o sítio-da-minha-avó

O sítio-da-minha-avó sempre foi um lugar meio mágico. O sítio é (era?) da minha avó e do meu avô — provavelmente, mais do meu avô, porque chama (chamava?) Haras HB. O sítio, de haras, não tinha nada. Quer dizer, teve alguns cavalos aleatórios — tipo a Princesa, que um dia gorfou verde no ombro do meu pai, enquanto ele puxava ela, e eu ia sentada na sela; e um cavalo-chique, desses de raça, igual a gente vê em filme e no Central Park, puxando carruagem. Sim, no sítio já teve um cavalo-com-carruagem (que, um belo dia, caiu no lago, e quase que deu ruim, mas deu tudo certo e, no fim, a gente só deu risada), mas a maior parte do tempo, era charrete mesmo — com o Seu Urbano guiando.

O Seu Urbano nunca foi de falar muito. Aliás, o Seu Urbano nunca foi de falar nada. Em todos os meus anos de sítio, se ouvi dez palavras dele foram muito. Mas, se o negócio era passear de charrete, era com ele. O Seu Urbano é (era?) marido da Catá. A Catá (de Catarina) é quem manda (mandava?) no sítio todo. Se tem alguma coisa errada, ou alguma coisa certa, ou alguma coisa só, a Catá é quem resolve (resolvia?). A Catá também é (era?) cozinheira de mão cheia — mas na cozinha, o protagonismo era da Nilza. O-bolo-de-chocolate-da-Nilza sempre foi a chantagem emocional preferida para me fazer querer ir para lá.

A Nilza é (era?) casada com o Carlão — figura rara que aparecia só de vez em quando, com um sorriso enorme e invariavelmente em cima de uma moto. E o Carlão é (era?) pai da Carlinha, que de ‘inha’ não tem mais nada, porque hoje já é mulher-feita. A Carlinha era minha companheira-de-aventuras no sítio. Roubar brigadeiro ainda quente da cozinha, produzir shows e peças (e fazer todomundo pagar ingresso para assistir), e transformar caixas de papelão e sucata em naves espaciais eram nossas especialidades.

Ir para o sítio era uma saga à parte. Quando não tinha iPad e iPhone e iNada para distrair crianças na estrada, os 76km de distância pareciam durar para sempre. Os clássicos-da-estrada eram: a). fazer show do Péio e da Péia na janela [basicamente, eu deitava no banco de trás — enquanto a Fernanda me empurrava para eu sair de cima dela –, colocava os dois pés no vidro, e simulava um diálogo entre o Pé Macho (Péio) e a Pé Fêmea (Péia).] b). Cantar ‘A Árvore da Montanha’ ou ‘360km’ ou ‘Um Elefante Incomoda Muita Gente’ ou Alguma-Música-de-Itaipu (o acampamento-do-horror — mas que merece um capítulo à parte) ou qualquer música para irritar todomundo do carro. c). Parar no Lago Azul para comprar biscoito polvilho.

Minha memória não é auditiva (existe memória auditiva?), mas lembro exatamente do barulho do carro entrando no sítio, e o som dos pneus passando por cima do chão de pedrinhas.

O melhor de ir para o sítio era quando ninguém mais ia. Criança naturalmente antisocial (por ser muito mais nova que meus primos, e ter uma irmã-demônia), preferia os finais de semana que eu ia sozinha com os meus avós. Quando ia só a gente, eu não tinha que dormir no beliche — eu dormia num colchão no chão quarto deles, no meio da coleção de Matrioskas da minha avó. O quarto deles, assim como a casa deles, é (era?) o paraíso infantil. Milhares de quinquilharias que eles traziam das viagens-pelo-mundo (eles deram algumas voltas-ao-mundo) e que minha avó sempre deixava eu mexer.

No sítio tinha um quarto de brinquedo que, ao contrário do que se possa imaginar, era um inferno. A palavra ‘inferno’ é meio forte demais, mas é só para ser o contrário. Enfim. O quarto de brinquedos do sítio era um museu de brinquedos-antigos-dos-meus-primos-mais-velhos. Castelo do He Man, carrinho de rolemã e uma caixa-registradora-do-McDonald’s eram os meus preferidos. Mas, para chegar lá, eu morria de medo. Eu tinha certeza que, quando entrasse lá para pegar alguma coisa, ia achar uma cobra. Alguém deve ter me falado isso e eu acreditei, e não há cristo que me tire essa ideia da cabeça. Preferia improvisar algumacoisa com a Carlinha do que entrar lá para pegar um brinquedo legal.

Quando eu passava o final de semana só com os meus avós, nem precisava dos brinquedos. Durante o dia era nadar (a piscina era congelante), pular na cama elástica, ver os bichos (ah, os bichos do sítio! Peraí que já falo deles), brincar na casinha da árvore, enrolar brigadeiro na cozinha, andar no pomar, enfim. Durante a noite, jogar Rummikub com os meus avós. Ou, tentar jogar Rummikub com os meus avós. Meu avô era infernal. O jogo não durava mais do que duas ou três rodadas. Na vez dele, ele ficava olhando as pecinhas e pensando e pensando e pensando muito muito tempo (ou, no meu timing de criança-de-8-anos, pelo menos parecia muito muito tempo), mexia para lá e para cá, e ganhava. Minha avó protestava (‘deixa a Luiza jogar!’) e eu emburrava, e era isso. Com ele não colava a história de ‘ela é café com leite’. A próxima partida só no dia (ou final de semana) seguinte.

