O Pedófilo Adolescente

Acredito que uma das maiores erroneidades em relação aos pedófilos é que todos são homens, de meia idade e acima, e que todos sentem atração por crianças por livre e espontânea vontade. Ou seja, o “perfil pedófilo” como isto é comumente referido na Internet. Claro, este “perfil” tem algumas outras características mas gostaria de focar mais na questão da idade e sexo neste blog. Gostaria na verdade de falar sobre os pedófilos adolescentes.


Apesar de fazer mais de uma década desde que eu deixei de ser um adolescente, ainda me lembro com muita clareza sobre como era ser um pedófilo nesta época. Acho que todos nós acabamos, naturalmente a medida que crescemos, esquecendo um pouco sobre a nossa adolescência. Talvez quando tivermos filhos que passem pela adolescência é que iremos relembrar muitas das angústias e dificuldades, assim como das alegrias e esperanças, desta fase da vida que é tão única.

Eu já comentei um pouco sobre como é ser pedófilo nesta fase da vida, ao falar sobre A Vida de um Pedófilo. Gostaria de entrar um pouco mais no assunto aqui no entanto. Conforme eu disse no início deste post existem muitas pessoas que acreditam que ser um pedófilo é uma escolha. Assim como acreditam que uma pessoa passa a ser um pedófilo quando abusa de uma criança sexualmente. Ambas as noções são erradas no entanto.

Primeiro, ninguém escolhe ser atraído sexualmente por crianças. Não consigo imaginar ninguém fazendo esta escolha de livre e espontânea vontade. Apesar de ser atraído por crianças eu gostaria que isto não fosse verdade. Claro, existem pedófilos que não mudariam suas atrações sexuais, mas eu pessoalmente gostaria de mudá-las, se isto fosse possível (algo que infelizmente não é).

Segundo, aqueles que abusam sexualmente de crianças não são denominados pedófilos. Já mencionei em diversos posts do blog que pedofilia é um termo clínico e científico, e não um termo legal. Para maiores informações sobre esta importante diferenciação sugiro lerem este artigo, feito por estudantes de Direito da Faculdade de Direito de Varginha. Logo, pessoas que abusam de crianças são ofensores sexuais (se utilizarmos a mesma denominação que existe em Inglês), ou abusadores de crianças. Assim como é importante ressaltar que nem todos os abusadores de crianças são pedófilos, ou seja, nem todos sentem atração por crianças. Irei falar mais sobre esta diferenciação em um post futuro, sobre os pedófilos ofensores.

Uma ótima pergunta, mas infelizmente ainda não se tem uma resposta definitiva para isto. Existe a teoria de que pessoas que foram abusados se tornam futuros abusadores, teoria que tem sido contestada, assim como poderiam se tornar atraídos por crianças.

Uma outra teoria é de que esta é uma condição congênita (nascemos com ela) e que existem diferenças nos cérebros das pessoas que possuem pedofilia em comparação com pessoas que não são pedófilas. Logo, esta condição não é algo escolhido pela pessoa, simplesmente é algo com a qual ela nasce. Descobrir isso somente acontece no momento da vida em que todos descobrem sua sexualidade: na puberdade.

Parem e considerem por um instante estas implicações. Eu já havia proposto este cenário mental no post E se fosse seu filho/irmãozinho/sobrinho/primo/afilhado ?, pedindo que as pessoas imaginassem se um(a) adolescente na sua família tivesse essa condição. Eu propus o seguinte naquele post:

Então agora lembrem desta época da vida de vocês (quero dizer a puberdade) e como as coisas podiam facilmente se tornar confusas em relação ao desenvolvimento do seu próprio corpo assim como de novos sentimentos e pensamentos, de natureza sexual, que antes não existiam em suas mentes. Acredito que a maioria deve lembrar que esta era uma época confusa. Logo, me pergunto, algum de vocês algum dia pediu conselhos/ajuda para um adulto sobre questões sexuais? E se sim, qual foi o resultado?
Agora, lembrem-se que vocês são “normais” no sentido que possuem uma atração sexual considerada normal. E se vocês fossem pedófilos e tentassem fazer esse pedido por conselhos e/ou ajuda? E se alguém na sua família, a quem você ama, e tivesse essa idade pedisse ajuda para você porque se sente atraído(a) por crianças? Que não consegue parar de se sentir atraído(a) por elas? Que pessoas de sua própria idade não as atraem sexualmente e somente pessoas significativamente mais jovem as atraem? Como você reagiria?

