A feminilidade é uma virtude (que não tenho)

Tomo a resolução na quinta-feira à tarde. Amanhã farei as unhas do pé. Parece pouco frente à rotina caprichosa da imensa maioria das mulheres que, dedicadas a própria feminilidade, encaram duas horas semanais de salões de beleza, aos sábados. E de lá voltam com a manicure perfeita e a alma lavada. Prontas para calçar a sandália que vier sem constrangimentos.

Eu nunca tive esse talento. O pouco que sei sobre cores de esmaltes se deve à minha profissão. Ficar mais que cinco minutos com os pés para cima no colo de uma desconhecida parece uma tortura. As sandálias sempre ficam para segundo plano atrás de meus all stars e sapatilhas. Sim, é de se torcer o nariz. Não devo desculpar o relaxo com provas da minha higiene reforçando que corto as unhas semanalmente, dou uma lixada e às vezes até passo base. Grávida de nove meses, mal consigo lavar os tornozelos no banho. É hora de assumir que preciso de ajuda com minhas unhas do pé.

Penso que minha mãe ficará orgulhosa quando entrar na maternidade: “que pés bem-feitos”. É o momento de deixar o asseio nas mãos de uma terceira e pagar por isso. Mesmo que custe duas horas de uma sexta-feira pré-carnaval em que meu grande objetivo é comprar um top marrom para minha fantasia de Beyoncé grávida.

Planejo acordar mais cedo, fazer as coisas de casa e sair para a manicure às dez para às dez com a roupa já pendurada, o almoço encaminhado e sem nenhuma outra pendência que possa me custar lascas de esmalte. O plano dá um pouco errado e graças à dor na lombar e a animação do bebê com o carnaval porvir, acordo às 5h40. Levanto, tomo banho, arrumo as gavetas da cômoda da criança com as minúsculas roupinhas. Coloco na mala que vai para maternidade os paninhos de boca que foram pedidos e agora estão limpos e embalados com todo o cuidado e carinho por minha mãe. Penso pela milésima vez que não serei capaz de ser uma mãe como ela. Tento me consolar lembrando que ela tem 35 anos de carreira nessa área e eu tenho uns 8 meses desde que aquele teste no banheiro me mostrou dois risquinhos. Uma hora e meia depois, são 7h da manhã e eu já estou exausta. Deito de novo. Quero dormir um pouco antes de me entregar ao deleite de deixar os cuidados estéticos dos meus pés e mãos com a especialista. Acordo atrasada, lógico, e saio apressada munida de um livro de crônicas (textos de duas páginas, tempo máximo em que consigo me concentrar atualmente) e meu celular (antídoto anti tédio à prova de falhas na concentração).

Assim que empurro a barriga para dentro do salão, sou muito bem recebida. As pessoas demonstram espanto com minha circunferência e me oferecem assento. É uma poltrona confortável, querem que eu tome café, chá e coma bolachinhas de maracujá. Nesse momento, já fui invadida por uma onda irreversível de tédio e arrependimento. E o procedimento ainda não começou.

Simpática, solícita e competente, a manicure pega primeiro minhas mãos. Eu só sei repetir cores dos anos 90, quando colecionava esmaltes, e ela me explica com paciência que foram descontinuadas (por que deixariam de fabricar o ameixa?). Ela é rápida, eu penso positivo, e menos de 40 minutos depois está limpando minhas unhas da mão com um palito. Penso que vai durar pouco, me culpo por fazer isso tão raramente, me orgulho das unhas pintadas sobre a toalhinha suja de cutícula e esmalte. É então que chega a outra manicure que, fico sabendo, fará meus pés. Era seu primeiro dia. Começando no emprego novo e querendo mostrar serviço. Tento ajudá-la como posso, que é levantando o pé no colo dela. O bebê começa a se ressentir da poltrona e dar pinotes nada carnavalescos em meu útero. Penso que, se for a hora de nascer, estou em uma posição apropriada. Com as mãos livres, abro o livro. 40 minutos depois estou prostrada de tédio e ela ainda está passando base no primeiro pé. Penso que as mulheres que têm a disciplina de fazer isso toda semana são heroínas da feminilidade. Elas merecem os melhores homens, elas deveriam estar livres para sempre de limpar o banheiro. Mulheres que aguentam a manicure toda semana não deveriam nunca se aproximar de uma tábua de passar.

Começa a pintura das minhas unhas. Eu me distraio pensando em tudo isso e só percebo que ela está usando um esmalte que não escolhi na quarta unha. Penso em não avisar, mas é um rosa cintilante que lembra as vizinhas da minha avó. Aviso. Ela calmamente limpa dedo por dedo com a acetona. E passa base de novo. Eu me lembro de uma amiga minha que comparava trepadas ruins com fazer a unha do pé. “Quando a primeira foi boa e você pensa, por que não? Vamos dar a segunda!”, ela dizia. “Mas aí você se vê ali há 30 minutos esperando o cara gozar e pensa: daria tempo de fazer a unha do pé”. Eu fico impressionada com a metáfora perfeita. Fazer a unha do pé é uma trepada ruim. Você ali esperando que a outra se satisfaça quando tudo que você quer é se vestir e ir para casa com três dedos pintados e calçar um all star logo.

Ela erra na hora da limpeza, porque o palito desliza. Dedicada, tira todo o esmalte daquela unha com a acetona. Base. Esmalte. Esmalte de novo. Palito de novo. Tenho devaneios com o parto. Respondo perguntas das outras clientes sobre tempo de gestação e a vontade de ter um parto normal. Escuto o elogio “você é louca de querer normal” algumas vezes. Sorrio de volta. A manicure erra de novo. Acetona. Base. Esmalte. Esmalte. Sempre sorrindo com gentileza.

Quando calço as havaianas, na saída, borro irremediavelmente uma das unhas. Digo que vou embora assim mesmo. A manicure fica desapontada. Diz que são 48 reais. Penso que o top marrom da Beyoncé para o carnaval seria mais barato. E mais prazeroso. Empurro minha barriga para fora dali e me arrasto pela rua. A porta que vai dar a luz ao menino no parto normal parece mais larga a cada minuto. Tento observar se me sinto mais feminina com as unhas pintadas enquanto subo a quadra da minha casa. Tenho dificuldade de andar normalmente e a sensação de que tem uma cabeça entre o vão das minhas pernas se acentua. Porque tem mesmo.

Antes mesmo de acionar o elevador eu já borrei mais duas unhas esbarrando o pé na grama de um canteiro do prédio. E ainda preciso pendurar a roupa e fazer almoço. Antes de sair para trabalhar até às 22h.

Esse negócio de ser feminina dá trabalho demais, sério.

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