Fragmentos de mais um blog falido #25

Sex, Bugs and Rock’n Roll

De tempos em tempos acabo observando como certas coisas sempre se repetem no meu vocabulário literário (se é que posso afirmar que possuo um), seja de maneira simbólica, traços que costumo repetir ou cenas com ambientações similares, e não se pode negar nem um pouco, por mais que eu queira. Posso até mesmo dizer que tudo isso não passa de um ideário maior, mas no fim das contas eu estaria tentando alegar ser o gênio que não sou (se é que isso denota alguma genialidade).

Uma das figuras que mais se repetem é a do apartamento, engraçado por essa figura não ser humana ou um traço humano, mas talvez ela possua muito mais de humano do que possa parecer, em um primeiro olhar, e certamente possui algo relacionado à mim mesmo.

Se eu for traçar a primeira aparição da figura do apartamento numa vizinhança qualquer em um texto meu, terei que voltar pra uma redação que fiz no colégio, creio que no primeiro ano do ensino médio. Naquela redação, que era um trabalho em trio que eu simplesmente tomei para mim por gostar daquela matéria e ser muito preciosista em meus resultados nesta, eu criei o protótipo de um personagem que eu fora somente escrever a respeito cerca de dois anos depois, e que talvez até hoje continue servindo de uma espécie de molde básico, podendo passar por algum refinamento, de um tipo de personagem que frequentemente uso. Na época que o criei, ele não possuía nome, mas logo o nomeei Scott Myers, junção dos nomes do Ian Scott, guitarrista do Anthrax e S.O.D e Mike Myers, o personagem principal da série de filmes Halloween. Não que o personagem tenha sido tão agressivo quantos os dois em algum momento, mas eram somente duas figuras que estavam bem presentes na minha vida naquele momento.

Comecei a morar em apartamentos quando eu tinha uns 10 anos, se não me falha a memória. Meu pai se mudou da casa onde morei a maior parte de minha infância e fomos morar num prédio que era somente uns 25 metros de lá. Não foi o lugar mais agradável do mundo, tendo ouvido bastante brigas de outras famílias. Na verdade, isso fora só uma desculpa para o meu pai estar mais próximo da namorada/esposa/o que ele quiser chamar, que morava no apartamento ao lado. Sem contar o sentimento de enclausuramento que as tábuas de mdf que meu pai botara no portão e nas grades que davam para o corredor traziam, pois, segundo ele, as pessoas ficam olhando lá para dentro (o que não duvido nada). No fundo, eu passava mais tempo na casa de minha avó do que lá, creio que não demorou muito até eu começar a morar com ela depois disso.

Quando vim morar com minha mãe, ela se separou mais uma vez, e viemos morar num apartamento que também está longe de ser perfeito. Não que eu tenha o que reclamar, mas como qualquer outro lugar, as vezes a vida simplesmente dá nos nervos. E é durante as noites que talvez eu fique mais atento ao que acontece por aqui. Desde os miados de gatos, até os sons de carros que somente estão passando na esquina, consigo ouvir com alguma clareza o que acontece no bairro. Entretanto, as vezes o prédio parece gostar de quebrar esse silêncio, e eu, que gosto de me dizer músico, talvez seja uma das pessoas que faz menos barulho nesse prédio. Crianças correndo e brincando, suas mães as chamando para ir para o colégio, brigas entre vizinhos, tudo ocorre aqui. Mas, no final das contas, somente há uma coisa que me prende a atenção de fato.

Eu não sei como eu posso abordar esse fato sem soar como um julgador dos atos alheios, ainda mais quando tudo que sei são somente os boatos já repassados a mim pela minha mãe, mas irei tentar.

“Satanás tá olhando você” é a única frase que consigo lembrar do que fora o empurrão inicial para escrever esse texto. Esse ímpeto que surgira em mim, talvez se dê pela não compreensão de algo que não tem nada a ver comigo, mas que ainda assim me preocupo, por mais que esteja completamente alheio. Conforme os meses vêm passando, cada vez mais escuto as frases emboladas e sem nexo de minha vizinha. Minha tia me visita e minha mãe começa a falar coisas como “Lembra de fulana, e como ela era bonita? Então, enlouqueceu!” Não sei ao certo o que se passa, mas, pelas coisas que minha mãe me conta e pelo que vejo, chutaria esquizofrenia.

Eu poderia abrir espaço aqui para citar Foucault, mas na verdade, não entendo nada de sua filosofia. Um dia ainda lerei a respeito, e, com sorte, suas obras.

Acho que a construção desse ambiente do “apartamento” esteja intrinsecamente ligado com algum sentimento de minha infância, e talvez, seja só uma forma de representar o cotidiano massante que nos cerca, sem contar a “loucura” contida entre paredes que são mais finas que se imagina.

Espero que meus vizinhos estejam tendo bons orgasmos.

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