Agora peço que analisem seus próprios sentimentos e respondam a si mesmos: Como seria para vocês se vocês se sentissem atraídos por crianças menores? Pedófilos começam a entender suas atrações em torno dos 13 aos 15 anos. Até então eles sentem essa atração, provavelmente desde os 11 ou 12 anos, mas não conseguem compreender a plenitude destes novos sentimentos. Conforme eu disse, a puberdade é um período confuso para muitas pessoas. Entretanto este pedófilo irá encontrar muita pouca informação de qualidade sobre suas atrações, caso ele vá procurar online.

Fonte: http://prevention.psu.edu/media/prc/files/LetourneauPresentation.pdf

Eu lembro de, aos 15 anos de idade, ser chamado de pedófilo pela primeira vez. Eu havia confidenciado a um amigo que ainda sentia atração sexual por meninas mais novas, apesar de já ter 15 anos. Ele me chamou de pedófilo, com raiva no seu olhar. Ao procurar mais sobre isto na Internet encontrei uma série de coisas negativas:

  • Que eu era um monstro
  • Que eu eventualmente iria abusar de uma criança (a profecia autorrealizável)
  • Que pessoas como eu deveriam morrer (mesmo sem ter feito nada)

Isto, por consequência, me gerou vários sentimentos ruins:

  • Eu me odiava
  • Eu queria morrer (e inclusive tentei suicídio)
  • Que todos me abandonariam
  • Que ninguém iria me ajudar

Mesmo sem eu ter o desejo de machucar ninguém. Mesmo sem eu me achar, até então, uma pessoa ruim. Isto é muita pressão psicológica para um adolescente que ainda não terminou de desenvolver seu lado emocional e seu lado psicológico. Estas ideias eram tão pervasivas e perversas que logicamente eu nunca pensei em contestá-las. Simplesmente adotei as mesmas como sendo verdade.

Muitas destas emoções e noções são reportadas por outros pedófilos ao relatarem como foi sua adolescência. Existe inclusive um projeto, feito pelo Moore Center for Prevention of Child Sexual Abuse (Centro Moore para a Prevenção de Abuso Sexual Infantil), chamado “Help Wanted” (Procura-se Ajuda). Este projeto visa a obter maiores informações sobre a adolescência de pedófilos, de maneira que seja possível criar e disponibilizar novos recursos que os suportem durante essa fase de suas vidas.

Importante ressaltar que cerca de um terço (35.6%) de ofensores sexuais contra crianças são adolescentes. Novamente ressaltando que somente em torno de 35% de ofensores sexuais contra crianças são de fato pedófilos. Ainda assim, é importante ressaltar a importância de termos um diálogo mais aberto em relação à pedofilia, especialmente visando a podermos suportar melhor os adolescentes pedófilos. De maneira que os mesmos possam ter uma vida melhor e se tornarem adultos mais resolvidos e capazes de gerencias suas atrações sexuais.

Simplesmente ignorar que a pedofilia é, de acordo com estudos recentes, congênita, e que a mesma se torna aparente durante a puberdade traz uma série de malefícios. Primeiramente estamos ignorando a existência de diversos pedófilos adolescentes, os quais acabam não tendo nenhum recurso e apoio durante essa fase complicada de suas vidas. Ao procurarem online provavelmente irão encontrar muitas coisas ruins e ofensivas em relação a eles, o que inevitavelmente os faz se sentirem ruins. Muitos destes adolescentes acabam se tornando retraídos, introvertidos e depressivos.

Conheço alguns deles que pensam sobre o suicídio, que se mutilam para tentar lidar com todos estes sentimentos ruins. Por um outro lado acabamos criando um problema ao não provermos suporte e orientação para estes jovens. Conforme mencionado anteriormente, um grande número deles pode acabar abusando de uma criança. A combinação de hormônios à flor da pele (característica da puberdade) mais a instabilidade emocional pode os levar a fazer algo que normalmente não fariam. Quem acaba sofrendo com isto são outras crianças.

