Mameluco Contemporâneo

Sou mameluco contemporâneo. Ou pós-moderno. Ou ‘patafísico. Não importa a denominação, somente o sentimento. Que sentimento seria esse, você se pergunta. Ora, cara pessoa que perde seu tempo para ler esse breve texto de título chamativo, mas de conteúdo cotidiano, esse sentimento é o sentimento de não pertencimento e de desconhecimento de si mesmo e de suas próprias raízes. Talvez um sentimento que sempre fora pertencente as raças miscigenadas do Brasil.

Bom, deixa eu explicar minha própria situação, pondo a cara a tapas.

Minha família, seja paterna ou materna, ambas possuem alguma história conturbada, e que eu não sei direito minha própria origem e genealogia, o que já reforça o sentimento já citado. Bom, por parte de mãe, sei que meu bisavô veio do Pará, após uma briga com sua família e se estabeleceu aqui no Rio de Janeiro. Não sei muito bem sua origem, e não sei se cheguei a sequer estar em seu colo quando criança, mas consigo ver em fotos que ele deveria ter sido um bom exemplo de mulato, ou até, do tradicional nordestino que temos em mente. Já sua esposa, minha bisavó, possuia fortes traços europeus, visto a descendência italiana, e isso garantiu que todos nós acabássemos possuindo traços mais europeus. Não sei ao certo sobre meus outros dois bisavós, mas pelos traços de meus familiares, não duvido estarem muito distantes também da descrição anterior.

Agora é onde começa a confusão: a família de meu pai. A família de meu pai possui uma história confusa, onde ninguém nem ao menos sabe a origem do sobrenome, graças a uma briga familiar de meu tatara-tatara-avô com o resto da família, causando uma racha que vira e mexe alguém me pergunta “ei, fulano é seu primo?” e eu somente posso responder que não faço ideia e explicar essa briga louca.

De qualquer forma, o que intriga mais não é essa briga e sim o fato de ninguém saber a origem do sobrenome e cada um contar uma origem, tendo minha família traços mais europeus, mas também portando traços de diferentes raças. Minha bisavó conta que a mãe dela dizia várias coisas como “morena assim você não vai conseguir X”, sendo que ela possui um tom de pele bem claro, somente não sendo daquele branco europeu. Meu pai possui a pele levemente avermelhada, e possuo primos de segundo grau que possuem a pele bem torneada. Algumas pessoas dizem que a origem do sobrenome é francesa, outros, espanhola. Minha avó já contou inúmeras versões, e numa delas, até de origem indígena o nome poderia ser. Na internet, disse que remontava a África, de alguma forma.

Acho muito doido essa sensação de pertencer a todo lugar e a lugar nenhum ao mesmo tempo. Acho que isso pode ser uma das origens de meu pensamento internacionalista.

Talvez questionem minha posição, seja por possuir bochechas rosadas ou simplesmente por eu não saber como é sofrer, de fato, por conta de sua raça. E realmente, não sei. Mas de qualquer forma é estranha essa sensação de não saber ao certo como as coisas aconteceram e como você é o que é. Talvez eu analise demais as coisas, e isso seja o problema.

Eu acho que talvez eu esteja reclamando de uma coisa boa, mas ainda assim, de tempos em tempos, clamarei o termo mameluco. Mesmo que seja somente para referenciar a forma que meu pai me chamava, quando inventava apelidos absurdos para mim e minha irmã.

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