Fragmentos de mais um blog falido #20

O Novo-Velho Romance de Stephen King

Deixei-me relaxar e acabei, além de não ter dissecado a mim mesmo, como objeto de um estudo egoísta e fútil, mas também não fiz absolutamente nada. Pelo menos, nada de relevante. Considerei escrever textos, mas no fim, fiquei somente olhando as letras que piscavam em minha tela e rindo da mais nova piada do Ary Toledo (que provavelmente é somente um remix de alguma piada dele mesmo de uns vinte ou trinta anos atrás, mas que mesmo assim, após tanto a refazer, não houve nenhuma graça).

A última semana fora, quase que em sua plenitude, gasta com uma visita à casa de meu pai. Creio que fazia um ano que eu não o visitava, e, por sorte, ainda havia a mesma proteína de soja na prateleira, somente em um lugar novo, em uma casa diferente. Com sorte, descobri que a validade de proteína de soja pode ser maior que um ano, ou pelo menos, não me fez mal mesmo após todo esse tempo. (Pairou a dúvida, e após escrever a última linha, fiz uma esdrúxula pesquisa no google e descobri que a validade é só de seis meses. Caso eu morra em breve, já sabem uma possível causa).

É sempre muito estranho conviver com meu pai novamente, mesmo que por um breve período de tempo. Talvez seja a relação que só se deteriora mais e mais com o tempo, talvez seja o monopólio da minha primeira infância que ele faz, mantendo tudo que um dia representou algo pra mim, sejam os talheres do Pato Donald, sejam as estantes de metal onde tanto me mandou procurar respostas. Mas a casa não é a mesma. Nunca foi. Sempre fora como um cigano, e hoje, que se fixa em um bom apartamento, talvez o melhor lugar que já morou, sinto-me mais e mais distante, não como se eu fosse tão pobre assim, nem pelo simples fato da distância física entre nós, ou quem dirá, de nossas personalidades e intelectos (que, por mais que eu gostaria de negar, se assemelham em muitos pontos), mas sim uma distância tão profunda que não permite uma conexão minimamente significativa, seja ele fazendo piada sobre peidos ou “piadas” sobre as mulheres na TV, e eu, fazendo uma piada sobre uma famosa que é diferente pois tem hábito de beber leite. No final, nem ele nem eu vemos graça de verdade um no outro, e minhas idas à casa dele resumem-se, basicamente, com check-ups no dentista.

Minha semana não foi muito distante do que seria caso eu continuasse em casa. Passei os dias como geralmente passo, somente com breves contatos com minha irmã e meu pai, quando estavam em casa. No feriado, a esposa do meu pai vai na casa dele, e aí, todos os três estão lá, para incomodar minha auto-imposta e irônica solidão. Na verdade, ela não incomoda, ou talvez seja a mais incomoda. O que me mata é a nulificação de pessoa que ela é. Talvez isso seja o pior para se ser: nada. (E talvez assim eu contradiga minhas leituras existencialistas e tudo que eu repito delas, mas quem tem um mínimo de discernimento, sabe que é diferente. Quem não entendeu, só lamento).

Acho que o mais difícil de tudo, é aquela velha história de aceitar que, a pessoa que tanto lhe causa repulsa, também é humana, e ter que ir comprar remédios pro meu pai quando ele passa mal, e ver como ele se exausta todo dia, trabalhando até tarde e até mesmo no feriado. E é doloroso, ver, que a cada foto e lembrança, cada história de minha infância, há um fragmento dos sonhos de um jovem (ou de dois jovens, pra ser mais específico), que não sabia(m) exatamente fazia(m) da vida.

Na terça-feira, quando cheguei na casa do meu pai, dei de cara com esse desenho no quadro da geladeira, enquanto minha irmã lavava as louças. Não é nem um pouco necessário entrar no mérito de que ela tá meio velha pra ficar fazendo desenhos assim, mas talvez, o título que desde sempre me causou tanta repudia, e talvez ou até, não sei qual o termo certo, sofrimento, seja, no fundo, o mais apropriado para me definir, por mais que eu não queira. Serei eternamente o estranho que punha dúvidas nas professoras, serei eternamente o estranho que não quer ver os programas dominicais em família, serei eternamente o estranho que disseca e cita, e comenta, coisas que ninguém viu, leu, ouviu ou até mesmo dá a mínima.

Serei, eternamente, Luca, o estranho. Não a ovelha negra da família, já que minha irmã gosta tanto de se dizer isso, e de diferente não possui nada, serei Luca, o estranho, que parece como uma peça falsificada de lego no meio de um enorme castelo bem construído.

24 de abril de 2017

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