A rivalidade entre as universidades brasileiras

Há momentos em que a rivalidade ultrapassa os limites das quadras, gerando brigas e cânticos desrespeitosos.

Torcida Raça PUC no último JUCA, em 2016

Com o crescimento dos jogos universitários e seu engajamento nas redes sociais, passou a crescer uma rivalidade entre as principais universidades do Brasil. Entretanto, em alguns momentos, devido à banalização destas provocações, muitos acabam levando este espírito para o âmbito estudantil, menosprezando o ensino acadêmico de seus rivais.

As atléticas das universidades, responsáveis por organizar competições esportivas e festas, juntamente com as baterias, buscam sempre incitar esta rivalidade, usando, em alguns momentos, como marketing de suas organizações. Em contato com a reportagem, Gabriel Franco, colaborador da atlética da ESPM, buscou tranquilizar toda essa questão, entretanto, reconhecendo que o “ódio” gerado pode ser maléfico quando atinge a parte do ensino. “O maior rival da ESPM é a Fundação Getúlio Vargas. Nós, dentro da faculdade, tentamos tratar toda essa rivalidade como algo saudável. Existe muito ódio entre elas, criando uma rixa muito complicada e desnecessária, pelo fato das pessoas terem um mau exemplo relacionado à rivalidade dentro do esporte. Eu nunca vejo violência ou ódio como algo que venha a trazer benefícios. Para mim, no geral, isso é um malefício, principalmente no esporte, que é algo com que as pessoas procuram se divertir e fazer o que gostam. Eu acho que essa questão de você menosprezar o ensino de uma faculdade por uma questão de esporte não é algo bom para as instituições em si. ”

Devido a alguns pensamentos retrógrados, que são, há muito tempo, recorrentes na sociedade brasileira, muitas músicas criadas pelas baterias eram extremamente machistas, por exemplo em “Baronesa”, da bateria da FEA-PUC, e em algumas do Comando Vermelho, bateria do curso de direito do Mackenzie. Lucas Soares, do atletismo mackenzista, é bem enfático sobre essa questão. “No Direito, a nossa bateria é o Comando Vermelho. Recentemente, as músicas eram meio pesadas, tanto que, como muitas meninas entraram nele, estão começando a mudar, porque antes as letras eram muito machistas, o que eu vejo como um sinal de avanço para a bateria.” Além disso, a bateria da FEA-PUC chegou a cortar a principal música de sua listagem, por ser misógina e ofensiva. “A bateria da FEA tirou a principal música, que era um grito contra o Mackenzie, chamado ‘Baronesa’. Se você escutar, verá o nível baixo dessa música. Mas é a música de que a torcida mais gosta. ”, afirma Gabriel Andrade, presidente da Atlética Leão XIII, da FEA-PUC.

Em competições como o Economíadas, Jogos Universitários de Comunicação e Artes (JUCA) e os Jurídicos — que reúnem cerca de 6.000 estudantes em média -, durante os jogos e festas, há uma grande integração entre as faculdades e a grande maioria dos estudantes só leva essa rivalidade para os jogos e arquibancadas. No entanto, o grande problema é quando isso extrapola os limites e volta para as redes sociais e as redondezas das universidades. Dentro destas competições, também existem casos de brigas entre torcidas e jogadores, que é algo que herdamos, principalmente, da cultura de torcidas de futebol que temos no Brasil. “Em 2016, no futebol de campo, torcedores ficaram frente a frente separados por uma grade. O jogo foi bem tenso, graças a uma rivalidade do futebol de salão dos últimos anos (2014 e 15). A torcida da PUC-Campinas cuspiu nos nossos atletas quando entravam no vestiário, próximo a arquibancada. ”, conta Pedro Suaide, membro da Atlética de Comunicação da PUC-SP, que presenciou o incidente. Ao ser questionado sobre sua opinião sobre quando a rivalidade é levada ao ensino das universidades, Pedro citou dois exemplos em que isso ocorre. “Não acho que seja o ponto. No esporte não estamos disputando quem é o mais inteligente ou capacitado, mas o melhor esportivamente. Acontece muito em dois casos isso: a ECA-USP, menosprezando os outros por pagarem mensalidade, e algumas atléticas menosprezando a Anhembi Morumbi, campeã de 2015, dizendo que “não tem vestibular, é só mostrar o RG. ”

As principais rivalidades também variam entre cursos da mesma faculdade. Por exemplo, nos cursos de comunicação da PUC-SP, a rixa maior é com a PUC-CAMP, pelo fato de ambas serem ligadas pelo mesmo nome de universidade. “Ódio em si não existe, mas a rivalidade veio pela semelhança; o fato de ambas serem PUC. No esporte, nos últimos anos ela se acirrou, com as faculdades se enfrentando em grandes jogos no JUCA.”, explica Suaide sobre a rivalidade com a PUC de Campinas. Ao mesmo tempo, nos cursos de economia e direito da Pontifícia, o maior rival é a Universidade Presbiteriana Mackenzie — cujo maior rival é a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco (SanFran), devido ao antagonismo criado após a Batalha da Maria Antônia, na qual um estudante da USP morreu, em 1968.

Por fim, as rivalidades criadas devem ser sempre incentivadas pelas diferentes atléticas das faculdades, que criam uma certa união entre os alunos da mesma universidade. Contudo, assim como nos esportes profissionais, deve seguir um certo limite, sem se utilizar de preconceitos — inaceitável em todas as hipóteses -, termos ofensivos que extrapolem o bom senso e violência. Enquanto mantivermos o intuito saudável das rixas nos esportes, essas rivalidades continuarão se aflorando e as competições universitárias cada vez melhores.