Fragmentos de mais um blog falido #23

Olhos. Não oblíquos, não dissimulados, somente olhos.

Uma hora era certo que eu iria falar de Machado de Assis. Seria impossível desviar dele, visto o pesar que ele tomou na minha vida através dos anos, embora de maneira gradativa. Talvez não exista hora melhor para eu falar dele do que agora, visto que recentemente comprei de uma cópia de Esaú e Jacó de uma amiga, livro esse que eu já tinha vontade de ler a um bom tempo e devo começar em breve.

Acho engraçada a forma que aprendemos sobre Machado. Eles sempre é pintado como um grande homem, quase como se fosse um super-herói, onde seu bigode substitui a sua capa, por moda da época, mas em realidade, quando eu finalmente dei a atenção devida a ele, percebi que é quase que o contrário.

Como todo brasileiro médio, meu primeiro contato com Machado de Assis foi no colégio. Na oitava série, tive que fazer um trabalho sobre ele, onde, de um livro de contos que tivemos que ler, foram divididos os contos para os grupos fazerem algum tipo de teatro ou filme. Meu grupo fez sobre A Cartomante. Era somente eu e mais dois garotos, e lembro que alopramos um bocado a casa gravando as cenas daquilo, e foi bem engraçado ficar editando todas aquelas baboseiras por horas no computador. Entretanto, acho que minha experiência com Machado se resumiu a isso, fazer piadas com amigos, coisa que eu já fazia sobre toda e qualquer coisa que tivesse ao meu redor, visto o meu péssimo espírito de “perco amigos, mas não perco piadas”.

Em uma outra ocasião, quando estava no primeiro ou no segundo ano do ensino médio, tive que ler novamente contos de Machados de Assis, mas de uma outra edição. Logo, tenho dois livros de compilações de Machado aqui em casa, e ambos foram bem negligenciados, até que, quando parei de estudar, resolvi tirá-los da estante e folheá-los. Deus, que experiência maravilhosa. Todo o cinismo, sarcasmo e frieza emanando de alguém que deveria ser o grande salvador da pátria, pelo menos num sentido literário, eram absurdamente hilários e gratificantes. Logo após li Memórias Póstumas de Brás Cubas, talvez meu livro preferido dele até então, e alguns meses depois, comprei e li uma edição do tão comentado Dom Casmurro.

Lembro de uma aula de literatura no segundo ano onde a professora falou especificamente de Dom Casmurro. Naquele ponto, eu já não me importava nem um pouco com o colégio e matava mais aulas do que qualquer coisa, e com uma professora tão ruim, eu perdia mais o interesse de uma das poucas aulas que eu ainda gostava. Ela passou um trecho de um filme feito baseado na obra, e focou exclusivamente no debate clássico do “Capitu traiu ou não traiu Bentinho?”, que, possivelmente, é o ponto de debate mais baixo de toda a estória, e talvez, o que me seja mais desinteressante, talvez até, por experiência própria.

Aos meus oito anos de idade, meus pais se separavam. Bom, nunca tiveram o melhor casamento de todos, embora não serem aqueles casais super problemáticos, mas não conseguiam se entender. Talvez por que eram jovens demais e lhe foram jogadas responsabilidades que não deveriam ter, como criar duas crianças. Inclusive, no ano passado uma coisa ficou martelando forte na minha cabeça após o meu aniversário, que era como meu pai já era pai com a minha idade. Eu não faço nada. Eu não tenho nada. Creio que ele não estivesse tão longe, e ainda assim, tanto ele e minha mãe, ambos tão novos, tiveram que dar o jeito deles de viver, mesmo que seja com ajuda de meus avós. E talvez isso que tenha matado o, fadado ao fracasso, casamento deles.

Bom, não foram poucas as vezes que meu pai, me dando sermões desproporcionais após eu fazer qualquer coisa que ele não aprovava, disse, basicamente, que eu arruinei a vida dele e que ele teve que abandonar todos os sonhos juvenis dele e casar com minha mãe. Não quero nem entrar no mérito de como o casamento não era uma obrigação e nem como esses dois sofreram uma enorme pressão familiar, mas sim o quanto um fato tão grande como ter um filho, inesperadamente, aos dezenove anos de idade, afetam a vida e a mente de uma pessoa. Ou melhor, de duas.

É engraçado, toda vez que começo a falar dessas coisas, falo muito mais do meu pai, e não posso controlar. É inevitável, afinal, eu passei muito mais tempo vivendo com meu pai e a família dele do que com minha mãe.

Assim que meus pais se separaram, comecei a ter um asco enorme da minha mãe, e várias cenas são descritas pra mim de todas as pessoas ao meu redor, desde meus pais, avós, tias até mesmo a moça que fora minha babá me conta muitas coisas a respeito quando encontro com ela e começamos a conversar desses tempos, e bom, acho que o mais engraçado de tudo, é que posso dizer que sofri alienação parental, mas “da forma reversa”. Veja bem, geralmente, quando uma criança sofre alienação parental, geralmente é a mãe que começa a falar do pai, mas comigo fora ao contrário. Tanto que, até hoje, não consigo chamar meu pai pelo nome dele, somente de pai. Enquanto minha mãe, comecei a chamar pelo nome dela a anos atrás, por mais que não todas as vezes, mas somente de implicância, pois sei que ela não gosta do próprio nome, e hoje, acabou se tornando somente um hábito, vazio de significado.

Procuro, hoje, não entrar muito no mérito dessa separação. Isso já me foi dor de cabeça demais pra eu ficar falando disso o tempo todo, e não é nem porque me é doloroso falar disso ou qualquer coisa, é só cansativo, chato. Pois no fundo, meus pais são Capitu e Bentinho, presos numa história que ninguém nunca terá a resposta.

“-Capitu traiu Bentinho? — Perguntava a professora, naquela tarde onde metade da turma já tinha ido embora e não queria assistir as aulas.

A sala se prende no silêncio. Ela repete a pergunta. Algumas poucas respostas embaralhadas.

Enquanto isso, minha cabeça somente pensava o quanto eu não sabia se havia uma traição ali de fato, somente haviam versões diferentes e conflitantes da mesma história, fomentada por motivos pessoais de cada pessoa que a contava.”

Não me importo se Capitu traiu Bentinho ou se Bentinho traiu Capitu, algo que, diga-se de passagem, nunca foi sugerido.

No fim, para mim Dom Casmurro sempre acabará tendo um peso maior do que o planejado por Machado, e sempre será o pior livro dele.

15 de maio de 2017

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