um caderno bege, três pensamentos confusos e dois cafés

Não entendo escritores que sentam em cafés lotados e escrevem. Acho que poucas coisas são mais deprimentes (odeio este termo, mas fiquei com preguiça de procurar outro melhor) do que sentar, sozinho, num café lotado, munido somente de um caderno bege e uma lapiseira 0.7mm, sem escudo ou armadura, esperando o celular tocar. (Não vai tocar).

Não faz sentido. Vim de metrô, sozinho. Quis vir sozinho. E, agora, me sinto sozinho. Idiota. Não era este o propósito desde o início? Tirar um tempo para você mesmo? Para ficar sozinho? Então por que estou me sentindo assim? Não quero ir para casa. Não mesmo.

Não tenho para onde ir. Não há para onde ir. Está de noite e estou sozinho. Não, não tem para onde ir. Quero companhia.

Odeio querer companhia. E a multidão, ao redor, falando alto, definitivamente não ajuda.

Welcome back, big D.

Esse não era para ser mais um daqueles anos. Começou diferente. Eu senti diferente. Não, não pode ser igual. São os anos pares. É, com certeza são esses malditos anos pares. Karma.

(Não vai tocar. Não precisa ficar olhando a cada segundo. Não vai tocar)

Nessas horas eu queria gostar de fumar. Poder ficar parado na rua, só olhando, sem parecer completamente doido. — Como se agora você não parecesse, conversando com um caderno bege. (Não, ele não responde). Mas alivia..

Acho que palavras escritas não tem o poder de desatar o nó. Palavras não ditas sufocam, engasgam. Dão nó. E lápis nenhum, e caderno nenhum, cura. Mas não vou. Falar, eu digo. Não, não. Não digo nada. (Esquece, não vai tocar).

Prefiro o nó à dizer. Palavras ditas libertam — mas também aprisionam. No momento em que saem, tomam forma. Tomam forma e se solidificam e não vão embora. Palavras ditas tornam-se coisas; se realizam. Vão e não tem mais volta — ainda mais se alguém as escutou. Acho melhor guardar as coisas na garganta do que deixá-las soltas por aí — para se realizarem.

Coisas e lugares; sonhos e pessoas; pensamentos e palavras. Estranho pensar nessas coisas. Tenho todo um mundo dentro de mim. Um mundo não realizado, de sonhos só sonhados, que se perdem sem parar. É, palavras escritas também perturbam — dão nó na cabeça. “-Estou enlouquecendo? Falando com um caderno? Falando comigo mesmo?”.

Sou vários, e detesto.

Estranho parar para olhar as pessoas ao redor. Casais, amigos, colegas de trabalho. Pessoas sem relação alguma, que convivem por alguns minutos e depois se dispersam, sem nem saber quem estava sentado ao lado. É estranho. Todo mundo tão perto, sem nem se olhar. Ei. E não é que acabo de reconhecer um rosto? Sim, me é muito familiar. É um ex professor. E ele fala, sem parar

Prefiro permanecer em silêncio, sozinho, do que tentar preencher o vazio falando ansiosamente com estranhos. Sim, eles até escutam. E até admiram. Mas ele, o professor, não me engana. Não mesmo. Um olhar vazio, vago, longe, reconhece outro — ainda que à distância.(Não vai tocar).

É, está ficando tarde. Está ficando frio e minha dor de cabeça (e nó na garganta) já não me deixam pensar. Acho que é isso; vou embora. Adeus, caderno bege. Vou para casa, vou dormir.

(E não, o telefone não tocou).

Mas vai. Ah, se vai.

Tocar.