Liberdade para Rafael Braga — Foto: Sou Nina Fotografia

Deixem o pássaro negro voar

Lucas Koehler
May 2, 2016 · 2 min read

Primeiro de Maio. Domingo de feriado mundial. Liberdade para os trabalhadores e trabalhadoras. Em Joinville, o frio corta peles e carnes pela manhã. Na Casa Iririú, zona leste da cidade, o sol queima o gramado recém roçado. Ao fundo, ouve-se o latido de um cão maravilhado com o cheiro do mato verde em pedaços. Ao lado, o vento balança os panos azuis do uniforme do operário que estão no varal vizinho.

A Casa Iririú. Delicada e calmante. Orquídeas e manjericão. Os sofás, por coincidência, vestem capas rubro-negras. Acertaram o traje de ida ao evento de logo mais. Cartazes da Revolução Espanhola são colados na parede e dão boas-vindas aos companheiros e companheiras de Florianópolis. A organização está completa. Dividida entre abraços de saudades, reencontros e novos contatos.

Já passa das 15h. O céu azul olha de cima o início do vermelho, preto e segundo Sarau 1° de Maio, organizado pelo Coletivo Anarquista Bandeira Negra (CABN). Reúnem-se oprimidos e oprimidas. Braços e corpos exaustos pela maldade do capital. As almas de zapatistas e sem-terras estão em bandeiras nas paredes ou em bonés sobre crânios gelados do frio.

Bancas de livros na qual não contém best-seller. O tema é o povo. As revoltas do povo. A vida igualitária ao povo. O povo é tudo, inclusive povo. Música para todos que gritam ¡TYERRA Y LIBERTAD! ¡TYERRA O MUERTE! Teatro para Zumbi dos Palmares. Partilha de alimentos. Sorrisos e lágrimas. Momentos de reflexão da classe trabalhadora. A menina, com seus 6 ou 7 anos, fica em pé na cadeira, com suas pupilas arregaladas, olhando todas aquelas coisas que vê poucas vezes ao ano.

Rafael Braga. Preto e periférico. Único preso nas Jornadas de Junho de 2013. Não estava na manifestação. Lúcido, cometeu o crime de portar uma garrada de Pinho Sol. Este não pôde assistir, não pôde aplaudir. Não pode abraçar. Muito menos viver. Para ele, a Polícia Militar deseja grades. O governo quer o seu fim. O Estado lhe crava as duas coisas.

A menina sonha com asas e voos ao pássaro negro. E assim vai lutar e explodir os pulmões aos gritos de Liberdade para Rafael Braga.

Lucas Koehler

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23 anos, jornalista — Joinville (SC), Brasil | Twitter: lucasfkoehler