Fragmentos de mais um blog falido #8

Imaginação Platônica ou porque acabo me sentindo inapropriado

Bom, em algum texto passado eu falei de rotina, né? E como eu sou péssimo com isso. E como eu tenho tentado mais que nunca entrar em uma. E como eu tenho falhado. De qualquer forma, continuo tentando e hoje eu fui mais uma vez tentar agir minha vidinha pacata e mundana, passando um breve momento na biblioteca. O último livro que li por completo lá foi O Jogador, de Dostoiévski. Gosto muito do Dostoiévski e dos russos, e achei o livro maravilhoso, terminei-o na semana passada.

Hoje, sem sair dos eslavos, resolvi ler um livro que eu já sabia onde estava, passara por ele algumas vezes quando ia de encontro ao meu querido Fiódor, e que eu já havia ouvido inúmeros comentários, sejam bons (a maioria) ou sejam ruins, de conhecidos: Milan Kundera. Mais especificamente Risíveis Amores. Até então, tem se provado um livro bem agradável, mas eu somente li os dois primeiros dos sete contos presentes nele.

Li calmamente o primeiro, O pomo de ouro do eterno desejo, no silêncio ininterrupto da biblioteca, que nem eu, com minha chegada desleixada à biblioteca, ousei interromper. A bibliotecária estava organizando alguma coisa da parte interna, então simplesmente me dirigi ao balcão, assinei o caderno de visitas e fui em direção à estante onde se encontrava o livro que eu queria. Haviam duas cópias dele, e mais uma cópia, de outro livro do Kundera, A Brincadeira, que pretendo ler assim que acabar esse.

Eis que, quando estou no início do segundo conto, entra uma segunda pessoa na biblioteca, que até então, só havia tido a presença de um homem que estava saindo quando eu cheguei, e a faxineira, que quando estava varrendo ao meu redor, falou que eu não precisava levantar. A bibliotecária nem havia me notado até então. A segunda pessoa, uma jovem moça, já possuía registro na biblioteca, coisa que estou adiando para fazer desde que comecei a frequentá-la, pois preciso tirar fotos 3×4.

A jovem moça vai até os fundos da biblioteca, onde ficam os computadores e chama a bibliotecária, avisando que havia um livro pra devolver e que iria pegar mais livros. A bibliotecária fala para ela escolher os livros e depois chamá-la. Ou pelo menos, imagino eu que tenha sido isso que ocorreu na breve conversa das duas, que fora em um tom tão baixo, que nem o silêncio envolvente da biblioteca fora quebrado, e manteve meus ouvidos intrometidos longe. Fico curioso com o livro que ela saca da mochila para devolver. Possuía a lombada num tom de azul turquesa, e isso fora tudo que eu pude ver nesse livro. Ainda quero saber que livro era este até então, algumas horas após o ocorrido.

A jovem moça, após pôr o livro na mesa que a bibliotecária se encontrava, vai então de encontro à estante mais próxima dela, que, creio eu, possui mais livros didáticos, acho que de biologia ou matemática. Fico observando, a cerca de cinco metros de distância, sentado na ponta da longa mesa de estudos, o quão absorta e compenetrada a jovem moça está na sua procura. Ela parece ser não muito mais velha do que eu, e aproximadamente da minha altura. Cabelos longos, de um tom entre o louro e o castanho, com algumas ondulações e cachos, presos, mas que ainda assim caíam sobre seu ombro de forma despojada.

Fico alternando a leitura do segundo conto, Ninguém vai rir, com o observar distante, por entre meu manto de invisibilidade, o bailar da jovem moça enquanto procura por livros, e, como num balé onde a música subitamente possui um crescendo, a jovem moça vai, de uma ponta a outra da biblioteca, ficando assim, a cerca de três metros de mim, e em uma das sessões que mais costumo olhar, onde ficam os livros de sociologia. Ela olha alguns desses livros, e eu, já não me importando tanto com o livro, e só com a forma compenetrada que ela procura, o que me parece, livros aleatórios, mas que a interessem, largo meu livro sobre a mesa, usando meu boné como apoio para as páginas não virarem, e vou até ela perguntar se ela precisa de ajuda. Ela diz pra mim que não, e que vai procurar coisas nas fichas, apontando para o enorme arquivo de metal. Volto até minha cadeira e finjo ler (e até leio) algumas páginas de meu livro.

O que eu estava pensando? Por que fui, incisivamente, falar com alguém que estava bem a sós, e, que claramente não precisava de ajuda, visto que estava devolvendo um livro e que pulou de estantes de forma objetiva, ainda que me parecesse aleatória a mudança de temas?

