Me deixa ser triste, porra!

Capa do disco Are we there (2014), de Sharon Van Etten. Jagjaguwar©

Já dizem os versos da canção: “eu devia estar contente porque tenho um emprego, sou um dito cidadão respeitável e ganho 4 mil cruzeiros por mês”. Não faço ideia de quanto valeria essa grana atualmente, mas apesar de todas as conquistas, todos os privilégios, ainda assim não me sinto contente e chego a duvidar da felicidade plena e totalitária.

Não sei se por causa das várias porradas da vida— e depois dos trinta parece que cada ano é um round — mas há algum tempo eu me peguei pensando: acho que me acostumei a ser triste e a solidão não é tão ruim assim. É foda? É foda. Mas em em alguns casos é melhor do que ter alguém te aporrinhando. Eu sei, cada vez mais, que sou um cara chato e, às vezes, pessimista. Ninguém precisa me dizer isso. Mas ultimamente tenho compreendido que também sou um cara triste, por natureza. E sou feliz assim.

Tenho preguiça só de pensar-em-tentar-fazer-um-esforço-pra-parecer-feliz. Não tenho saco, mesmo. Deslizar o dedo por qualquer timeline já é um tédio dos infernos com tanta fofura sendo esfregada na minha cara. Não culpo ninguém por ser feliz — é isso mesmo, uhuw, parabéns — mas também não quero me sentir obrigado a sufocar minha angústia, meus medos, meus erros, minhas lágrimas. Negar toda a dor e tristeza não nos torna mais felizes. Nos torna mais fracos.

Não estou dizendo que gosto de me sentir assim, porque ao fim e ao cabo toda “tristeza tem sempre uma esperança de um dia não ser mais triste”. Mas trato com respeito os meus dias de bads, com uma certa solenidade até. É preciso passar por eles pra compreender que a vida não sorri todos os dias quando você se olha no espelho. É importante duvidar de si, confrontar os sentimentos, remoer as ideias e, principalmente, deixar que o tempo te faça amadurecer. Ela, a ansiedade, é uma desgraçada. E saber reconhecer minhas próprias fraquezas já é um bom começo para não me descontrolar.

Eu sei que é muito difícil hoje as pessoas aceitarem a tristeza. Afinal, pra que serviria o Instagram se ninguém compartilhasse alegria? E eu concordo, alegria é pra ser dividida mesmo, mas a tristeza precisa também ter sua voz e ser ouvida, compartilhada. “Eu não consigo ser alegre o tempo inteiro”, mas tenho meus momentos felizes e valorizo muito mais esses porque respeito os dias em que não sorri.