As sessões estão vazias
Um dos mais antigos cinemas de rua de Porto Alegre ainda não entrou na cena cultural da cidade após um ano de reinauguração

Ao entrar em um dos prédios mais tradicionais de Porto Alegre, a sensação é de calmaria. Apenas poucos funcionários circulam pelo Capitólio, e o hall de entrada – que impressiona pela riqueza arquitetônica — continua vazio após
alguns minutos. Na sala de cinema, a surpresa é maior: seja pela beleza ou pela solidão. A sala com 164 lugares costuma ter, em média, 30 frequentadores por sessão.
O cinema de rua mais antigo de Porto Alegre ainda em funcionamento, após 10 anos de obras de restauração, reinaugurou há aproximadamente um ano e foi reaberto ao público há seis meses. Sendo considerado um espaço relativamente novo e que ainda não entrou na circulação cotidiana das pessoas, a Cinemateca Capitólio traz uma cinematografia diferente das outras
salas de cinema distribuídas pela capital gaúcha. Segundo Marcus Mello, Coordenador de Cinema, Vídeo e Foto da Secretaria de Cultura de Porto Alegre, e, atualmente, diretor da Cinemateca Capitólio, diz que é justamente por apresentar uma programação alternativa é que as sessões de cinema têm menos espectadores: “É uma média boa para uma sala com esse perfil. De programação alternativa que exibe clássicos, filmes brasileiros, mostras
dedicadas a diretores específicos ou cinematografias específicas.

Por se tratar de um cinema de calçada e que, portanto, não tem estacionamento, o objetivo é investir numa mudança de hábito dos porto-alegrenses. “Nós acreditamos que o Capitólio é um dos novos espaços que o centro tem ganhado e que certamente vai contribuir pra mudar um pouco esse perfil, para que as pessoas voltem a se apropriar do centro da cidade”, disse Marcus.
Memória do cinema gaúcho
A falta de frequentadores não é um problema exclusivo da Cinemateca Capitólio. Outros centros culturais, espalhados por todo o Brasil,
sofrem com o problema do subaproveitamento. Segundo Luís Augusto Fisher, escritor gaúcho, ex-membro da Secretaria de Cultura de Porto Alegre e professor da UFRGS, essa falta de público nos espaços se deve, essencialmente, por falta de prática por parte dos gaúchos, mas também dos brasileiros em geral: “Se tu não educas as pessoas a irem ao museu,
elas não vão ao museu”.
Mesmo não tendo entrado na corrente sanguínea dos porto-alegrenses, o Capitólio tem um papel importante para a memória do cinema gaúcho. O espaço foi adequado para receber a Cinemateca do estado do Rio Grande do Sul, que visa a abrigar toda a produção cinematográfica do estado: “A cinemateca é um projeto fundamental para a preservação da história do cinema do Rio Grande do Sul. É lá que vão ser guardados todos os filmes que estamos fazendo e fizemos em todo esse tempo de história, além de recuperar
filmes que estão se perdendo. Esse trabalho é fundamental. Mas para que isso exista, é preciso investimento” como ressalta Ana Luiza Azevedo, primeira secretária da Associação Profissional dos Técnicos Cinematográficos do Estado do Rio Grande do Sul e membro da Casa de Cinema de Porto Alegre.

Por que visitar o Capitólio?
HISTÓRIA: Hoje, um prédio tombado patrimônio histórico e cultural de PortoAlegre, o Capitólio foi inaugurado em 1928, sendo fechado na década de 60 e reaberto nos anos 80 exibindo apenas filmes pornôs.
ARQUITETURA: O prédio chama a atenção por sua riqueza arquitetônica. Durante as obras de restauração, foram preservadas as características da arquitetura neoclássica.
INGRESSO: O ingresso para todas as sessões de cinema custa R$10, mas se você for estudante paga apenas R$ 5.
CAFÉ: A cafeteria chamada Ramalhete vai abrir no final de novembro e oferecerá um serviço de alimentação interno.
BIBLIOTECA: A biblioteca guarda um acervo de materiais como curtas e longas metragens gaúchos, além de cartazes e fotografias desde a década de 80. Os materiais podem ser acessados desde que haja um agendamento prévio.
*Matéria veiculada no jornal Blog de Papel, produzido na disciplina de Produção e Edição para Mídias Impressas, durante o 4º semestre do curso de jornalismo da ESPM-Sul.