Bom, é nessas horas, que me acho a pessoa mais invasiva e inapropriada do mundo, uma verdadeira aberração, que possui uma enorme curiosidade em coisas mundanas, e que, ou as pessoas não compreendem, ou não olham com bons olhos, achando sempre que eu quero algo mais do que uma simples resposta para alguma questão, que nesse caso, era qual era o livro azul turquesa que a jovem moça segurava, e agora, recém surgida, se lhe interessava filosofia, visto que ia de encontro a essa sessão que tanto adoro.

Vejam bem, pessoas, antes de me acharem mais aberração do que realmente sou, pensem na curiosidade infantil que as vezes vocês tem de perguntar para as pessoas na rua se elas gostam da banda X, pois elas passaram por você usando a camiseta da banda Y e você gosta de ambas. O calor no peito, de uma descompromissada conversa, simplesmente por alguma identificação rasa, e que no final do dia vai ficar por isso mesmo, sem nenhuma grande alteração no curso de sua vida, somente o fato de que você sabe que não está sozinho, e que existem outras pessoas, desconhecidas, tão estranhas quanto você. Bem aquela coisa de filme adolescente mesmo, ou quando você tem treze anos e descobre AQUELA música que diz tanto sobre você e retrata todas as suas nuances, a ponto que você adota ela como “a sua música”, mas sem saber ela já é a música de milhares de pessoas que você não conhece, e, quando você finalmente encontra com alguém que compartilha esse gosto contigo, há uma ligação instantânea entre vocês.

Agora a jovem moça alterna fichas e gavetas, e eu novamente me concentro na minha leitura por um momento, e, ainda que um pouco perdido no texto, consigo facilmente me reencontrar e manter meu ritmo. Leio algumas páginas, chego por volta da metade do conto, até que, passa, por trás de minha cadeira, a jovem moça, e fica numa variação de poucos centímetros até cerca de um metro e meio de mim, procurando cerca de cinco livros, que eu via ela alternar as fichas em suas mãos. Minha curiosidade novamente me ataca de maneira abrupta, e eu me sinto compelido a descobrir o que ela estava procurando. Mesmo estando finalmente tão próxima de mim, não consigo ler o que está escrito em suas fichas, e então espero ela pegar livros e que eu possa olhá-los e ler o que está escrito em suas capas e lombadas.

Eis que minha imaginação mais uma vez ataca-me, destruindo mais uma vez a pouca concentração que ainda havia em mim para continuar aquele texto. Sei que naquela estante que ela estava procurando, haviam alguns livros de história antiga, civilizações persas, babilônicas e todas essas coisas que, infelizmente, não compreendo. Ainda assim, ela procurava em prateleiras mais baixas, onde haviam, até onde eu lembro, livros sobre grandes escritores brasileiros, como Machado de Assis e Cruz e Sousa. Vou à loucura com meus pensamentos. Seria tão legal comentar com alguém de todas aquelas civilizações que me parecem tão interessantes, e Machado de Assis e Cruz e Sousa são dois de meus autores brasileiros favoritos! Começo a corroer-me por dentro e dou uma breve olhada até ela mais uma vez. Já estava com um livro em mãos, e um pouco longe de mim, mas ainda na mesma sessão. Tento ler o que diz o livro que ela tem, mas não consigo. Volto-me para o meu livro e leio mais duas páginas. Torno a olhar pra ela. Eis que vejo uma cena, que, irá parecer muito absurda, agora com minha descrição, mas que fora maravilhosamente bela, e renderia, aos escritores mal do século, excelentes poemas sobre uma mulher que mal ouviram a voz.

Lá estava ela, no fim da sessão, quase encostada na janela. A parede, toda feita de vidro com película de insulfilm, recebia luz somente do topo, dando, à cena, uma ambientação incrível reluzindo todos os ciscos e poeira que estavam no ar, com a face concentrada da jovem moça alternando entre fichas e livros. A mochila que pendia de seu ombro e o suéter preto amarrado em sua cintura combinavam de maneira excepcional, e a pose que fazia, era da mais natural impossível, no meio daquelas prateleiras que nunca foram trocadas de posição desde que chegaram ali, cerca de vinte e cinco anos atrás. Subitamente, cresce em mim uma vontade de fotografar aquele momento. Fico alternando entre olhar meu livro e olhar ela, quase imóvel, procurando o livro que queria, pensando em como seria péssimo fotografá-la sem ela perceber (o que seria impossível, dada aquela pouca distância), e como seria incômodo para ela eu perguntar se poderia fotografá-la, então me mantenho quieto, fingindo estar lendo meu livro e vendo aquela cena ocorrer. Em um momento ela põe os livros em cima de umas prateleiras mais próximas de mim e consigo ler na capa de um dos livros “Oscar Wilde” e fico fascinado por aquela pessoa, que, assim como Wilde, parecia extremamente agradável, aos meus olhos predadores de uma boa estética, que acabam cruzando com os dela, quando ela vira-se em minha direção para ir até o arquivo e guarda alguma ficha e possivelmente procurar outra, continuando sua busca na mesma sessão, mas agora, com um clima estranho entre nós, ou pelo menos, para mim, que me sentia mais inapropriado do que nunca, sendo capturado durante meu momento de silenciosa observação.

