arte contemporânea para publicitários

luiza brenner
Apr 24, 2017 · 2 min read
Jeff Koons sendo Jeff Koons

Sabe quando você está no chuveiro e, do nada, cai shampoo no seu olho e você tem um insight sobre um título animal, mas que não tem absolutamente nenhum contexto? Tipo quando você tem uma puta sacada, mas não tem necessariamente um ‘job’ por trás dela? Você só tem uma súbita inspiração e guarda a idéia no moleskine (ou no evernote, ou atrás do cupom fiscal) e, quando aparece uma chance que ‘dá para usar’, você desengaveta? E faz o planejamento se desdobrar em 20 para tentar criar uma explicação convincente para o cliente, porque ninguém quer pagar um par de milhão de reais por uma ‘puuuuta brisa que o redator teve no chuveiro’? Pois é.

A arte contemporânea (e, por contemporânea, quero dizer ‘arte pós-internet’ ou ‘arte da nossa geração’) está cada vez mais parecida com isso. Com uma puta sacada (ou só uma sacada sem graça mesmo), traduzida em ‘arte’. Não tem pesquisa, suor, tentativa e erro. Não tem planejamento por trás. Os ‘artistas’ (que são tão artistas quanto eu sou publicitária) têm uma ideia engraçadinha e colocam no papel (ou na tela, ou na parede, ou onde quer que seja) e esperam alguém (uma ‘galeria jovem’ ou um curador ou uma blogueira) validar e transformar aquilo em dinheiro. Mas cadê a carne? Cadê a essência? É arte para o Kanye West ‘curar’, a Beyoncé tirar selfie e a Kim Kardashian equilibrar na bunda. As artes plásticas viraram plastificadas: cheias de botox, lipoaspiração, injetando a gordura da coxa na bochecha e inflando os lábios. Cadê os publicitários para dar um jeito nisso? Cadê a campanha da Dove, pela ‘real beleza’ na arte?

Chega de quadro que combina com o sofá, que sai bem no fundo da selfie, que é cheio de espelho para narciso ver (e compartilhar). Quero um Kiefer, e seus quadros que parecem sujeira. Quero Beuys, e suas maluquices de conviver com um coiote. Quero Serra, e suas paredes de ferro que não cabem em um quadrado do Instagram. Sim, arte é legal, é bacana, é cool. Com certeza é um monte de hashtags que vão te trazer centenas de novos seguidores. Mas arte também é pensamento, é processo, é trabalho. Artwork — é para dar trabalho. Não basta ter uma ideia bacana e mandar os assistentes/escravos executarem, e nem é um ingresso grátis para a Art Basel em Miami Beach. Arte é para educar, para fazer pensar. E o artista tem que assumir responsabilidade sobre a cria que está botando no mundo.

Meu ouvido não é penico — e muito menos meus olhos. Se tempo é dinheiro, eu não quero gastar um minuto nem um centavo desviando da sua estátua metálica de balão de cachorro — e de todos os paus de selfie ao redor.

Valeu aí, seu KOOns, mas não quero minha arte embrulhada para presente.

luiza brenner

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mezzo português, mezzo inglês, mezzo gramaticalmente preguiçosa e claramente #dehumanas

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