O que é a Teoria Queer?

Nobody is home
Feb 2, 2017 · 6 min read

E o que não é.

Há uns dois anos a Teoria Queer vem tomando visibilidade nas redes sociais. E não é o tipo de visibilidade boa, algumas páginas simplesmente resolveram ignorar todo o material bibliográfico produzido pelo Queer e começaram a associar algumas coisas um tanto quanto sem noção ao Queer. Como evitar essa desonestidade na internet senão escrevendo na/pela internet?

Antes de começar é importante ressaltar que este texto não cobre toda a gama potencial e teórica que a política queer oferece. Afinal de contas, a queer não trata apenas de gênero e sexualidade — esse nunca foi o único foco dela. Porém, como é comum que algumas páginas foquem nesta área do queer, é justo que meu texto também tenha esse enfoque. Portanto, alguns pontos ficarão de lado: o propósito aqui é justamente retirar a deturpação que fazem da Teoria Queer. O texto tem caráter de ensaio, não utiliza linguagem e termos próprios da TQ. Estamos na internet, isso aqui é pra descomplicar. Ao final pode ser encontrado referências para leituras posteriores e mais profundas.

O QUE É
Darwin criou a Teoria da Evolução das Espécies, Einstein formulou a Teoria da Relatividade, e Marx o marxismo. E quem criou a Teoria Queer? Ninguém. A TQ surgiu advinda de trabalhos de vários filósofos e sociólogos: Michel Foucault, Judith Butler, Eve Sedgwick, Guy Hocquenghem e Michael Warner são apenas seis dos nomes que foram pioneiros nessa área de estudo (embora Foucault nunca tenha usado o termo “queer” sua obra foi de imensurável importância). Isso pode ser percebido quando se analisa a história. Os primeiros movimentos queer aconteceram após a Rebelião de Stonewall (1969), estes movimentos não tinham uma “teoria” para se orientarem (e o uso do termo “queer” não era tão popular), e se opunham ao assimilacionismo do Movimento Homófilo. De fato, só em 1990 que aparece o primeiro movimento que realmente adotou o termo queer: o Queer Nation. E o que é queer?

Queer é tudo que o discurso da sociedade transforma em anormal, em estranho, em abjeto, em subalterno (Miskolci, 2012). São os gays afeminados, as lésbicas masculinizadas, as pessoas trans e travestis, as pessoas intersexo, e todos que estão na margem social. E não se engane, o termo “queer” nunca foi uma forma carinhosa de tratamento. Ele é originalmente um palavrão de teor extremamente pejorativo. Não há tradução em português que consiga provocar tanta repulsa que o termo originalmente provoca, há tentativas de tradução para “estranho”, “bicha”, “viado”, “traveco” e “sapatão”. Mas simplesmente não há correspondência em português para o “queer” como adjetivo pejorativo. Mas por que diabos alguém iria querer ser tratado por palavrão? Simples: o Queer Nation acreditava, naquela época, que o termo poderia ser usado como uma forma de apoderar-se de uma arma LGBTfóbica e utilizar contra os próprios LGBTfóbicos. “Sim, nós somos viados”, diziam e ainda dizem.

Ao mesmo tempo em que os queers (mesmo que não se denominassem assim) se organizavam na rua em movimentos sociais, também se organizavam nas universidades. Foi apenas em 1991, vinte anos depois de Stonewall, que Teresa de Lauretis usou pela primeira vez a frase “Teoria Queer”. A partir daí, o termo se popularizou. Ela usou como uma forma de escárnio ao Movimento Homófilo que repudiava o uso do termo pois acreditavam que não iriam incluir-se na sociedade deste jeito. E, de fato, não iriam se incluir mesmo. A TQ não quer a inclusão dos queers na sociedade atual, ela quer transformar a sociedade para que não mais existam os “normais” e os “anormais”. Afinal de contas, o Movimento Homófilo era composto majoritariamente por gays brancos de classe média e não-afeminados enquanto o queer abrangia as pessoas que estavam de fora das classificações homófilas.

A Teoria Queer é, então, uma linha de pensamento filosófico e sociológico surgida da aliança entre feministas e movimento LGBTQ. É uma teoria que ainda está em construção e que foi altamente influenciada pelo existencialismo de Beauvoir, pelo marxismo, pela psicanálise, pelos estudos pós-coloniais, e por Foucault. Postula contra a classificação e padronização das identidades, contra o assimilacionismo cultural, contra a cisnormatividade e heteronormatividade, contra o patriarcado, contra o (pink) capitalismo e contra o sistema binário de gênero/sexualidade. Não é, como alguns pensam, uma política identitária; é uma teoria crítica e pós-identitária orientada pela política das diferenças (e não da diversidade) e da subversão.

