegou um bode do tamanho de um bonde quando meus pais se separaram, e aquele homem, que não era o meu pai, mudou lá para casa. Ela não queria nem saber. Depois de uns anos (anos!), ela se conformou com a nova realidade e passou a aceitar. Gostar igual ao meu pai jamais, mas aceitar — nos padrões Nísia de ser — já tava de muito bom tamanho. A Nísia até ensinou para ele a receita da famosa Chalá dela — e até hoje eu não entendo o que raios a bolinha de massa num copo d’água tem a ver com o tempo que o pão assa no forno.

A Nísia foi a primeira pessoa da minha vida que morreu. Foi num dia de março, em 2008. Ela ia ser operada por algumacoisa no coração e não aguentou: morreu na mesa de operação. A última coisa que eu lembro da Nísia é dar um abraço dela. O abraço dela era daqueles que cura tudo. Mole, e macio, e que te envolve por inteiro. Quando dei esse último abraço, antes de ela sair de casa e de ser operada, percebi que a proporção já tinha mudado completamente. Eu tinha crescido e ela tinha encolhido, e nossas alturas já se encontravam mais ou menos num meio-termo. Ela tava com uma malha branca, a corrente de sempre, e o cabelo penteado para trás com o nózinho que era o rabo-de-cavalo dela.

A Nísia nasceu em maio. E eu odeio que eu não lembro se o aniversário dela era 5 ou 30 de maio.

A Nísia virou uma estrela. Não uma estrelinha, no céu, mas no meu vestido de casamento. Quis casar com um vestido bordado com estrelas, e cometas e planetas, e não com aquelas flores que todomundotem. Na barra, botei estrelas para as pessoas que não estavam lá, mas que eu queria que estivessem. O Lu, a Baba, o Theo, a minha avó, e a Nísia. A Nísia ia chorar — e, esteja ela onde estiver, deve ter chorado — muito de me ver casando.

A Nísia foi a primeira pessoa da minha vida que morreu. A primeira vez que eu fui num velório, e num cemitério, foi para ver ela. E eu vi ela num caixão aberto, coberta por um tecido-de-tela-de-mosquito e cheia de flores em volta. Aquela Nísia já não era mais a minha Nísia. A Nísia que eu conhecia não cabia, nem caberia, naquela caixinha, e não tinha, nem nunca teria, aquela expressão-sem-expressão. O filho da Nísia chamava Narciso, mas eu nunca conheci. No dia do velório, conheci duas irmãs dela que quando me viram, me deram um abraço do tipo que só quem era da família da Nísia podia dar, e falaram, chorando “é a menina dela; é a menina dela”. E era. E sou.