mientras tanto

Tomavam café juntos. Levantavam a xícara e a levavam à boca em perfeita sincronia, como que ensaiado. Um gole longo, mas curto. Demorado, mas que mal molhava os lábios. ‘Melhor não beber tudo de uma vez’, pensavam. Para poder levar a xícara à boca quando quisessem disfarçar o silêncio.

Nunca precisaram preencher este espaço. O espaço em que sentavam, lado a lado, sem falar nada.
Não era um peso, um alerta, um ‘por favor, alguém fale logo alguma coisa’ que se vê em primeiros (e em muitos outros) encontros.
Aprenderam, ou ensinaram, a ficar em um silêncio leve, um ao lado do outro. Não precisavam falar, se entendiam.

O café já estava morno. O dela, puro. O dele, com leite. ‘A xícara de café com leite é maior’, pensou quando foi fazer o pedido. De fato, era. E isso lhe dava alguma vantagem em espaços de silêncio.

Não havia mais nada para ser dito.
Muitas outras vezes não falaram nada — mas mais por não sentirem necessidade de preencher o ar com conversa à toa, do que por falta do que dizer.
Não havia mais nada para ser dito.
O fim estava certo, decidido. Foi comum acordo, era insustentável. Estava pesado, doído, pontiagudo, áspero. Falar apenas em ‘desgaste’ era menosprezar o clima que havia se instaurado há dias demais.

Ela amava outro.
Ele sabia, porque ela tinha falado. Não percebeu as roupas novas, o batom vermelho, as meias de seda e os saltos altos. Tampouco o súbito interesse por romances alemães, o hábito de fumar Ministers ou o gosto pelo conhaque. Ela amava outro e ele só sabia porque ela tinha falado.
Era um professor.Vinte e oito anos mais velho do que ela. Casado, e há muito já avô.
Não se importava. Ela o amava.

E, para ele, ela amava outro. Que diferença fazia se era velho, moço, tio, primo, galo, gordo, careca ou corredor? Ela amava outro, não ele. Não ligava mais para seus óculos redondos, que tomava-lhe do rosto para ler os classificados, ou sua camiseta surrada dos Stones, que servia-lhe como pijama há meses. Ela amava outro.
E imaginá-la com outra camiseta, em outra cama, fumando cigarros que não os dele, beijando lábios que não os dele, abrindo sorrisos que não pare ele, causava-lhe vertigem; náusea, nó nas tripas. Um cheiro azedo lhe preenchia as entranhas.

Bebiam, mudos, com olhares vazios. Ela pensando ‘acaba logo com isto’. Ele pensando ‘acaba logo com isto’. E nenhum dos dois acabava.
As xícaras estavam vazias, o cinzeiro estava cheio. Ele fazia uma escultura com palitos de dentes, enquanto ela fumava o último cigarro até o filtro.

Não havia mais nada para ser dito. As malas dela estavam feitas, e já no carro.
Ousar falar sobre despedidas e lembranças boas e em manter a amizade não fazia sentido. Sabiam que jamais seriam amigos, e que ela já não guardava nada dele, e que ele guardava e recordava tudo dela. E assim era, e assim seria.

Dividiram a conta. Ela levantou, colocou as mãos em seu ombro e suspirou. Ele não ousava se mover, em qualquer direção que fosse.
Saiu sem dizer nada.
Não havia mais nada para ser dito.