Coisas mais estranhas e saudade

“A época de vocês foi bem mais legal que a nossa.”

Quem me disse foi um garoto de 14 anos, infância típica dos anos 2000. Ele lembra de quando a câmera digital tinha utilidade e já foi à locadora várias vezes, mas nunca saiu para brincar na rua dando apenas um grito dentro de casa para avisar: “mãe, tô lá fora”.

Maravilhado, ele assistiu Stranger Things fazendo uma análise comportamental. O telefone que, grudado em uma parede, queima com um raio e deixa uma família incomunicável. A mãe que deixa o filho faltar na escola e diz: qualquer coisa, ligue para seu pai no trabalho. E sai de casa, sem celular, ciente de que se acontecer alguma coisa, saberá na volta. Na boa. A garota que, preocupada com o sumiço da amiga, liga de um orelhão para a casa dos pais da menina. O “vou até lá falar com ele”. Alguém bater na porta. Sair de bicicleta com os amigos. Visitar uma amiga sem avisar. Voltar à noite sozinho na rua.

“A época de vocês era mais legal que a nossa porque tinha mais liberdade. Agora a gente passa três dias combinando só pra ir na casa de um amigo”

Para ele, a nossa época era mais legal porque a gente podia viver quase igual a turma de Goonies, o pessoal de ET. E a parte fantasiosa, a gente criava também, soltos na rua, fazendo cabana em moita, fechando a esquina com rede de vôlei que era uma corda de varal roubado.

Ah, mas a criança de hoje tem o mundo dentro de uma caixinha que emite luz e apita. Tem uma liberdade que a gente nunca pensou de jogar videogame com um amigo da Noruega sem nunca tê-lo visto. Sabe tudo o que os colegas da sala fizeram nas férias antes do primeiro dia de aula. Conversa com a primeira namorada o dia inteiro, sem ocupar a linha fixa da casa — nem passar pela humilhação de ouvir a voz do pai mandando desligar na extensão.

“Vou colocar cadeado nesse telefone” agora é “vou mudar a senha do wi-fi”. “Vou olhar suas conversas no whatsapp” é o novo “vou até a praça da rua debaixo ver o que você está fazendo”. “Quem é esse menino que saiu com você da escola” agora é: “quem é esse menino que te mandou snaps a noite inteira?” Should I stay or should I go virou um Malandramente que a gente não aceita muito bem.

A liberdade dentro de uma caixinha retangular que emite luz e som. Não pensávamos que a porta seria tão pequena nem nas nossas maiores fantasias infantis nos anos 80. É por isso que a gente assistiu Stranger Things com aquele fascínio. É mais fácil entender um monstro que vive em uma realidade paralela e sinistra do que entender que é mais legal passar a tarde dando dois cliques nas fotos de amigos e crushes no Instagram do que descer na quadra (de um condomínio fechado) e ter contato real com eles.

O menino de 14 anos ao meu lado assistia a saga dos amigos de Mike abismado com a hipótese da comunicação depender do contato real com as pessoas. Nós assistimos abismados por ter deixado de ser. Com a nostalgia clichê do “na minha época não era assim” finalmente materializada em forma de série de aventura recheada de referências daquilo que fomos. Na nossa época era diferente. E a gente também está sentindo falta dessa liberdade.

Na verdade, tudo se trata de saudade.