Fosse só a pipa

Lucas Padilha
Sep 7, 2018 · 1 min read

Certa vez, uma amiga me indicou uma diarista de sua confiança. Liguei e combinamos que ela viria no sábado. Dulce era realmente uma pessoa íntegra, simples, de bom caráter e logo pude entender porque minha amiga confiava tanto naquela pequena mulher de um metro e cinquenta e poucos, que compensava a falta de estatura falando sem parar.

Depois do almoço, arrumando a casa, a gente trocava uma conversa. Dulce morava no Distrito Industrial, numa cidade vizinha à Belém. O “Distrito”, para os mais íntimos, é um bairro com alto índice de violência, daqueles que tem pauta certa nos programas mundo-cão das tv’s locais. Eu, que não tenho nenhum apreço por esse tipo de notícia, sempre tô por fora desses assuntos. Foi aí que a Dulce perguntou:

-Mas tu viste o que aconteceu anteontem lá no Distrito?

-Não. o que foi?

-Passou até na tv! Um menino não meteu uma faca no outro só por causa de uma pipa?

-Égua. Sério, Dulce?

-Foi!

Sem saber o que dizer, um silêncio constrangedor tomou conta do ambiente por uns breves segundos até que ela emendou:

-É por isso que eu não gosto desses negócios de pipa.

Quem dera o nosso problema fosse só uma pipa, Dulce…