uma história do meu cabelo (por: mim)

ele (meu cabelo) e eu

Cabelo: Aquilo que nasce na sua cabeça, que cai, que fica oleoso, que dá lugar à careca, ou peruca. Desde que me conheço por gente, meu cabelo sempre foi parte da minha vida social. Sim, eu sei, (quase) todo mundo tem cabelo, etc etc, mas deixa eu explicar.

Eu nasci numa manhã de Outubro, no fim do fim dos anos 1980, com pouco cabelo na cabeça — uma ironia do destino, óbvio, visto o que viria depois. Até os três anos de idade eu tinha um não-cabelo e minha primeira babá-enfermeira-má (é o que dizem — eu não lembro dela) colava laços com fita-crepe na minha quase-careca para não me confundirem com um menino. Eu bebê parecia mais um alien, com a minha testa dupla, do que um ser humano, mas enfim.

Depois, os cachos começaram a brotar que nem erva-daninha e não pararam mais. Meu pai, fofo, me apelidou de Lubiro (Lu + Biro Biro). E eu só fui entender o que/quem era o Biro-Biro, e a maldade-não-intencional (espero!), décadas depois graças ao advento da internet. (Se você não sabe quem é o Biro-Biro, dá um Google. Sério). “Anjo mau” era o meu apelido no ônibus da escola, porque, sim, eu era loirinha de cabelos cacheados e olhos azuis, mas também um gênio (nada modesto) do crime. Desde pequena fui a elocubradora dos planos infalíveis, e designava capangas (que, como nos desenhos animados, acabavam levando a pior) para a execução. A minha primeira melhor amiga (verticalmente favorecida) foi uma delas — com a sua bicicleta de três rodinhas (as duas convencionais, e uma extra para equilíbrio) e mexericas meticulosamente cortadas e descascadas no tupperware (que eu, invariavelmente, roubava no recreio).

Passado o jardim de infância e chegado o primário/ginásio, eis que os cachinhos começaram a virar dor de cabeça. Creme de pentear, rabicós que pareciam pompons, frizz (que, na época, nem sabia que era frizz, mas já estava lá), elásticos, frufrus, grampos, fivelas tipo tic-tac… Era um sem-fim de tentar achar soluções para domar a fera — clara e infelizmente, sem sucesso.

O mais enfurecedor eram os comentários — que, se fossem maldosos, eu teria tirado de letra (sarcasmo e língua afiada e resposta rápida nunca foram o problema.) O que me deixava mais maluca é que eles eram… Bons. As pessoas não entendiam o tamanho do pepino que eu tinha na cabeça e falavam “que cabelo lindo! Queria ter o cabelo que nem o seu”, ou “o meu é tão liso, tão sem graça”. Ódio. Ira. [adjetivos do mal]. “Sim, lindo porque não é na sua cabeça” eu pensava — e, na maioria das vezes, azeda, respondia. Toda vez que fazia escova para uma festinha rezava antes de dormir para acontecer uma mágica e, mesmo depois de lavar o cabelo, ele continuar liso. Pois. Nunca aconteceu.

Quinze anos sendo infeliz com os pelos da cabeça, um intercâmbio na Austrália trouxe uma solução: dreadlocks. Meu raciocínio lógico era muito simples: “Já tenho cabelo ruim mesmo. Com dreads eles não podem piorar”. Aham. Doce ilusão.

Enquanto a Natasha (negra, de olhos verdes, dreadlocks compridos, de Madagascar, linda de viver) penteava o meu cabelo ao contrário, com um pente fino, transformando minhas madeixas loiras em um afro albino, e contava sobre como ela tinha decidido largar o emprego no McDonald’s depois que um colega fez um comentário racista e ela fritou a cara dele com o óleo fervendo dos Nuggets, eu só pensava em quanto minha vida ia ficar mais fácil. Nada de ficar tentando prender o cabelo, alisando, esticando, passando creme, etc etc. Eu iria dormir e acordar stáile todos os dias! Entre um devaneio e outro, perguntei (inocente): “E como eu faço quando quiser tirar?” Natasha parou. Eu parei. Ela me olhou pelo espelho, eu olhei de volta. Ela olhou para o meu cabelo (mais de ⅔ já costurado com agulhas enormes, tipo de tricô) e falou: “Você vai querer TIRAR?”. Pânico. Sim, eu queria ter dreads e tal, mas uma hora eu ia enjoar e querer tirar, lógico. Não? Como assim, não dá para tirar? Como assim tem que CORTAR TUDO FORA? Resolvi respirar fundo (até porque não tinha mais nada que eu podia fazer àquela altura) e abraçar a causa.

O que eu não sabia (e ninguém tinha me contado, porque não conhecia ninguém da minha idade/turma que tinha dreads) é que, quando você faz/tem dreadlocks, você instantaneamente passa a fazer parte de uma comunidade. Os dreadlockers passaram a fazer um aceno de cabeça quando cruzavam na rua, falar um “hey”, ou só a olhar direto no olho mesmo. De repente eu fazia parte desse grupo, até então, invisível.

Mas aí veio o-outro-lado dos dreads. Na aula de matemática, australianos metidos que nunca tinham me dado nem um ‘oi’, vieram puxar papo (fofos): “Você vende maconha?”. OI?!? Até ONTEM você não olhava na minha cara e, subitamente, virei traficante?! “Não”. E pronto final. E aí começou o inferno-sem-fim de perguntas idiotas/comentários trouxas, ao ponto de eu cogitar fazer uma camiseta escrita “Meu nome não é dreads, eu não vendo maconha, não curto Ventania, e Bob Marley não é o meu deus”.