Começo a cogitar a possibilidade de perguntá-la, quando ela finalmente pegasse todos os livros que queria, quais eram eles, e fazer todas as outras perguntas que anteriormente surgiram em minha cabeça, e todas as novas que pipocavam a cada instante, mas que não eram nem um pouco relevantes. Ah, imaginação. Por que tu me deixa de tal forma? Não poderia você ser um pouco menos desenvolvida e eu simplesmente pensar em cenas estáticas do meu livro, sem nenhuma vivacidade, ao contrário do que o próprio texto propunha?

Eis que ela finalmente pega o segundo livro e guarda todas as fichas que havia pego de volta ao arquivo. Tento ver qual é o outro livro, mas não consigo ver seu título, nem o título do livro do Oscar Wilde. Será que ela é tão apaixonada quanto eu pelo Retrato? Seus livros estão em cima da outra mesa enquanto ela guarda as fichas, e eu tento olhá-los, mas ainda assim não consigo. Tento me manter discreto. Ela então vai até a bibliotecária, que continua no mesmo lugar, e então começam a agir os registros do empréstimo. Consigo ouvir quando ela fala seu nome, mas não compreendo direito, somente “Mello”, “com dois ‘l’”, como ela mesma disse. Penso então em abordá-la logo após que ela terminasse de assinar o empréstimo. Quais seriam todos aqueles livros? Quais seriam seus gostos? Seria ela religiosa? Será que estudava? E o que estudava?

E, num piscar de olhos, a jovem moça sai da biblioteca, em um passo tão rápido, que mal tive como pensar. Por um instante, tive vontade de ir atrás dela e fazer todas aquelas questões que me surgiam na cabeça, mas acho que só pioraria toda a estranheza da minha figura, e então, vi, aos poucos, ir embora uma tão bem imaginada e platônica possível amizade.

Entrei num breve momento de tristeza, pensando em todos os momentos de hesitação que sofri quando cogitei fazer contato com ela, e como o primeiro momento que me dirigi a ela foi algo completamente estranho, aleatório e que ela provavelmente deveria estar me achando um louco. Comecei a sentir-me como um personagem do Kundera, Martin, do primeiro conto do livro, que li antes dela chegar. Martin costuma praticar um jogo de sedução com mulheres aleatórias, mesmo sendo homem casado. Tirando, claro, o fato de que eu sou só um moleque que o máximo de relacionamento que conseguiu ter fora um namoro colegial, e que, não sabia abordar a moça nem para lhe perguntar que livros ela tinha em mãos, quem dirá seduzir.

Concentrei-me mais uma vez no livro, com alguma dificuldade de esquecer os momentos que se passaram, fazendo eu me perder algumas vezes, mas consegui terminar a leitura do segundo conto. Levantei da cadeira, guardei o livro e fui embora, dando uma breve sorridela para a bibliotecária, que agora estava perto da porta, e lhe desejando um bom trabalho. Na rua, saquei meu celular do bolso e botei meus fones de ouvido, tentando continuar a série de episódios sobre os pré-socráticos de um podcast recém-descoberto, mas comecei a pensar novamente naqueles momentos, e cogitei escrever esse texto. Saquei o celular novamente do bolso, pausei o podcast e comecei a escrever alguns dos tópicos principais do texto no meu bloco de notas. Botei então uma música pra tocar, primeiro Jawbreaker, e depois acabei ouvindo uma série de músicas do Jets to Brazil. Fazia um bom tempo que eu não ouvia essas bandas. Ou pelo menos que eu as ouvia prestando atenção. Fico maravilhado com um teclado em uma música enquanto ando para casa.

Agora escrevo esse texto, mas, em alguns momentos, toda essa história será esquecida por mim, a menos que eu torne a ler isso e toda essa carga volte a mim e eu lembre mais uma vez da luz batendo em seus cabelos e sua cara compenetrada na busca por livros, enquanto a faxineira massacrava meus pés debaixo da mesa com sua vassoura pois “não precisava levantar”.

20 de março de 2017


Voltei à biblioteca e a jovem moça não estava lá. Imaginei-a através das estantes quando fui pegar um livro. Jamais saberei que livros ela carregou consigo. Jamais conhecerei pessoas com gostos tão parecidos com os meus. Jamais criarei iniciativa.

A poeira e os ciscos bailavam no reluzir do sol, mas sem o contrastar da figura jovem.

Talvez continue assim por um bom tempo.

22 de março de 2017

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