No sítio, meu avô sentava na cabeceira. Uma mesa de madeira gigante (ou, na minha perspectiva de criança-de-8-anos, pelo menos parecia muito muito grande), e ele sentava na ponta, de frente para a janela. As cadeiras eram altas, cinzas, de couro (ou de um material que queria ser couro), estofadas, e com o encosto alto. E minha avó sempre sentava à esquerda. Atrás dela, na parede, ficava a coleção de colheres-de-pau. Nas várias viagens, ela sempre trazia uma. Quando estávamos só nós 3, eu sentava na mesa dos adultos. Quando estava a família toda, era demovida para uma das duas mesas redondas, menores.

Uma das minhas coisas preferidas do sítio era o lanche da tarde. Quatro ou cinco da tarde, a Nilza colocava na sala a garrafa térmica de chá de Erva Doce, pão de queijo, requeijão, e o bolo. Sim, o-bolo-de-chocolate-da-Nilza. Um dos grandes fortes do sítio sempre foi a comida. Primeiro, quando estava muito calor e na época que meus avós ainda desciam para a piscina, o aperitivo era no carramanchão (isso é uma palavra?!). Patês, torradinhas, queijos, frios, tomatinhos e cenourinhas e pepininhos, azeitonas e por aí vai. Eu pegava um-de-cada do que tinha na mesa, empilhava em cima de uma torradinha, colocava um palito para segurartudonolugar e dava para o meu avô o ‘canapé’. Eu podia empilhar chuchu com maria mole e molho de tomate que ele comia, e agradecia, feliz. Quando tocava o sino, era hora de correr lá para cima para comer pastel. Tinha que ser ágil, ou esperar a segunda leva.

Nos tempos entre-refeições, esperando fazer a digestão (ah! essa lenda dos nossos pais! a tal ‘digestão’ que impedia a gente de entrar na piscina depois do almoço, ou sair pulando por aí), eu fazia problemas. Sim, sabe-se-lá-porque, na época, eu gostava de matemática e de fazer problemas. Pedia para o meu avô, engenheiro-da-Poli, me dar problemas cada vez mais difíceis para resolver. Eu ouvia, entrava embaixo da mesa com o meu bloquinho-do-Bradesco (entendedores entenderão) e caneta, e só saia de lá com o resultado na mão. Ele morria de orgulho, e tinha certeza que eu, a caçula, ia ser o orgulho-dele e ser engenheira-da-Poli — já que o filhinho amado fugiu da escola. Doce ilusão. Vinte anos depois, não sei mais nem fazer conta de menos. (Ainda bem que a Julia, a primeira bisneta, deu essa alegria).

Ah! Os bichos! O sítio era um freak-show dos bichos. Ia dos clássicos cavalos-patos-gansos-coelhos para os exóticos flamingos-lhamas-emas-avestruzes, passando por bizarrices tipo mini-bois-e-mini-vacas. Aves é (era?) a especialidade do meu avô. Tucanos, araras, pavões, galinhas-d’angola, codornas, papagaios (que depois foram parar lá em casa. O Tabaréu, da Nísia, lembram?), e mais um monte de passarinhos e periquitos esquisitos, que não faço ideia do nome. Dentre os bichos, o que mais me marcou, foi o Chico. Mas não no bom sentido. O Chico era um mico, que eu não sei como foi parar lá. Durante o dia, ele ficava numa espécie de coleira, andando sobre um cordão de aço. (Pensando agora, coitado do bicho). Um belo dia, achei por bem oferecer para o Chico o miolo de um copo-de-leite. Aquela parte fálica da flor, sabe? Acho que ele ficou ofendido. Ao invés de pegar aquilo, pegou meu dedo e mastigou e só soltou depois que quatro (quatro!) pessoas arrancaram ele de cima de mim. Sim, com oito anos, fui mordida por um macaco e quase perdi metade do dedo anelar da mão direita. Meu pai e minha mãe estavam andando pelo sítio, e o Neni ficou segurando as duas partes do meu dedo para se auto-grudarem e ele não cair, até eles voltarem. Alguns meses depois, eu estava passando em frente à árvore do Chico e ele me atacou, de novo. E mordeu o mesmo dedo, de novo. E quatro pessoas tiveram que tirar ele de cima de mim, de novo. E eu quase perdimeiodedo, de novo. Mas ficou tudobem, de novo. Mesmo depois de 2 strikes, o mico continuou ali. Só foi doado depois que mordeu a Nilza também. Aí já era demais.

O sítio-da-minha-avó sempre foi um lugar meio mágico. Com suas toalhas-laranjas-ásperas, lençóis listradinhos, e o baú de fantasias do quarto da Tia Zuca. Eu não lembro a última vez que eu fui para lá. Com o passar dos anos, o sítio-da-minha-avó já não era mais a mesma coisa. A família cresceu e a casa ficou pequena. Precisava de mais quartos. E precisava de academia. E precisava de uma engenhoca-para-subir-cadeira-de-rodas para o meu avô (bem antes de ele só usar cadeira de rodas) que teve até festa de inauguração. Aos pouquinhos, o sítio-da-minha-avó foi perdendo o encanto, e os finais de semana e feriados viraram ocasionais almoços de domingo, até acabarem. Um belo (triste) dia meu avô declarou ‘nunca mais vou para o sítio’ e nunca mais foi. E eu nunca mais fui. E desde que a minha avó se foi, o sítio foi, oficialmente, junto. Mas deixou (deixaram) saudades.