hasta, mão

A minha mão vai cair.

Sim, vai. Ela vai lentamente desfalecer, desrosquear-se do meu braço, e cair, agonizando, no meio deste monte de cadeiras espremidas nesta sala abafada.

Sim, ela vai cair. Não tem jeito.

Vai derreter. Primeiro, os dedos. O anelar (‘anelar’. ô palavra feia essa), mais especificamente. Sabe-se-lá-porque é nele que eu apóio a lapiseira.

Aliás, eu sei por que apóio nele. Quer dizer, não sei. Mas tenho uma teoria que foi comprovada (ok, não foi. mas finge que foi) por alguns cobaias (humanos — nada de testes em animaizinhos) que, quem desenha — ou gosta de desenhar- apóia a lapiseira (ou o lápis, a caneta ou qualquer coisa com que se queira desenhar) no famigerado dedo anelar. E é por isso que ele vai ser o primeiro.

Pobre dedo-coitado, sob pressão. Tem que ficar todo torto, arrastando-se no papel, esmagado entre o mindinho (‘mindinho’ é quatrocentas vezes pior do que a palavra ‘anelar’. Fato. Parece um dedo cotoco, mirrado. E ainda no diminutivo! Eca. ‘Mindinho’ vai para o topo da lista das Piores Palavras Já Inventadas — assim que eu fizer uma) e o dedo médio.

Pobre pobre dedo-coitado. Calejado, sujo de grafite e sem anel algum. ‘Anelar’ não seria um bom nome para ele — até porque com o calombo escarlate instalado na primeira falange da mão direita, anel nenhum há de passar. Sim, ele será o primeiro.

A ordem em que os outros vão partir, eu não sei. Pouco importa. De nada adiantaria saber. Um a um, hão de ir.

Resta saber, agora, se vale a pena recolhê-los. Guardar em um potinho? Empalhar? Dar de comer aos gatos?

Espero que não melequem o papel quando caírem. Porque aí teriam morrido em vão. De que adianta se sacrificar em nome de um bom texto (ou de um texto qualquer, que seja) se esse vai acabar coberto de sangue e outras coisas que compõe um apropriado dedo? É bom que caiam fora do papel.

A minha mão vai cair. Sim, agora a qualquer minuto. Sinto que o fim está próximo.

Já se pode ouvir o tendão gritando, desesperado ‘Acabe logo com isso! Não posso mais suportar!’.

A mão, há muito já trêmula, teima. Insiste: ‘Pare de ser frouxo; molenga. Segure as pontas; agüente!’

‘Mais uma, duas linhas, no máximo, eu juro’ tentou dizer.

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