As sessões estão vazias

Um dos mais antigos cinemas de rua de Porto Alegre ainda não entrou na cena cultural da cidade após um ano de reinauguração

Fotos: Luíza Buzzacaro

Ao entrar em um dos prédios mais tradicionais de Porto Alegre, a sensação é de calmaria. Apenas poucos funcionários circulam pelo Capitólio, e o hall de entrada – que impressiona pela riqueza arquitetônica — continua vazio após
alguns minutos. Na sala de cinema, a surpresa é maior: seja pela beleza ou pela solidão. A sala com 164 lugares costuma ter, em média, 30 frequentadores por sessão.

O cinema de rua mais antigo de Porto Alegre ainda em funcionamento, após 10 anos de obras de restauração, reinaugurou há aproximadamente um ano e foi reaberto ao público há seis meses. Sendo considerado um espaço relativamente novo e que ainda não entrou na circulação cotidiana das pessoas, a Cinemateca Capitólio traz uma cinematografia diferente das outras
salas de cinema distribuídas pela capital gaúcha. Segundo Marcus Mello, Coordenador de Cinema, Vídeo e Foto da Secretaria de Cultura de Porto Alegre, e, atualmente, diretor da Cinemateca Capitólio, diz que é justamente por apresentar uma programação alternativa é que as sessões de cinema têm menos espectadores: “É uma média boa para uma sala com esse perfil. De programação alternativa que exibe clássicos, filmes brasileiros, mostras
dedicadas a diretores específicos ou cinematografias específicas.

Por se tratar de um cinema de calçada e que, portanto, não tem estacionamento, o objetivo é investir numa mudança de hábito dos porto-alegrenses. “Nós acreditamos que o Capitólio é um dos novos espaços que o centro tem ganhado e que certamente vai contribuir pra mudar um pouco esse perfil, para que as pessoas voltem a se apropriar do centro da cidade”, disse Marcus.

Memória do cinema gaúcho

A falta de frequentadores não é um problema exclusivo da Cinemateca Capitólio. Outros centros culturais, espalhados por todo o Brasil,
sofrem com o problema do subaproveitamento. Segundo Luís Augusto Fisher, escritor gaúcho, ex-membro da Secretaria de Cultura de Porto Alegre e professor da UFRGS, essa falta de público nos espaços se deve, essencialmente, por falta de prática por parte dos gaúchos, mas também dos brasileiros em geral: “Se tu não educas as pessoas a irem ao museu,
elas não vão ao museu”.

Mesmo não tendo entrado na corrente sanguínea dos porto-alegrenses, o Capitólio tem um papel importante para a memória do cinema gaúcho. O espaço foi adequado para receber a Cinemateca do estado do Rio Grande do Sul, que visa a abrigar toda a produção cinematográfica do estado: “A cinemateca é um projeto fundamental para a preservação da história do cinema do Rio Grande do Sul. É lá que vão ser guardados todos os filmes que estamos fazendo e fizemos em todo esse tempo de história, além de recuperar
filmes que estão se perdendo. Esse trabalho é fundamental. Mas para que isso exista, é preciso investimento” como ressalta Ana Luiza Azevedo, primeira secretária da Associação Profissional dos Técnicos Cinematográficos do Estado do Rio Grande do Sul e membro da Casa de Cinema de Porto Alegre.


Por que visitar o Capitólio?

HISTÓRIA: Hoje, um prédio tombado patrimônio histórico e cultural de PortoAlegre, o Capitólio foi inaugurado em 1928, sendo fechado na década de 60 e reaberto nos anos 80 exibindo apenas filmes pornôs.

ARQUITETURA: O prédio chama a atenção por sua riqueza arquitetônica. Durante as obras de restauração, foram preservadas as características da arquitetura neoclássica.

INGRESSO: O ingresso para todas as sessões de cinema custa R$10, mas se você for estudante paga apenas R$ 5.

CAFÉ: A cafeteria chamada Ramalhete vai abrir no final de novembro e oferecerá um serviço de alimentação interno.

BIBLIOTECA: A biblioteca guarda um acervo de materiais como curtas e longas metragens gaúchos, além de cartazes e fotografias desde a década de 80. Os materiais podem ser acessados desde que haja um agendamento prévio.

*Matéria veiculada no jornal Blog de Papel, produzido na disciplina de Produção e Edição para Mídias Impressas, durante o 4º semestre do curso de jornalismo da ESPM-Sul.