Apesar de já ter tido isto anteriormente em outros posts, não consigo deixar de ver como a relutância em discutir abertamente a pedofilia seja maléfica. Somente vejo ótimas oportunidades ao podermos discutir à nível de sociedade esta questão. Iremos beneficiar diversas pessoas que poderão ter vidas melhores. Assim como poderemos com certeza diminuir as probabilidades que alguma criança seja abusada sexualmente.

Entretanto a sociedade tem uma ideia fixa na cabeça de que pessoas que se sentem atraídas por crianças deveriam ser trancafiadas para sempre, mesmo se estas pessoas não tenham feito nada. Ou pior, de que estas pessoas deveriam ser mortas. Então isto quer dizer que devemos matar adolescentes?

Não. Como adultos o nosso papel é ajudar os adolescentes. Prover suporte e orientação para que eles possam se desenvolver da melhor maneira possível. Esta fase, onde eles começam a se descobrir como pessoas, é muito crítica. Por que não estender a mão para eles? Pedófilos não são pessoas que escolhem se sentir atraídos por crianças, nem possuem um tipo de “perfil”, ao contrário da crença popular. Eles são pessoas comuns, que estão vivendo suas vidas como qualquer outra pessoa. Existem chances que alguma pessoa em sua vida seja um pedófilo.

Entretanto, todos estas pessoas foram, ou ainda são ou ainda serão, adolescentes. Atravessando a puberdade e aprendendo mais sobre a sua sexualidade. Esta sexualidade no entanto não é comum, como a da maioria das pessoas. Existe hoje uma quantidade de Estigma muito grande em relação à pedofilia e, por consequência, aos pedófilos. Seria ótimo se as pessoas pudessem dar Uma Chance ao assunto e à essas pessoas.

Acho que todos podemos concordar que como adultos devemos orientar os adolescentes a realizarem boas ações e terem bons comportamentos. Eles não são mais crianças, que deferem ao julgamento dos adultos. Adolescentes têm, e devem ter, responsabilidades que condigam com a sua maturidade. Neste caso, também temos a obrigação de nos fazermos disponíveis para que eles nos venham consultar quando acharem necessário. Neste cenário, não vejo como continuar a manter o estigma sobre a pedofilia como sendo algo produtivo.

Considerando que muitas adolescentes irão passar por um período difícil de suas vidas, como a puberdade, tendo que conviver não somente com seus sentimentos e pensamentos sobre sua sexualidade pedófila mas, também, com o estigma e preconceito que nós, a sociedade, direcionamos à eles. Não é justo que nós adultos, que temos o ônus de ajudar e orientar estes adolescentes, os façamos sentir piores em relação a si mesmos.

Ao invés de direcionarmos ódio e ojeriza a estes adolescentes nós deveríamos estender uma mão a eles. Ajudá-los a entender mais sobre pedofilia, sob uma luz anti-contato, e prover qualquer tipo de ajuda/orientação que eles achem necessário, se acharem necessário, para se manterem não-ofensores.

Não consigo deixar de visualizar este tipo de ação como o mínimo que devemos fazer, como sociedade, em um nível básico de humanidade, por estes adolescentes. Também não consigo deixar de ver isto como sendo uma importante ação de prevenção primária de possíveis abusos sexuais infantis. Me parece óbvio que se pudermos influenciar positivamente estes jovens os mesmos terão uma probabilidade menor de cometerem um eventual abuso (seja na adolescência ou nas suas vidas adultas). Mais do que isso, e volto a insistir neste ponto, é o mínimo que nós adultos podemos fazer por estes adolescentes. É nosso trabalho ajudá-los e orientá-los quando possível. Nós não podemos deixar que um estigma e preconceito nos impeça de alcançar este objetivo básico. Peço novamente que lembrem-se da sua própria puberdade, e que também possam se colocar no lugar destes jovens pedófilos e imaginar como deve ser suas vidas. O caminho para a mudança passa por você. Seja parte desta mudança.


Originally published at pensamentosfolle.blogspot.com on January 1, 2000.

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