E aqui, quando falamos de não-binarismo de gênero, não estamos falando apenas dos terceiros gêneros ou gêneros não-binários que associam à TQ. Estamos falando também que a identidade mulher não pode ser o oposto da identidade homem. Essa concepção binária de gênero naturaliza que o que o homem pode fazer, a mulher não pode e vice-versa. Por exemplo, nesta concepção binária, mulheres devem utilizar maquiagem, enquanto homens não. E tantos outros exemplos que não caberiam aqui sem fazer o texto ficar demasiadamente longo. O que está em questão é desnaturalizar as oposições que ocorrem entre estas identidades, pois elas fazem algo que a TQ postula contra: a normatização e padronização das identidades. E por se opor ao sistema binário, a TQ não se opõe à mulher ou ao homem: ela se opõe ao “sistema de gêneros como instituição social [que] cria uma hierarquia, colocando os homens em uma posição superior à das mulheres” (Não Me Kahlo, 2016, p. 33).

O QUE NÃO É
A TQ não é uma tentativa de criar uma “infinidade de gêneros” como algumas pessoas podem afirmar. Quanto ao gênero, a TQ tem o objetivo de subverter as identidades para que não mais possam classificar algo como Y ou como X:

A multidão queer não tem relação com um “terceiro sexo” ou com um “além dos gêneros”. Ela se faz na apropriação das disciplinas de saber/poder sobre os sexos, na rearticulação e no desvio das tecnologias sexopolíticas específicas de produção dos corpos “normais” e “desviantes”. Por oposição às políticas “feministas” ou “homossexuais”, a política da multidão queer não repousa sobre uma identidade natural (homem/mulher) nem sobre uma definição pelas práticas (heterossexual/homossexual), mas sobre uma multiplicidade de corpos que se levantam contra os regimes que os constroem como “normais” ou “anormais” […]. O que está em jogo é como resistir ou como desviar das formas de subjetivação sexopolíticas. (Preciado, 2003/2011, p. 16).

Sabe aquelas imagens que circulam no Tumblr com uma descrição sobre algum gênero? Esquece isso (e não associe mais ao queer), a Teoria Queer nunca nomeou, descreveu ou criou nenhum desses gêneros (e duvido que irá fazer isso). Porém, é inegável a existência de gêneros não-binários. Os estudos em português sobre estes gêneros são escassos, e por isso é necessário recorrer ao estudos em inglês. Mair Cayley, em sua tese de PhD intitulada de “Xwhy? Stories of non-binary genders”, analisou e descreveu estes gêneros além de ter dado perspectivas multidisciplinares sobre a formação destas identidades. Além dela, Christina Richards et al escreveu o artigo “Non-binary or genderqueer genders”. Margaret Mead, antropóloga estadunidense, escreveu “Sexo e temperamento” em 1935 (muito antes de qualquer teórico queer) onde nos mostra como a feminilidade e masculinidade pode fluir independente do sexo. Em português, pode-se encontrar o “Gêneros não-binários, identidades, expressões e educação” de Neilton dos Reis e Raquel Pinho.

Existem outras afirmações absurdas como “a TQ é uma cura gay”, “é misógina e sexista” que não compensam a escrita sem parcimônia deste texto. A TQ não é uma “cura gay/lésbica” porque ela advoga a favor da não-heteronormatividade, tampouco é “misógina e sexista” justamente por se opor ao patriarcado. Estas afirmações geralmente (se não sempre) são feitas sem argumentação lógica nenhuma e torna-se impossível ter ideia de como alguém chegou a tal conclusão, e isso impede a contra-argumentação.

Referências
COLETIVO NÃO ME KAHLO. MeuAmigoSecreto: Feminismo Além das Redes. Rio de Janeiro: Edições de Janeiro, 2016.

MISKOLCI, Richard. Teoria Queer: um aprendizado pelas diferenças (2012). 2ª ed. Belo Horizonte: Editora Autêntica, 2016.

PRECIADO, [Paul] B. Multidões queer: notas para uma política dos “anormais”. Estudos Feministas, Florianópolis, v. 19, n. 1, p. 11–20, jan. 2011. (O autor é um homem trans que, ao publicar este artigo, não havia adotado seu nome social: Paul B. Preciado).

Recomendação de leitura
Estas leituras não são substitutivas aos livros teóricos que fizeram a TQ, porém, podem ser consideradas como leituras iniciais antes de se aprofundar. Além do livro de Miskolci e o artigo de Preciado acima citados, segue:

1- Gênero como performatividade (Judith Butler).
2- O potencial político da Teoria Queer (Guacira Lopes Louro).
3- Teoria Queer: Uma política pós-identitária para a educação (Lopes Louro).
4- Dossiê sobre Teoria Queer após a Rebelião de Stonewall (Leandro Colling).
5- Que os Outros sejam o normal: Tensões entre o Movimento LGBT e o ativismo queer (Leando Colling).
6- Dossiê Teoria Queer (Revista Florestan — UFSCar).
7- Queer Nation Manifesto (em inglês). Uma tradução livre e não-oficial para o português de Portugal pode ser encontrada aqui.
8- Movimento Queer e a luta de classes.
9- Lutas Queer são lutas de classe.

Além disso, o “Geledés: Instituto da Mulher Negra” compilou uma série de textos e livros que são (ou tem influência da) base teórica do queer. Pode ser acessado clicando aqui.

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