Os dreads duraram dois anos e meio. Minha avó (fofa) toda vez que me encontrava perguntava “o cabelo já tá sarando, filhinha?”. “Tá sarando, sim, vó. Já já passa!”. Hoje eu admito, mas na época negava veemente se perguntassem, que durei tanto tempo com eles porque tinha mais medo de ver como o meu cabelo ia ficar depois que ~tentasse~ tirar. Tinha sonhos recorrentes com o meu cabelo. Que eu tirava os dreads e meus cabelos estavam lindos, lisos, e loiros, milagrosamente. Que eu tirava os dreads e ficava careca, com feridas na cabeça, e ninguém olhava para mim. Que eu usava perucas multicoloridas e me divertia à beça.

Eis que um belo dia, a santa da minha Madrasta — doida da limpeza e inconformada que eu tinha um cabelo que não era completamente lavável (sim, eu juro que lavava ele com shampoo todo-santo-dia. juro!) — sugeriu que eu fosse falar com a cabeleireira dela, que podia me ajudar a tirar os dreads. Bom, se Natacha já me avisou que os dreads não eram removíveis enquanto estava fazendo, que dirá 2 anos e meio sem condicionador depois. Enfim.

Eu não entrava num salão há anos. Sentei na cadeira, e a cabeleireira analisou, levantou um ou outro (tentando disfarçar a cara de nojinho), e falou, “Dá para arrumar”. Não deu nem para responder. Ela pegou uma tesoura e, como se fosse a coisa mais normal do mundo, começou a CORTAR MEU CABELO FORA. Dei um grito de “O QUE VOCÊ TÁ FAZENDO SUA MALUCA?” e ela parou, e me explicou que ia ter que cortar fora mesmo, que não tinha jeito, mas que depois ia fazer uma mega hidratação, e alisar, e colocar megahair (ahn?) e que ia ficar ótimo. De novo, resolvi respirar fundo (até porque não tinha mais nada que eu podia fazer àquela altura) e abraçar a causa. Já estava com outras duas assistentes cavocando a minha cabeça quando resolvi dar uma espiada no espelho e vi que o pouco que restou do meu cabelo não chegava nem ao comprimento da orelha (voltei aos meus três anos de idade), e estava uma palha só. Respira fundo, fecha o olho, entrega e confia e acredita. É o mantra, não?

Sete horas depois passei a acreditar em milagres. Os fios que tinham restado grudados na minha cabeça foram alisados (a tal da progressiva — que até então não sabia o que realmente significava), e cabelos lindos, sedosos, brilhantes, loiros, com mechas, e levemente ondulados foram colados na minha cabeça. Sim, era o “cabelo do estranho” (como eu carinhosamente chamava meu aplique), mas era o cabelo mais bonito que eu já tinha visto. Devia ter tirado foto do antes e depois.

Foi um ano de caos capilar. No começo, meu aplique era colado em tufos ao meu cabelo original e, eventualmente, a cola acabava e ele caía da minha cabeça. Era normal estar jantando e, de repente, cair um dos chumaços (que eu guardava na bolsa para depois levar no cabeleireiro para re-colar, porque cada tufo custou uma fortuna). Essa técnica já estava começando a assustar as pessoas, então optamos (a cabeleireira falou e eu disse ‘amém’) por outra: costurar uma espécie de ‘cortina’ de cabelo ao meu couro cabeludo (que nem cabelo de boneca, sabe?). Perfeito! Sim, cada sessão para arrumar doía horrores e saía de lá com a cabeça latejando, mas pelo menos não tava soltando pêlo que nem cachorro.

Crescido o cabelo original, abandonei a peruca e comecei a fazer escova progressiva no meu cabelo inteiro. (A linha do tempo capilar é: até os 15 anos (2005), pixaim. Dos 16 aos 18 ½ (2008), dreadlocks. 2009, cabelo do estranho. 2010, progressiva mode on). E por “progressiva” entenda-se formol na cabeça. Três horas por sessão, com direito à cabeleireira de máscara, e meus olhos/nariz queimando com o cheiro. O processo é: lava, seca com secador, passa formol na cabeça inteira, passa chapinha em tudo (em tufos pequenos, e desde a raiz). Antigamente, você tinha que ficar com esse cabelo-liso-lambido-cheirando-à-feto-no-pote-de-vidro-no-laboratório-de-ciências por três dias, mas com a modernidade você até podia lavar no próprio cabeleireiro, e sair de lá com um cheiro um pouco mais tolerável (mas inegável).

E assim passaram-se sete anos. Oito anos de formol na cabeça, 1x a cada 3 meses, 3h (em média) por sessão. Ou seja, perdi 96 horas (quatro dias inteiros) da minha vida sentada, fritando o couro cabeludo, para ter o mínimo de sossego com o meu cabelo.

Hoje, com 27 anos nas costas (e na cabeça), resolvi voltar às raízes (han han?) e assumir de volta o meu cabelo. Os cachos, o sarará, o pixaim. Estou feliz/mudada/realizada/empoderada? Não. Só estou cansada de tentar lutar contra à natureza do que cresce na minha cabeça. Me rendi. Chega de química, chega de contas milionárias no cabeleireiro, chega de tentar mudar o que, gostando ou não, eu sou. Acordo com uma jubamaluca, tenho um elástico sempre no pulso, e sinto um pânico real quando percebo que não tenho nenhum grampo ao meu alcance. Mas estou dando uma chance. Ou, respirando fundo (até porque não tem mais nada que eu possa fazer à essa altura) e abraçando a causa.

(to be continued)