Fragmentos de um blog falido #17

Perdendo o Conforto em se Sentir Triste.

Semana passada eu mal levantei da cama. Me mantive nela, pensando no nada, encarando paredes, ou fingindo para mim mesmo que via um filme. Acho que é nesse momento que as pessoas percebem que nostalgia não é algo necessariamente bom, e lembranças por fim podem acabar sendo uma merda, né? Engraçado que eu tava sentindo nostalgia por um período que eu já sentia nostalgia, e toda essa nostalgia, não num tom de “Como eu queria que as coisas fossem mais simples que nem naquela época” e sim numa espécie de “Olha só, parece que eu tô me sentindo daquela forma de novo, mais uma vez”.

Uma época que eu realmente me lembro com carinho é minha primeira e segunda infância. As coisas talvez fossem mais simples, só pelo fato de eu não ficar analisando elas o tempo todo, incessantemente. Pelo menos, não tanto.

Quando eu era criança, as pessoas se impressionavam muito comigo. Minha mãe conta sobre como eu aprendi a ler sozinho, minha avó sempre lembra das enciclopédias que me dava, meu pai fala de quando queria fazer teste de QI em mim no colégio, por eu dar respostas nas provas que as professoras ficavam surpresas ou até não entendiam. De fato, lembro de algumas coisas desse período que são meio “diferentes”, digamos assim, como a vez que eu comecei a escrever um livro, ou eu falando com minha mãe sobre o meu aprendizado, e como as vezes eu sentia que tava um pouco na frente da turma do colégio (usando essas palavras mesmo, e puta merda, que ego).

Acabei aprendendo a fazer um monte de coisas simplesmente por que eu me virei para aprendê-las, de alguma forma, como música, que embora eu tenha feito algumas aulas, todo o pouco conhecimento que tenho a respeito foi formado devido enormes quantidades de conteúdo a respeito consumidos por mim.

Engraçado que, ao mesmo tempo que eu sempre tive esse encanto pelas coisas e vontade de dissecá-las a um ponto incômodo, eu fui cada vez mais perdendo a paciência para ir ao colégio. Quanto mais velho eu ficava, e mais avançava de classe, mais meu interesse e minhas notas caíam. Minha mãe já comentou que até no jardim de infância eu reclamava do colégio, novamente, meu ego atacando, onde eu dizia que as outras crianças eram bebês, mas que na verdade, tínhamos a mesma idade. Até hoje tenho esse péssimo hábito de me portar como se eu fosse mais velho do que sou, acho.

Quando repeti o segundo ano do ensino médio foi o ponto final para mim. Evidente o período de depressão que eu passava, onde inclusive tomava medicamentos, mas que eu nunca vi efeito real, embora todos achassem que eu melhorava pelo simples fato de fingir me sentir bem com a companhia deles. Mudei de colégio para cursar o segundo ano pela segunda vez. Passei mal na segunda semana de aula, passei um bom tempo no banheiro do colégio vomitando. Nos dias seguintes, segui nauseado, mas não vomitei mais. Minha mãe vinha-me acordar para ir para o colégio e eu só falava que não me sentia bem. Foi assim por umas duas semanas, até ela desistir de me acordar e perceber que o que eu tinha não era só uma virose qualquer ou seja lá o que foi aquilo.

Hoje, acabei me fechando em livros, vídeos, músicas e todo tipo de material, simplesmente tendo abandonado a escola para me tornar possivelmente uma das pessoas mais pedantes das turmas que fiz parte, numa das maiores ironias que somente a vida pode proporcionar, ou simplesmente provando que o nosso sistema educacional não fomenta a fome pelo saber e simplesmente é uma fábrica de mão de obra.

Queria eu não ficar falando essas coisas que simplesmente cansam os ouvidos de quem as escuta, simplesmente por serem um monte de besteiras, e que minha nostalgia fosse tão bela quanto a de Tarkovsky, mas nem velas eu tenho em casa, pois minha mãe tem medo que elas acabem queimando a casa.

Talvez a minha nostalgia seja fomentada pelo Utero, que sempre surge como uma forma de presságio para o que eu vou sentir.

7 de abril de 2017

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