uma criança capitalista em três tempos

Contextualizando: Era uma vez uma criança brava. Uma menina com cabelo-de-menino, mandona, que emburrava no canto quando contrariada e podia passar horas sem pronunciar uma única palavra como modo de protesto. Era uma vez uma menina que não conseguia pedir desculpas, e que acordava às 5h da manhã e, por não saber mudar o canal da televisão, assistia Telecurso 2000. Era uma vez uma criança que nunca foi verticalmente favorecida e tinha cara de anjo, mas era o gênio-do-crime e mestra em se esquivar quando a bronca chegava. Era uma vez uma criança que, quando perguntavam o que queria ser quando crescer, respondia: “chefe”. Qualquer semelhança com a pessoa que vos fala atualmente, é mera coincidência.

parte I. 4 anos de idade: o dia em que eu quis comprar a casa

Com quatro anos de idade, resolvi que queria comprar a casa. Não uma casa de bonecas, ou a casa do vizinho, mas a casa em que eu morava. Botei meu cofrinho-de-moedas-de-cor-verde-água-com-estampa-do-Mickey-que-ganhei-de-brinde-no-dentista debaixo do braço e fui bater na porta do quarto do meu pai:

– [toc toc toc]

– Oi, Lu.

– [séria] Eu quero comprar a casa.

– [risos] Oi?

– [mais séria, e um pouco brava] Eu quero comprar a casa!

– [segurando o riso, para não me deixar mais brava] Mas por que você quer comprar a casa? Você mora aqui.

– Eu quero comprar a casa para mandar. E para dormir nesse quarto aí, que é maior.

– [risos]

– [muito brava] Eu quero comprar a casa! Esse dinheiro dá? [mostrando o precioso conteúdo do cofrinho] Se não der, eu peço emprestado para o meu avô.

parte II. 4 anos (e pouco) de idade: plano real

Em um almoço de família, depois de ouvir a história do-dia-que-eu-quis-comprar-a-casa, um dos irmãos da minha avó, o Tio José, desacreditou e resolveu me testar. Mal sabia com quem estava falando. Tio José resolveu me propor um negócio: me deu uma nota de R$1,00. E, em seguida, pegou uma nota de 1000 cruzeiros, e perguntou:

– Lu! Quer trocar sua nota de 1 real por essa de MIL cruzeiros?

– [guardando a minha nota de 1 real] Eu não! Essa aí não vale mais nada.

parte III. 8–10 anos de idade: notas promissórias

Em casa, só eu tinha dinheiro vivo. Desde que comecei a ganhar mesada, não gastava nem um centavo, e guardava tudo meu cofrinho. Sim, o cofrinho-de-moedas-de-cor-verde-água-com-estampa-do-Mickey-que-ganhei-de-brinde-no-dentista — mas que agora tinha um cadeado e ficava escondido no fundo do meu armário.

Jogando o bom e velho Jogo da Vida (aquele, dos carrinhos, que você coloca uma penca de pininhos/filhos, e vai andando até falir ou se aposentar, sabe?), aprendi o que eram “notas promissórias”.

Quando alguém precisava de trocado, ou qualquer-coisa-para-ter-na-carteira, eu era o banco. E, como todo bom banco, só emprestava dinheiro quando assinavam uma ‘nota promissória’ falando que tinham x-dias para me pagar e que, depois disso, teria juros.

epílogo

Mea culpa: depois de “velha” continuei emprestando dinheiro para quem me pedia — e nem pedia para assinarem nada (ó!) — mas tinha a famosa ‘listinha’ na carteira com os nomes e $ devidos para cobrar de volta, claro. ;)