Manifesto da singularidade

Era uma vez um garoto. Ele acabara de sair de um shopping, mas precisamente, vinha de uma loja de livros. Trazia consigo um livro encomendado há 4 dias do Eckhart Tolle — Um Novo Mundo. Ao descer as escadas ele lia o verso do livro e lembrava do que já havia lido sobre o livro em outra cópia emprestada. Mas ao sair do shopping e se conectou. O tempo diminuiu sua velocidade e ele enxergou.

Ele enxergou a conexão com cada rosto que passava. Viu propósitos universalmente gigantes e, ao mesmo tempo, completamente individuais. Ele se viu imerso em um mar de identidades, inclusive na sua. Mas ele não era mais aquilo. O cabelo, os olhos, dentes, boca e orelhas, não eram mais dele. Nunca foram. Tudo era sua própria criação.

Ele, nesse mundo novo, navegava entre semblantes, personalidades, características, egos e personificações. Ele se viu novo, ele entendeu o que Neo enxergava quando estava no meio da multidão com Morpheus ao entrar na Matrix. Era uma grande massa, um grande todo. E ele entendeu o que era aquela mulher de vermelho, que para ele refletia beleza, prazer, satisfação, gozo e humanidade, mas para Morpheus, que enxergava além das beiradas, era só mais uma distração. Era só mais uma nostalgia de como ele se sentia humano, como ele julgava as fisionomias e particularidades. Separava os indivíduos, categorizava grupos e caracterizavam as imperfeições.

Ele visualizava o pertencimento de cada ser, a naturalidade do presente. Ele viu que estavamos juntos. E que cada vida e morte pode ser motivo de celebração ou de agonia. Ele viu os conceitos, as ideologias, a cultura próxima, mas ele não era tudo isso. Ele não era nem mais e nem menos. Ele era igual.

Ele (não) era um glóbulo branco, pequeno, função premeditada e encaminhada, mas ele se viu em tudo, ele era o organismo vivo e os seus mais outros bilhões, trilhões, quatrilhões de glóbulos, amebas, parasitas, órgãos, animais, seres.

Ele entrava em seu prédio, caminhava em direção ao seu trabalho e ele não se questionava, mas ele era (só) isso. Ele era (tudo) isso. Grande, gigante, enorme, poderoso. Ele era, mas agora ele (não) é humano.