São Paulo: sentença de morte

Onde não puderes amar, não te demores. Se hoje deu certo, dá pra ficar mais um pouco. Se não deu certo, amanhã dará. E assim a cidade mantém em cativeiro aqueles que sonham.
Qual bagagem se leva, qual se deixa para trás? Foto: Lucas Coelho

Amar São Paulo é fácil. Basta abrir os olhos quando o dia ainda nem raiou e o ônibus ainda tarda um pouco a chegar na Barra Funda. As luzes da marginal, os carros e os trabalhadores da noite inundam a retina daquele que acordam. É quando tem início a imersão.

Em poucos instantes, filas. Para comprar o bilhete, para entrar no trem, para tentar se sentar, para subir as escadas rolantes, para comprar o café e o pão na chapa, para ver a Avenida Paulista acordar.

A cidade, nos olhos de quem chega, é outra. E Caetano nunca deixará de estar certo, por mais piegas que possa parecer a quem é nascido e criado por aí. São Paulo parece chamar ao convívio na mesma proporção com que seus moradores olham silenciosos em um ponto vazio no horizonte enquanto seguem sempre em frente. Sempre em frente.

Foto: Lucas Coelho

São Paulo te empurra. Tromba em você. Demora um tempo até entender que trombar é o jeito paulistano de chamar sua atenção. Feito uma criança mimada, que acredita ser o centro do mundo.

Em pouco tempo, quem chega aprende que é possível também trombar a cidade. Dar de cara com ruas onde igrejas e inferninhos dividem a mesma porta cinza de correr. E no meio de uma profusão de neon bíblico um mendigo te para e te fala sobre o teatro de Zé Celso. Depois pede um cigarro, um trago e some em meio a tanta gente, que você já não sabe mais quem é mendigo, quem é fashion week.

Sou nascido em São Paulo. Mas não fui criado lá. E se existe algo que a vida no interior próximo me propiciou foi retornar à cidade com os olhos de quem a vê pela primeira vez. E foram muitas primeiras vezes, muitas voltas, feito um alguém com sindrome de estocolmo, sempre voltava ao cativeiro.

Um deles era o segundo andar de uma casa antiga, na ladeira da Cardeal Arcoverde, em Pinheiros: a pensão de Dona Laura. Daquele segundo andar, acordava cedo com o som do freio a ar dos ônibus que levavam gente pra trabalhar muito cedo na Faria Lima. Para lá voltava ao fim do dia, com o dinheiro do cigarro e da cerveja, para sentar no parapeito largo da janela e ficar olhando a vida.

Foi uma época que não deu certo. Mas eu insistia, acreditando que a chance estava ali e um dia a mais poderia ser a diferença, feito o escavador naquela velha ilustração, a algumas picaretadas do grande diamante.

Foto: Lucas Coelho

Mas ninguém me contou que os diamantes paulistanos acabaram. O que restou foi o blefe sujo daqueles que guardaram seus antigos diamantes em cofres ou trouxeram os seus de outros cantos e agora cobram das pessoas para que elas possam vê-los e desejá-los.

"Onde não puderes amar, não te demores" diz a frase de autoria incerta. E eu talvez tenha demorado muito em São Paulo. Um tempo que extrapolou meu amor pela cidade. Quando saí, me chamaram de louco. Julgaram não haver vida lá fora, como se os limites das marginais e das rodovias só pudessem ser cruzados em pitorescas aventuras pelo interior desses outros países que circundam essa nação chamada São Paulo.

Aconteceu que eu descobri esses países distantes. Ultrapassei a fronteira de estados e de regiões e descobri que toda petulância de conhecer decor o nome das travessas que vão da brigadeiro à consolação não valem de nada quando se está em uma roda de chula no nordeste, ou em uma roda de viola no centro-oeste. E que há gente, gente muito mais inteligente, muito mais bonita, muito mais viajada, muito mais rica e muito mais feliz do que você e seu punhado de referenciais pequeno-burgueses de quem acreditava que dentro das paredes do feudo a vida era mais feliz.

Há mais de dez anos, não vivo em São Paulo. E como aquela paixão distante, que vez por outra trombamos na rua e faz o coração tropeçar no estômago e bater aos repiques, estou redescobrindo meu amor pela cidade.

Não sei se algum dia ainda [de] moro por lá novamente. É preciso amor. E eu ainda não aprendi a diferenciar amor de paixão.