Fragmentos de mais um blog falido #10

Lá se vai meu ego mais uma vez

Eu posso reclamar mais uma vez da minha frequência e sobre como não segui meus planos iniciais, mas vamos instaurar um novo clichê onde eu rejeito o clichê só por fazer uma metalinguagem péssima sobre o mesmo (como dá pra ver, sou bom pra caralho com introduções).

Talvez a coisa que eu vá falar nesse texto eu nem nunca tenha falado com ninguém, ou pelo menos, não da forma que pretendo falar aqui. Não tão aberto, não tão explícito, e isso, por mais que seja a proposta inicial desse blog, me deixa incomodado demais, com tamanha exposição e vulnerabilidade que acabo criando para mim mesmo.

Leonard Cohen e Joni Mitchell

Acho que, se você me conhece de alguma forma, e não está simplesmente lendo esse blog aleatório de uma pessoa aleatória, deve saber que eu tenho algum interesse pelo folk revival da década de 60, certo? Bom, desses artistas, eu sempre acabo ouvindo aqueles mais do mesmo, que no final das contas, são realmente muito bons, e há motivos para serem citados sempre, como o Leonard Cohen e a Joni Mitchell. Entretanto, hoje não iremos falar deles dois, mas sim do nem um pouco “talvez maior” nome de tal geração da música, vamos falar de Bob Dylan.

Bob Dylan

Bob Dylan. Que nome não? Até pesa a boca de quem fala, e deixa os beiços mais caídos do que os músculos do Arnold Schwarzenegger hoje em dia, tendo a pessoa que calcular cautelosamente cada vírgula que irá acrescentar em sua frase, pois qualquer colocação indevida é quase como uma heresia para o zeitgeist da música dos últimos 60 anos (embora eu não consiga entender o por que de Oh Mercy ser tão elogiado).

Dylan, que começa sua carreira com apenas dezoito anos, e com vinte e um grava seu primeiro álbum, entrou pra história pela sua maneira de contar histórias, e as diversas formas que rumou sua carreira até hoje, explorando inúmeras áreas da música, gerando repercussão maior a cada novo lançamento. Acho que não precisamos nem citar o quão absurdo foi quando ele trocou o tradicional violão (ou guitarra acústica, para os que assim preferirem) e pegou naquela icônica Stratocaster.

Bob Dylan, por mais genial que seja, escrevendo poemas desde bem novo e tudo mais, como qualquer artista, faz o mais óbvio possível, que é: se rodear de vários outros artistas, tendo trabalhado com inúmeros nomes que hoje deixaram de ser simples combinação aleatória de nomes e sobrenomes para se tornarem referências, como Johnny Cash, The Band, Joan Baez, Jacques Levy, Tom Petty e a lista continua, bem como o Faustão ou qualquer outro apresentador dominical diria.

Entretanto, de tantos nomes, acho que falta uma figura deveras importante, mas que por inúmeras vezes acaba sendo meio esquecida, ou olhada somente por alto e deixada de lado para ir focar em pessoas a quem ele ajudou. Estamos falando de ninguém menos que Dave Van Ronk.

Dave van Ronk

Talvez, a melhor forma que Van Ronk possa ser representado, infelizmente (ou felizmente, depende do ponto de vista), seja como o “amigão da galera”. Pois era bem o que ele era. Dave Van Ronk ajudava todos os outros artistas ao seu redor, tendo, inclusive, sido utilizado por Dylan o arranjo dele da tradicional canção “House of the Rising Sun” em seu primeiro álbum.

Conheci Van Ronk por causa de Cocaine Blues ou Losers, não lembro ao certo, em uma das inúmeras tardes que passei (e que ainda passo) ouvindo músicas aleatórias pela internet, na esperança de encontrar meu mais novo vício de um ou dois meses. Por sorte, Van Ronk durou mais que isso. Fiquei feliz de fazerem o filme “Inside Llewyn Davis” baseando-se nele, mas fico um pouco incomodado de como, mesmo com esse filme, que teve bastante comentários, afinal, é um filme dos Coen, não conheci até o momento mais ninguém que me dissesse “também gosto do Van Ronk”.

