As colinas invisíveis da Escócia
O veludo de sua roupa mal cabia em seu assento, bem como o contorno esverdeado de seu reino, que logo se tornava azul no horizonte, não cabia no enquadramento de sua janela. Basta uma cadeira, tecidos minuciosamente recortados e um punhado de terra sob o alcance dos olhos de uma mulher para ela ser rainha. E um pouco de imaginação, talvez. Era rainha, ali, e era como se toda Glenfinnan fizesse questão de lembrá-la disso.
Eu tenho a explosão que vem depois. Mas vamos pensar no silêncio.
Foi assim: ele decidiu que eu já era morta, dessas que se aprecia com os caprichos da história e com os pequenos acontecimentos que a compõem, mas não, sou viva, estou viva, sim, e não há álbum de fotografias no mundo que ouse dizer que o laranja do meu cabelo e o do dela sejam o mesmo, chega disso, princeso, e ai de você se insinuar quebrar meus braços, a vida está aí para mostrar o quão errado você pode estar, e no nosso caso, você estava, pode perguntar para qualquer um que já tenha corrido tanto a ponto de quase pular do ponto mais alto daquela colina ali,
Não aguentou. Chorou muito, a chuva lhe escorreu as mangas e as lágrimas foram pingando pelas pontas dos dedos até o chão, que já estavam cansados de suportar o peso.
O castelo tem que cair. A cabeça da rainha, cair.
Ele não sabe. Não importa quantos pactos eu faça com dEUS, ele não sabe que eu tô chorando. De novo, eu quero pensar no silêncio.
É sempre fácil terminar o que não começa em setembro, quero ver fazer isso pleno maio. As flores só nascem em maio, fica complicado.
Começa verde, e vai se tornando azul no horizonte…
Levantou dali. Glenfinnan pode ser detestável se fitada por uma janela, ainda mais quando se está tão destrutivo. Desceu um lance de escadas gigante, em espiral, só para então dar de cara com o salão principal e demandar que a porta abrisse. Ninguém abriu, então abriu ela mesma pela maçaneta, que antes parecia não estar ali.
No fim, tudo não se passava de uma canção muito triste. Correria, se livraria daquele verde, atravessaria todas as colinas até ela mesma poder se olhar no Lago Schiel e esquecer de que um dia foi rainha, e permitir-se, enfim, azul.
Nos meus sonhos, amor é o líquido mais quentinho e ele nos misturava.
Todos os meus toques são talvezes.
Quando se deu conta, a porta já estava aberta e deu de cara com a Edimburgo cinza e maçante de sempre.
