Dwight Williams - Mission Bellswhich

Sino da angústia

Na última cadeira da sala, sozinho, senta-se Mauro. De frente para uma peça de teatro que acabou de começar, para cartazes bíblicos colados na parede e para toda a plateia formada por amigos que convive com ele diariamente. É tarde de sábado, vinte e sete de maio de dois mil e sete, dia de visita. Todos, exceto Mauro e Cristian, assistem o espetáculo com suas famílias. Mauro, Cristian e os outros treze adolescentes presentes moram juntos no núcleo socioterapêutico de Joinville, Opção de Vida.

O céu está cinza como todas as paredes do local. Até chegar ao solo, a chuva rasga a poeira do ar assim como os arames afiados da cerca elétrica desejam fazer com qualquer pele que passar por ali. Mauro, de pele negra feito as penas de uma graúna, mergulha em desespero a cada vez que o sino do local toca. O sino, que estremece qualquer tímpano, é responsável por avisar quando alguma família chega. Ouve-se tocar uma, duas, três, cinco, dez vezes. Nenhuma delas é para Mauro. Cada soada é como se crivassem-o de bala.

O teatro envolve a platéia, cada adolescente é convidado a contar uma história para os artistas recriarem ali mesmo, na improvisação, em meio a tanto afago. As cenas vão acontecendo e ao menos vinte lágrimas diferentes se juntam no piso branco do espaço. As de Mauro em segundos vão de encontro à mesa. Sua cabeça, em meio aos braços, está abaixada e grudada no objeto que todos os dias serve de apoio para realizar refeições.

Mauro nasceu e morou em Itapocu, cidade praiana próxima a Joinville. Lá, morava com seu pai, madrasta e avó. Depois, só com sua avó. Seu pai José Roberto, foi embora com a madrasta, Ana Maria, depois dele ter mexido no celular dela sem permissão. Sua mãe? Nunca conheceu. Janete mora na Espanha desde que Mauro se conhece por gente. Mesmo assim, sua alegria foi incontestável ao lembrar quando ouviu pela primeira vez a voz dela, por telefone no ano passado. Também em Itapocu, ele trabalhava de roçador com conhecidos de sua família. Foi na mesma cidade que Mauro, hoje com quinze anos, experimentou e passou a usar frequentemente maconha, ecstasy e cocaína.

Agora, na nova casa, Mauro acorda todos os dias às seis e meia, escova os dentes e toma café. Às nove vai para a terapia e fica por lá até às onze. Depois, às onze e meia, almoça. Uma hora e meia mais tarde ele vai ao descanso e fica lá até uma e vinte da tarde. Em seguida, acorda e vai para a aula. Artes é sua matéria preferida. Fora dali, estudou até o nono ano. Às dezesseis e trinta sobe as escadas para ficar com o tempo livre.

Chegou ao núcleo socioterapêutico há dois meses, no dia vinte seis de março de dois mil e dezessete. Flamenguista, aproveita os dias de sol para ouvir funk e jogar futebol tentando imitar Neymar, seu ídolo. Logo Neymar, que em 2011 recebeu o Prêmio Puskás pelo gol mais bonito do ano, feito em cima do seu time do coração. Com a voz de quem está com um martelo pregando lágrimas na garganta, conta que em Itapocu o que mais gostava de fazer era usar drogas. O que menos gostava? Estar com a família, pois não apreciava ser julgado pelas pessoas do sangue familiar. Agora, ver os familiares, principalmente sua avó, é um dos momentos mais prazerosos.

Mauro, convicto, diz que os problemas familiares como a morte de uma mãe, agressões sofridas pelos pais e a solidão, são motivações mais que justas para alguém usar drogas. Seu campo de pesquisa foi realizado na prática e no diálogo com seus amigos que também têm na química algum motivo de alívio e prazer.

Mas nem só de lamentos e reflexões é formado o adolescente. Também há sonhos. Na ânsia pela vida, deseja estudar engenharia mecânica, trabalhar na área e comprar uma moto. Mas nada se compara com o maior e mais verdadeiro desejo: voltar a morar com sua avó, Amaflor, de 86 anos.

Ainda na peça de teatro, ela já está chegando ao fim. Ao olhar para frente, fitava seus olhos em Cristian, abraçado à família, e o via abrir sorrisos do tamanho de sua frustração. O relógio cravava três e quarenta e uma da tarde quando o sino tocou pela última vez naquele dia. Era Amaflor, sua amada avó que chegava. O espetáculo teatral duraria mais quatro minutos. Às quinze e quarenta e cinco se encerrara. Pouco importa, pois o abraço em sua avó durou mais que o dobro desse tempo.

Deus e a avó são as maiores paixões de Mauro. Essas, suas motivações para deixar de ser um apreciador químico e passar a viver no acalanto das flores.

Eu, dois dias depois de conhecer Mauro, tive que velar e enterrar minha avó Doracy, também de 86 anos, a última das minhas avós e avôs. Como pode alguém morrer no mesmo dia que o outro está voltando a viver?

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