Sobre curvas e retas

Não é necessário prólogo para contar quem foi Oscar Niemeyer. Ou é?

Ontem à noite estava zapeando a TV quando me deparei com uma cena que tive a oportunidade de ver pessoalmente 15 anos atrás no pavilhão da Bienal, no Ibirapuera (São Paulo): uma mão enrugada e marcada por muitas pintas e sardas rabiscando traços pouco firmes e quase abstratos, repletos de curvas. Era o documentário A Vida é um Sopro, que narra a longa trajetória de vida de Oscar Niemeyer. A lembrança de ter visto pessoalmente o maior expoente da arquitetura brasileira estava guardada em alguma gaveta da memória e me fez pensar no quanto eu não aproveitei devidamente aquele momento.

Talvez na época, mesmo cursando arquitetura, eu não tivesse consciência do que significava estar na presença daquele profissional. Eu devia ter 18 anos de idade e minha maior preocupação era o bar em que a galera iria se reunir após a palestra. Isso me fez pensar o quanto insistimos em querer traçar linhas retas de pensamento e de atitudes, quando a vida é tão sinuosa e oferece tanto a cada curva.

Ouvir Niemeyer falar sobre sua vida me fez refletir sobre o quanto nos apegamos às ideias que enfiam em nossas cabeças quando ainda somos jovens e as quais nos mantemos fiéis depois de adultos, sem questionar a razão dessa fidelidade. Seja o time de futebol, o partido político, o conceito de amor, o machismo, a aversão por um cantor, o amor por um ator, a certeza de que se deve prestar um concurso público ou o medo de mudar de cidade.

Foto: Reprodução

As referências que adquirimos se pautam por essa soma de pequenas verdades que nos são ensinadas. E um dia acontece o inimaginável: você descobre que é possível dobrar todas essas retas e criar uma vida mais bonita, mais harmônica, em sintonia com sua verdadeira identidade.

Ao longo do documentário, me permiti esquecer tudo o que sabia sobre Niemeyer: "o comunista", "o que fez a capital em formato de avião", "o que não morre nunca". Tinha em minha mente uma versão tão reduzida, tão mesquinha, tão arrogante, que nunca me permiti perceber a extensão de sua obra e sua vida. Os minutos passavam em uma sucessão de personalidades que fizeram parte de sua vida: Le Corbusier, Gilberto Freyre, Sartre, Saramago e Eduardo Galiano eram citados pelo próprio arquiteto em passagens pitorescas da história de um homem que trabalhou a vida inteira. Em um determinado momento, ele explica mais ou menos assim:

"Quando saí do país — porque não queriam que eu ficasse aqui — fui para Angola. Lá projetei uma universidade. Depois fui a Paris onde projetei praças e prédios públicos. Depois Milão…"
Foto: Reprodução

A extensão da obra de Niemeyer é desconhecida pelo brasileiro. Sabemos que Brasilia esta lá porque a vemos todos os dias nos noticiários. Sabemos que o Copan fica em São Paulo pelas tomadas aéreas nas novelas da Globo. Mas não nos preocupamos em entender a razão que leva um brasileiro a desconstruir o conceito de que o Brasil não pode, de que nós não podemos, frente ao que se faz mundo afora, criar algo melhor.

Em meio a tantos conceitos retos, tenho buscado traçar curvas de pensamento. "Talvez as coisas não sejam bem assim" , costumo falar a mim mesmo, quando confrontado com uma ideia nova. O conflito da vida é descobrir que se gosta de algo que lhe foi ensinado a odiar. Um dia você acorda e está apaixonado(a) por um negro(a), está dando risada de gatinhos na internet, está assobiando um pagode ou um funk, está ouvindo música boa com amigos gays, está vestindo roupa colorida ou está lendo um best-seller. Tanto faz.

A retidão do pensamento é tão forte em nós, que ao primeiro sinal de felicidade expontânea por algo que está fora dessa reta, nos retraímos, proferimos discursos de ódio, ignoramos a beleza, menosprezamos o esforço.

Esquece essa reta. Niemeyer foi um grande brasileiro. Foi mesmo. Provou que até o concreto faz curva. Por que nossos conceitos não podem também?

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