Fosse só a pipa
Certa vez, uma amiga me indicou uma diarista de sua confiança. Liguei e combinamos que ela viria no sábado. Dulce era realmente uma pessoa íntegra, simples, de bom caráter e logo pude entender porque minha amiga confiava tanto naquela pequena mulher de um metro e cinquenta e poucos, que compensava a falta de estatura falando sem parar.
Depois do almoço, arrumando a casa, a gente trocava uma conversa. Dulce morava no Distrito Industrial, numa cidade vizinha à Belém. O “Distrito”, para os mais íntimos, é um bairro com alto índice de violência, daqueles que tem pauta certa nos programas mundo-cão das tv’s locais. Eu, que não tenho nenhum apreço por esse tipo de notícia, sempre tô por fora desses assuntos. Foi aí que a Dulce perguntou:
-Mas tu viste o que aconteceu anteontem lá no Distrito?
-Não. o que foi?
-Passou até na tv! Um menino não meteu uma faca no outro só por causa de uma pipa?
-Égua. Sério, Dulce?
-Foi!
Sem saber o que dizer, um silêncio constrangedor tomou conta do ambiente por uns breves segundos até que ela emendou:
-É por isso que eu não gosto desses negócios de pipa.
Quem dera o nosso problema fosse só uma pipa, Dulce…
