Fragmentos de mais um blog falido #3

Dinamarqueses da minha vida e a Angústia da falta de Silêncio.

Eu nunca conheci um dinamarquês, nem fui à Dinamarca. Não conheço nem ninguém que diz ter interesse em vontade de ir à Dinamarca, nem consigo pensar em motivo algum para alguém ir à Dinamarca. Talvez o mais próximo da Dinamarca que eu jamais cheguei, foi passar em frente de uma loja da Kopenhagen e achar caro demais, e a marca não tem ligação alguma com o país.

As vezes acho que eles são deixados um pouco no esquecimento, ou pelo menos desconhecidos. Há pessoas que esbarramos pela vida ou o trabalho deles que vêm direto desse país. Acho que o último nome que você deve ter ouvido que veio de lá é Böhr, isso se você prestou atenção nas aulas de física do ensino médio. Talvez, se você for no cinema com frequência, ou pelo menos assiste um bom bocado de filmes, é bem possível você já ter assistido um filme do controverso Lars von Trier.

Bom, se você ainda não se encontrou, talvez deveria saber que algumas histórias famosas que você ouviu na infância foram escritas por um carinha chamado Hans Christian Andersen. Inclusive, a última princesa da Disney que surgiu saiu diretamente do conto “A Rainha da Neve” dele, e só d’eu falar assim vê já deve saber de qual filme estou falando.

Mesmo após alguns nomes de tamanho peso (ou nem tanto) quanto esses, ainda fico com outros dois, de peso talvez igual, mas eu só tenho uma estúpida preferência mesmo, talvez por serem dois nomes que dialogam bem, e que simplesmente me agradam mais em suas maneiras de ver o mundo e produzir. Eles são Ingmar Bergman e Soren Kierkegaard.

Soren Kiekegaard, teólogo dinamarquês que se contradiz por ir contra própria igreja dinamarquesa de sua época, tremendamente supersticioso, possuía um medo absurdo da morte, achando que era uma maldição de família, pois seu nome é de alguma forma similar à palavra que corresponde a cova ou coveiro em dinamarquês, e visto que de seus sete irmãos, só viveriam ele e um irmão, que se dedicaria à igreja de forma como ele não se dedicou, e como é dito “foi a única figura da igreja dinamarquesa que Soren permitiu estar presente em seu enterro”. Hoje, Soren é clamado como filósofo e pai do existencialismo, graças a influência que fora em Heidegger e Sartre. E é esse o aspecto dele que gosto mais, o do pensar, o do desenho da psique humana que ele faz. Cheio de máximas e representações incríveis, talvez uma de suas frases mais memoráveis e que mais se tornaram reais em minha vida foi “Faça ou não faça, irá se arrepender de ambos”.

Ingmar Bergman, vindo ao mundo quase um século depois do filósofo, aproveita-se da criação do cinema e adentra essa indústria para ser um dos diretores mais aclamados possíveis, escrevendo quase todos os roteiros de seus filmes e propondo quebras e reflexões enormes, não só sobre vida, indivíduo, mundo e relações, como sobre o próprio cinema, com muitos apontando Persona e a questão “A atriz põe as máscaras para atuar ou põe as máscaras para o mundo?” (E eu sei que vocês que viram e gostam dele vão me crucificar com essa simplificação, mas eu não tô ligando).

Bom, agora que estamos apresentados, quero deles roubar dois conceitos. De Kierkegaard, quero apresentar a Angústia (olha só que coisa, um sentimento tão recorrente só foi pensado a respeito durante o século XIX, mas que coisa, não?), e, de Bergman quero falar sobre o Silêncio. Ambos os conceitos estão mais interligados do que se pensa.

A Angústia em Kierkegaard já está mais propagada no senso comum do que imaginamos. Basicamente, é o fato de termos liberdade para fazermos de tudo, das coisas boas às ruins, e o medo que isso nos traz. Ele também chama essa sensação à sua ideia de vertigem de liberdade. Entretanto, não vá pensando que Angústia é algo ruim, pois Kierkegaard mesmo afirma que esse sentimento é o que nos informa que estamos vivos e com possibilidade de escolha, exercendo livre arbítrio, e forçando-nos a conhecer nós mesmos.

Já o Silêncio de Bergman é uma ideia que ele trabalha em três filmes: Através do Espelho, de 1961; Luz de Inverno, de 1962; e O Silêncio, de 1963. Nele, Bergman usa uma linguagem simples e direta, forçando-nos a reflexões com personagens extremamente humanos e passando por situações completamente mundanas, e todos os seus sentimentos, sejam bons ou ruins, por estarem passando por aquilo. Nesses filmes, o maior protagonista acaba não sendo nenhum dos personagens, e sim o próprio Silêncio, que é o Silêncio de Deus. A incapacidade de Deus agir em nossas vidas para livrar-nos de toda a angústia que temos, pois há um ciclo infindável delas a cada nova curva que tomamos até chegarmos ao destino final: nossa cova.

Eu tenho vivido num ciclo constante de Silêncio e Angústia, e acho que todos nós estamos, não há como distanciar-se disso. Há aquela velha frase clichê de o nosso maior inimigo ser a gente, e que o pior de tudo talvez seja deixar-nos a sós com nossa própria mente. Muita gente toma isso como verdade, e talvez até haja um fundo qualquer de verdade aí, como as pessoas que são trancadas em solitárias por muito tempo acabam tendo inúmeros danos psicológicos, mas ainda assim,são ditos populares que abrangem pouquíssimo de toda a complexidade da psique humana.

Acho que gosto das madrugadas pelo Silêncio, e é daí que vem minha insônia. A possibilidade de estar a sós, eu e Deus, e eu não tenho nem um pingo de fé. Entretanto, mesmo durante as madrugadas não consigo esse momento “livre de angústias” (ou que pelo menos tento esquecer delas), visto que não há um momento sequer de paz e silêncio nesse prédio e vizinhança.

Ontem a noite ouvi os “rá-tim-buns” do aniversário de alguém, e pela madrugada, uma mulher gritando na rua e aqui pelo prédio uma série de coisas sem sentido algum. Por vezes, há enormes brigas entre vizinhos aqui no prédio, mas durante o almoço só ouvi uma mulher gritando com alguém provavelmente da própria casa. Acho engraçado o fato de eu reclamar de barulho, visto que tenho um amplificador que bate na minha cintura bem no meu quarto, mas incrivelmente eu consigo ser uma das pessoas mais silenciosas desse prédio inteiro.

É incrível a capacidade que qualquer barulho pode me fazer perder a concentração no que estou fazendo, deixando de lado filmes, livros, escrever ou até mesmo fazer tarefas corriqueiras, como lavar a louça. Isso tudo, somente por eu ficar imaginando o que seria aquele barulho e o que está acontecendo.

Talvez, assim como Bergman, eu deva viver uma vida isolada, em uma ilha com poucos habitantes. Ou, imitar Kierkegaard e de alguma forma só ser visto por pessoas durante caminhadas.

10 de março de 2017

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