Gostei de seu timbre de voz, e a forma que ele compunha suas músicas. As letras soam bastante confessionais e intimistas, por mais que ele esteja cantando músicas tradicionais, tudo isso, talvez, pelo tom de sua voz e a forma que alcança as notas, acompanhado dos arranjos, que por muitas das vezes são bem reduzidos, dando a impressão que estão só você e Van Ronk na sala, tomando uma cerveja, reclamando do preço das coisas e ocasionalmente pegando aquele violão do canto da sala para tocar alguma música e possivelmente fazer uma piada em cima dela.

Feitas todas essas colocações, posso começar a desenvolver a traçar paralelos para finalmente chegar em algum ponto (que por fim vão acabar sendo menores do que essas colocações feita para embasar meus argumentos, mas isso é só mais uma ironia da vida e do texto).

Bom, novamente falando, a menos que você seja uma pessoa que lê blogs aleatórios de pessoas aleatórias, deve saber que eu toco alguma coisa, que já tive banda, e, gosto de, quando possível, dizer-me músico, por mais que de fato eu só aspire a isso. E, nesse breve período de atividade musical (se é que posso dizer isso) em que estive/estou, conheci, talvez, a pessoa que mudou boa parte dos rumos de minha vida, e me ajudou de diversas maneiras, a concretizar diversas coisas, sempre sendo um excelente amigo, seja simplesmente para bater os papos mais descompromissados possíveis e fazer piadas de trocadilho sofríveis, até para ajudar em diversas reflexões e debates, sempre de uma maneira bem mais leve do que deve soar comigo escrevendo aqui dessa forma.

Até o início do ano passado (ou talvez final do ano retrasado [?] foi um período confuso) tivemos uma banda juntos, e, não preciso ressaltar o quão fundamental peça ele foi pra essa banda, e como eu sempre adorei as composições dele. Sempre trocávamos figurinhas sobre o que estávamos ouvindo, e mantemos esse hábito até hoje, talvez com menos frequência, ou só minha percepção que seja ruim mesmo.

Por motivos de evitar repetição, a partir de agora, trataremos esse meu amigo como Dylan, assim, em itálico, simplesmente por que me sinto incomodado de citar nomes de pessoas, por mais que, se ele ler isso aqui em algum momento (o que eu acho que não acontecerá, e que não sei como eu reagiria caso acontecesse), ele já sabe que estou falando dele.

Dylan é um ano mais novo que eu, e nunca estudamos de fato juntos, entretanto, estudamos no mesmo colégio, e ele rapidamente passou a andar com a minha turma, e após alguns momentos de eu ser um puta babaca e ignorar o moleque por motivos de “Ai Luca, não gosto desse menino, ele simplesmente chegou do nada, quem ele é?” (Isso foi minha namoradinha de época de colégio, caso não tenha ficado claro), eu descobri que ele tocava baixo e isso me bastou para ter interesse por ele, querer saber o que ele escutava, e sem hesitar por nem sequer um minuto, chamá-lo para integrar a tão sonhada banda que eu queria montar. Com o passar dos anos e tendo nos conhecido cada vez melhor, Dylan se provou infinitamente superior a mim e mais sensato que eu. Seja tirando boas notas, seja tomando decisões muito mais coerentes que as minhas, e inclusive, seja fazendo músicas melhores que as minhas.

Tudo que Dylan se propõe a fazer, ele faz com maestria. Meu instrumento sempre foi a guitarra e ele a toca melhor que eu, toca baixo melhor que eu, toca bateria melhor que eu, mixa melhor que eu, compõe melhor que eu. E ainda assim, de alguma forma ele prendeu-se a mim e, graças ao Facebook indicar recordações eu sei o número exato, já são quatro anos de comentários idiotas nas fotos um do outro.

One more cup of coffee for the road.

Entretanto, hoje a situação mudou. Dylan lançou mais álbuns do que eu, seus álbuns são bem mais interessantes que os meus, e, por mais que eu ainda fale “vamos fazer algo juntos”, não sinto mais a mesma chama e conexão de antes. Talvez por hoje estarmos um pouco mais distantes em nossas referências musicais (embora nunca em algum momento estivéssemos sempre na mesma página), ou por ele ter outros projetos, e ter continuado em frente com sua vida, eu simplesmente tenha me tornado algo como um infeliz borrão em sua foto, o seu Van Ronk.

27 de março de 2017

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